O que significa eneagrama?
Eneagrama é uma palavra de origem grega que designa, antes de mais, um desenho: um círculo com nove pontos e umas linhas que os unem. Sobre esse desenho construiu-se depois um modelo de nove tipos de personalidade, que explicamos em o que é o eneagrama.
Este artigo fica-se pela palavra e pelo símbolo: de onde vêm, o que representa cada traço e como uma figura passou de um sistema esotérico para os questionários de personalidade.
A palavra: «figura de nove»
O termo junta duas raízes gregas: ennea, «nove», e gramma, que significa letra, traço ou figura desenhada. É a mesma raiz que aparece em diagrama, programa ou telegrama.
Literalmente, eneagrama é «figura de nove» ou «desenho de nove». Em inglês escreve-se com duplo n (enneagram), mais perto do grego; em português a grafia consolidada é com um só.
O símbolo, peça a peça
O desenho tem três elementos, e cada um tem a sua própria lógica:
- O círculo. Nove pontos distribuídos a distâncias iguais, numerados no sentido dos ponteiros do relógio, com o 9 em cima. Representa a unidade do conjunto.
- O triângulo. Une os pontos 9, 3 e 6. É uma figura fechada e independente do resto.
- A figura de seis pontas (a «héxade»). Une os pontos restantes numa ordem fixa: 1, 4, 2, 8, 5, 7 e de volta ao 1.
Essa ordem não é arbitrária. Ao dividir 1 por 7 obtém-se 0,142857142857…, uma dízima que repete sempre a mesma sequência de seis algarismos: exatamente o percurso da héxade. Os números 3, 6 e 9, múltiplos de três, ficam fora dessa sequência e formam o triângulo.
De onde vem: Gurdjieff e as duas «leis»
Costumam atribuir-se-lhe raízes sufis ou da Antiguidade, mas não há nenhum documento anterior ao século XX que o mostre.
A primeira fonte escrita é o livro de P. D. Ouspensky In Search of the Miraculous (1949), conhecido em português como Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido. Ouspensky reconstrói aí os ensinamentos que G. I. Gurdjieff dava aos seus grupos na Rússia durante a Primeira Guerra Mundial, e apresenta o eneagrama como um símbolo universal que reúne duas ideias do sistema de Gurdjieff:
- A lei do três: todo o processo resultaria do encontro de três forças (ativa, passiva e conciliadora). É o que o triângulo representa.
- A lei do sete ou da oitava: todo o processo avançaria por sete etapas, como as notas de uma escala musical, com dois pontos em que precisa de um impulso externo para não se desviar. É o que representam a héxade e o percurso pelo círculo.
Na versão de Gurdjieff, portanto, o eneagrama não descrevia pessoas, mas processos de qualquer tipo.
Do símbolo à personalidade
A passagem para a psicologia chegou mais tarde. O boliviano Óscar Ichazo usou a figura nos anos sessenta para ordenar nove «fixações» do ego e, em 1970, dirigiu em Arica (Chile) um longo programa de formação a que assistiu o psiquiatra chileno Claudio Naranjo.
Naranjo levou o modelo para os Estados Unidos, onde o ensinou em Berkeley e no Instituto Esalen, e ligou-o a categorias da psicologia clínica. A partir daí desenvolveram-no autores como Don Riso e Russ Hudson, cujo livro The Wisdom of the Enneagram (1999) fixou boa parte do vocabulário que se usa hoje.
Nesse eneagrama da personalidade, cada número do círculo é um tipo e as linhas mudam de sentido:
- Os pontos vizinhos no círculo são as asas de cada tipo (o 4 teria asas 3 e 5).
- As duas linhas interiores que saem de cada ponto leem-se como direções de mudança: segundo Riso e Hudson, o 1 mover-se-ia para o 4 sob stress e para o 7 em fases de crescimento.
Como esses elementos se combinam em cada tipo desenvolvemos em o que é um eneatipo e quantos existem, e a lista completa está em as 9 personalidades do eneagrama.
Essência e ego: a camada espiritual do símbolo
As versões do eneagrama com orientação espiritual, como a de Riso e Hudson, distinguem duas camadas na pessoa:
- Essência: aquilo que alguém é antes dos seus hábitos defensivos.
- Ego ou personalidade: as estratégias que se aprendem para a pessoa se proteger e que com o tempo se confundem com ela própria, como uma armadura que em tempos foi útil e que, na idade adulta, pesa mais do que protege.
Nessa leitura, cada um dos nove pontos do círculo seria uma forma diferente de construir essa armadura. É uma proposta do modelo, herdeira da tradição de Gurdjieff, e não uma descoberta da psicologia científica.
O que o símbolo não garante
O facto de a figura ter uma geometria elegante não diz nada sobre se as pessoas se agrupam realmente em nove tipos.
A revisão sistemática de Joshua Hook e colaboradores (2021) analisou 104 amostras e encontrou provas mistas: algumas escalas relacionam-se como seria de esperar com o Big Five, mas as análises estatísticas costumam encontrar menos de nove fatores e quase não há estudos sobre as asas e as linhas, precisamente os elementos que o símbolo desenha com mais clareza.
O eneagrama funciona melhor, na nossa leitura, como um vocabulário para pensar nas próprias motivações do que como uma classificação comprovada. Se quiseres explorá-lo em primeira mão, podes fazer o nosso teste de eneagrama.
Fontes
- Hook, J. N., Hall, T. W., Davis, D. E., Van Tongeren, D. R. e Conner, M. (2021). The Enneagram: A systematic review of the literature and directions for future research. Journal of Clinical Psychology, 77(4), 865-883. https://doi.org/10.1002/jclp.23097
- Ouspensky, P. D. (1949). In Search of the Miraculous: Fragments of an Unknown Teaching. Harcourt, Brace.
- Riso, D. R. e Hudson, R. (1999). The Wisdom of the Enneagram. Bantam Books.
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Perguntas frequentes
De que língua vem a palavra 'eneagrama'?
Do grego: 'ennea' (nove) e 'gramma' (letra, traço, figura desenhada), a mesma raiz de 'diagrama' ou 'telegrama'. Literalmente significa 'figura de nove', em referência aos nove pontos distribuídos sobre um círculo que formam o símbolo.
Qual é a diferença entre a essência e o ego segundo este modelo?
Nas versões do eneagrama com orientação espiritual, como a de Riso e Hudson, a essência seria aquilo que a pessoa é antes dos seus hábitos defensivos, e o ego ou personalidade, o conjunto de estratégias aprendidas que com o tempo se confundem com a própria pessoa. É uma proposta do modelo, e não uma descoberta da psicologia científica.
O símbolo do eneagrama é uma invenção recente?
Costumam atribuir-se-lhe raízes antigas, mas não há documentos que o provem. O símbolo aparece pela primeira vez no início do século XX, nos ensinamentos de G. I. Gurdjieff que P. D. Ouspensky publicou em 1949; o seu uso para descrever tipos de personalidade chegou depois, com Óscar Ichazo e Claudio Naranjo, a partir dos anos sessenta e setenta.
O que significam as linhas interiores do eneagrama?
No eneagrama da personalidade, cada tipo está ligado por linhas a outros dois, e autores como Riso e Hudson leem-nas como direções de mudança: para onde alguém tenderia sob stress e para onde em fases de crescimento. A revisão de Hook e colaboradores (2021) assinala que esta parte da teoria quase não foi investigada.