O que é um Eneatipo e quantos existem
Um eneatipo é cada um dos nove tipos de personalidade que o eneagrama descreve. No modelo, não é uma lista de traços, mas uma estrutura: um medo de fundo, um desejo que tenta compensá-lo e uma série de hábitos emocionais e mentais que se organizam em torno de ambos.
Este artigo explica de que peças é feito um eneatipo e como se combinam. É material de divulgação sobre um modelo de personalidade, não um diagnóstico.
A ideia de partida: uma personalidade condicionada
A premissa do eneagrama é que, nos anos de formação, cada pessoa desenvolve uma estratégia de proteção perante as suas vulnerabilidades emocionais. Com o tempo, essa estratégia torna-se automática e confunde-se com a própria identidade.
Na linguagem do sistema, essa estrutura é o ego ou a personalidade condicionada, e o eneatipo é a sua forma concreta. Daí uma consequência importante: o modelo não classifica pelo comportamento, mas pela motivação. Duas pessoas podem ficar a trabalhar até tarde, uma por medo de não ser suficientemente competente (um padrão próprio do 5) e outra pela necessidade de se sentir imprescindível para a sua equipa (próprio do 2).
Quantos eneatipos existem
Há nove, numerados de 1 a 9 segundo a sua posição no símbolo: o 1, o 2, o 3, o 4, o 5, o 6, o 7, o 8 e o 9. Cada um tem a sua ficha, e o resumo comparado dos nove está em quais são as 9 personalidades do eneagrama.
Os números não indicam ordem de importância nem de maturidade. O 1 não é «melhor» do que o 9: são posições num círculo.
A anatomia de um eneatipo
Cada tipo descreve-se com as mesmas peças. Tomamos o 1 como exemplo para que se veja como encaixam.
Medo básico e desejo básico
O medo básico é a ameaça que a pessoa tenta evitar sem se dar conta. O desejo básico é o objetivo que persegue para se sentir a salvo. Na formulação de Riso e Hudson, o 1 receia ser mau ou defeituoso e deseja ser bom e íntegro. O desejo é legítimo; o problema surge quando é perseguido de forma compulsiva.
Paixão e fixação
Óscar Ichazo, que foi quem associou cada ponta do símbolo a um tipo de caráter, descreveu duas distorções para cada um:
- A paixão, uma distorção emocional. As nove paixões são a raiva, a soberba, a vaidade, a inveja, a avareza, o medo, a gula, a luxúria e a preguiça, do 1 ao 9. Sete delas coincidem com os pecados capitais da tradição cristã, a que se juntam o medo e a vaidade.
- A fixação, uma distorção do pensamento: a ideia recorrente com que a mente justifica a paixão. No 1, por exemplo, a raiva vem acompanhada do ressentimento; no 7, a gula vem acompanhada do planeamento constante.
Claudio Naranjo retomou esta estrutura e relacionou cada tipo com um estilo de caráter descrito pela clínica: o 1 com a personalidade obsessiva, o 2 com a histriónica ou o 6 com o caráter paranoide, sempre como estilos e não como perturbações.
Níveis de desenvolvimento
Riso e Hudson acrescentaram uma dimensão vertical: cada tipo pode ser vivido em nove níveis, agrupados em três faixas (saudável, média e pouco saudável). Um 1 na faixa saudável é sábio, justo e tolerante; na faixa média, crítico e exigente; na pouco saudável, rígido e intransigente. É uma ideia útil porque explica por que razão duas pessoas do mesmo tipo podem parecer tão diferentes.
As peças que matizam o tipo
As asas
As asas são os dois números vizinhos no símbolo. Segundo o modelo, o tipo básico não muda, mas adota nuances do vizinho com que tem mais afinidade.
Por exemplo, um 4 com asa 3 tende a mostrar a sua sensibilidade de forma mais expressiva e orientada para o reconhecimento, ao passo que um 4 com asa 5 se volta mais para a introspeção e para o pouco convencional. Com duas asas possíveis por tipo, resultam 18 combinações.
Os subtipos instintivos
O terceiro nível é o instinto dominante. A tradição distingue três:
- Autopreservação: atenção à segurança física, à saúde, aos recursos e ao conforto.
- Social: atenção ao grupo, à pertença, ao lugar que se ocupa numa comunidade.
- Um a um ou sexual: atenção aos vínculos intensos com pessoas concretas.
Naranjo desenvolveu, a partir de Ichazo, a combinação dos nove tipos com os três instintos em 27 subtipos, e Riso e Hudson retomam a mesma ideia como «variantes instintivas». Um 6 de autopreservação e um 6 um a um podem parecer quase opostos: o primeiro procura proteção e calor humano; o segundo, muitas vezes, enfrenta o perigo para provar a si mesmo que é forte.
As três tríades ou centros
Os nove tipos agrupam-se em três centros, segundo o lugar a partir do qual reagem primeiro:
- Instintivo (8, 9 e 1): reagem a partir do corpo, com a raiva de fundo.
- Emocional (2, 3 e 4): reagem a partir do sentimento e da imagem, com a vergonha de fundo.
- Mental (5, 6 e 7): reagem a partir do pensamento, com o medo ou a ansiedade de fundo.
Direções de stress e crescimento
As linhas interiores do símbolo marcam, para cada tipo, duas direções. Sob stress prolongado (desintegração), a pessoa adotaria traços pouco saudáveis de outro tipo; no seu desenvolvimento (integração), incorporaria as qualidades saudáveis de um terceiro.
| Tipo | Sob stress desloca-se para o | Em crescimento desloca-se para o |
|---|---|---|
| 1 | 4 | 7 |
| 2 | 8 | 4 |
| 3 | 9 | 6 |
| 4 | 2 | 1 |
| 5 | 7 | 8 |
| 6 | 3 | 9 |
| 7 | 1 | 5 |
| 8 | 5 | 2 |
| 9 | 6 | 3 |
Que parte desta anatomia tem suporte
Convém separar as peças. A revisão sistemática de Hook e colaboradores (2021), com 104 amostras, encontrou evidência mista sobre o eneagrama: algumas escalas relacionam-se com o Big Five como a teoria prevê, mas as análises fatoriais costumam encontrar menos de nove fatores e quase não há investigação que sustente as asas e as deslocações entre tipos.
Por outras palavras: as asas, os subtipos e as setas são desenvolvimentos teóricos dos autores, úteis para pensar, mas não resultados empíricos. Por isso faz sentido tomar o próprio eneatipo como uma hipótese de trabalho para nos observarmos, e não como um rótulo.
Se te interessa explorar qual dos nove encaixa melhor na tua forma de ser, podes experimentar o nosso teste de eneagrama.
Fontes
- Riso, D. R. e Hudson, R. (1999). The Wisdom of the Enneagram. Nova Iorque: Bantam.
- Naranjo, C. (1994). Character and Neurosis: An Integrative View. Nevada City: Gateways/IDHHB.
- Hook, J. N., Hall, T. W., Davis, D. E., Van Tongeren, D. R. e Conner, M. (2021). The Enneagram: A systematic review of the literature and directions for future research. Journal of Clinical Psychology, 77(4), 865-883. https://doi.org/10.1002/jclp.23097
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
O que é exatamente um eneatipo?
Segundo este modelo, a estrutura de personalidade condicionada que se forma na infância à volta de um medo básico e de um desejo compensatório concretos: um dos nove padrões que o sistema descreve.
O que são as 'asas' no eneagrama?
Os dois números adjacentes ao tipo principal no símbolo geométrico: segundo esta abordagem, matizam o comportamento do tipo base sem o alterar, acrescentando traços dos perfis vizinhos.
Pode-se mudar de eneatipo ao longo da vida?
Segundo este modelo, não: o tipo básico mantém-se toda a vida, ainda que a pessoa se desloque temporariamente para os padrões de outro eneatipo sob stress (desintegração) ou no seu desenvolvimento (integração).
Quantas combinações diferentes descreve o eneagrama?
Depende do nível de pormenor: 9 tipos; 18 se se tiver em conta a asa dominante; 27 subtipos se se combinarem os 9 tipos com os 3 instintos (autopreservação, social e um a um), como fez Claudio Naranjo.