Quais são as 9 personalidades do eneagrama?
O eneagrama é um modelo de personalidade que descreve nove tipos, chamados eneatipos, cada um organizado em torno de um medo e de um desejo de fundo. É usado sobretudo em desenvolvimento pessoal, coaching e espiritualidade; não faz parte da psicologia académica dominante nem dos manuais de diagnóstico.
Segundo o modelo, esses medos e desejos orientam as reações automáticas do dia a dia, as que surgem quase sem pensar. Conhecê-los apresenta-se como uma forma de olhar com mais distância para os próprios mecanismos de defesa, sem que isso seja uma promessa de mudança nem substitua a orientação de um profissional.
Os nove eneatipos de relance
A tabela resume os nove tipos com os nomes da escola de Riso e Hudson, a mais difundida hoje, e as paixões descritas por Ichazo e Naranjo. As setas indicam, segundo Riso e Hudson, o tipo para onde cada um se deslocaria sob stress e ao crescer.
| Tipo | Nome | Medo básico | Desejo básico | Paixão | Sob stress | Ao crescer |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Reformador | Ser mau, defeituoso ou corrupto | Ser bom, íntegro, correto | Ira | 4 | 7 |
| 2 | Ajudante | Não ser querido | Sentir-se amado | Orgulho | 8 | 4 |
| 3 | Realizador | Não ter valor | Sentir-se valioso | Vaidade | 9 | 6 |
| 4 | Individualista | Não ter identidade nem significado próprio | Encontrar-se a si mesmo | Inveja | 2 | 1 |
| 5 | Investigador | Ser inútil ou incapaz | Ser capaz e competente | Avareza | 7 | 8 |
| 6 | Leal | Ficar sem apoio nem orientação | Ter segurança e apoio | Medo | 3 | 9 |
| 7 | Entusiasta | Sofrer privação ou dor | Estar satisfeito e realizado | Gula | 1 | 5 |
| 8 | Desafiador | Ser ferido ou controlado por outros | Proteger-se e decidir a própria vida | Luxúria (intensidade) | 5 | 2 |
| 9 | Pacificador | A perda e a separação | Paz interior e estabilidade | Preguiça | 6 | 3 |
Os tipos agrupam-se ainda em três centros: instintivo (8, 9 e 1), emocional (2, 3 e 4) e mental (5, 6 e 7). Cada tipo tem duas “asas”, os números vizinhos no círculo, que segundo o modelo matizam a sua forma de se exprimir; um 9 com asa 8 seria mais firme e um com asa 1, mais organizado.
A origem das nove posturas, segundo o modelo
A tradição do eneagrama propõe que cada tipo nasce como uma estratégia de proteção emocional na infância. Perante a sensação de vulnerabilidade, a criança desenvolveria uma forma de se apresentar ao mundo que a protege: aquilo a que o modelo chama “ego” ou “personalidade”, por oposição à “essência”.
Essa identidade defensiva construir-se-ia sobre um medo básico particular, e a partir daí desenvolver-se-iam estratégias para obter segurança, atenção ou autonomia. Por exemplo, uma criança que sente que recebe afeto sobretudo quando ajuda poderia acabar, em adulta, a pôr as necessidades dos outros à frente das suas, o padrão do tipo 2.
É uma hipótese do modelo, não um resultado: não há estudos que mostrem que os eneatipos se formam assim.
Os nove tipos, um a um
- Tipo 1, o Reformador: procura fazer as coisas bem para compensar o medo de ser defeituoso. É exigente consigo próprio e com quem o rodeia, como se trouxesse uma lupa que deteta o que falha. O modelo associa o seu desenvolvimento a transformar a raiva contida em serenidade e a aceitar a realidade sem lhe exigir que seja perfeita.
- Tipo 2, o Ajudante: sente que atender às necessidades dos outros é o caminho para receber afeto. Tende a esquecer as suas e a tornar-se imprescindível para o outro. O modelo propõe que o seu desenvolvimento passa por reconhecer as próprias necessidades, aquilo a que a tradição chama transformar o orgulho em humildade, e aprender a cuidar de si.
- Tipo 3, o Realizador: liga o seu valor às suas conquistas e à imagem que projeta. Adapta-se com facilidade ao que o meio premeia. O crescimento associa-se a substituir a vaidade pela autenticidade, a ser como é em vez de como convém parecer.
- Tipo 4, o Individualista: procura uma identidade própria e diferente, e sente muitas vezes que lhe falta algo essencial para ser feliz. Tende a viver as emoções com intensidade. O equilíbrio, segundo o modelo, chega ao cultivar a equanimidade e ao olhar também para fora.
- Tipo 5, o Investigador: protege a sua energia e o seu espaço e prefere compreender as coisas a vivê-las por inteiro. Acumula conhecimento como forma de se sentir capaz. O modelo associa o seu desenvolvimento a ligar o pensamento à experiência e aos sentimentos.
- Tipo 6, o Leal: vive atento aos riscos por receio de ficar sem apoio. Duvida das próprias decisões e procura referências em quem confiar. O modelo distingue um 6 fóbico, mais prudente, e um contrafóbico, que enfrenta o medo de caras. A sua evolução descreve-se como transformar a ansiedade em confiança interior.
- Tipo 7, o Entusiasta: mantém muitas opções em aberto e procura experiências estimulantes, em parte para não se deter no mal-estar. Salta com facilidade de um plano para o seguinte. Segundo o modelo, a calma chega quando aprende a ficar no presente e a tolerar o tédio.
- Tipo 8, o Desafiador: protege-se com uma couraça de força por receio de ser ferido ou controlado. Tende a assumir o comando e a enfrentar de forma direta o que perceciona como ameaça. O modelo associa a sua maturidade a largar o controlo e aceitar a própria vulnerabilidade.
- Tipo 9, o Pacificador: põe de lado as suas opiniões para evitar atritos e manter a calma à sua volta. Pode cair numa espécie de piloto automático e desvalorizar o que o inquieta. O modelo associa o seu desenvolvimento a fazer valer a própria presença e opinião.
O que diz a investigação
A revisão sistemática de Hook e colaboradores (2021), que reuniu 104 amostras, encontrou evidência mista sobre a fiabilidade e a validade dos questionários de eneagrama. As escalas dos tipos relacionam-se com o Big Five de forma coerente com a teoria, mas as análises estatísticas costumam encontrar menos de nove fatores, e nenhum estudo obteve os nove tipos agrupando as pessoas a partir das suas respostas.
Por outras palavras: os nove tipos funcionam como uma linguagem descritiva que muita gente considera útil, mas não se demonstrou que sejam nove categorias naturais de pessoas. Por isso, o resultado de qualquer teste de eneagrama deve ser lido como uma hipótese, como explicamos em como saber o meu eneagrama.
Do tipo à observação de si próprio
Identificar o próprio eneatipo é, dentro deste modelo, um primeiro passo de auto-observação: reconhecer o momento em que se reage de forma automática e distinguir esse padrão aprendido da própria identidade.
A abordagem associa o bem-estar a substituir pouco a pouco essas respostas automáticas por decisões mais livres, embora o processo de cada pessoa seja diferente e, perante um mal-estar importante, o indicado seja a orientação de um profissional.
Queres saber qual dos nove encaixa contigo? O nosso teste de eneagrama é uma forma orientativa de o explorares.
Fontes
- Hook, J. N., Hall, T. W., Davis, D. E., Van Tongeren, D. R., e Conner, M. (2021). The Enneagram: A systematic review of the literature and directions for future research. Journal of Clinical Psychology, 77(4), 865-883. doi:10.1002/jclp.23097
- Naranjo, C. (1994). Character and Neurosis: An Integrative View. Gateways/IDHHB.
- Riso, D. R., e Hudson, R. (1999). The Wisdom of the Enneagram. Bantam.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Em que se distingue este resumo dos artigos dedicados a cada eneatipo?
Aqui comparam-se os nove de relance, com o seu medo básico, o seu desejo básico, a sua paixão e as suas setas; cada eneatipo tem ainda o seu próprio artigo, com mais profundidade e nuances.
Há um eneatipo melhor do que os outros?
Não. Segundo o modelo, os nove são estratégias igualmente compreensíveis na sua origem, nenhum é superior e cada um tem o seu próprio desafio de desenvolvimento.
Como se decide para que eneatipo aponta o crescimento de cada tipo?
O modelo traça essas direções com as linhas interiores do símbolo geométrico, que unem os pontos numa sequência fixa (1-7-5-8-2-4-1 e o triângulo 3-6-9). Fazem parte da teoria do sistema, não são um resultado de investigação empírica.
O que é a «paixão» de cada eneatipo?
É o termo que Óscar Ichazo e Claudio Naranjo usaram para a emoção dominante de cada tipo, inspirada na lista clássica de pecados capitais, à qual acrescentaram o medo e a vaidade (ou o engano): ira, orgulho, vaidade, inveja, avareza, medo, gula, luxúria e preguiça. No eneagrama não têm sentido moral, mas descritivo.