Compatibilidade ansioso-seguro: quando o alarme finalmente encontra resposta
Compatibilidade ansioso-seguro: um alarme que finalmente recebe resposta
A combinação entre vinculação ansiosa e vinculação segura tende a ser mais estável. É o que sugere a investigação sobre satisfação conjugal, quando comparada com combinações em que nenhuma das duas pessoas traz segurança de base à relação. Para entender porquê, vale a pena explicar primeiro os dois termos. A vinculação ansiosa é um padrão de relacionamento em que a pessoa costuma precisar de sinais frequentes de que é amada e que a relação está bem, e tende a preocupar-se quando esses sinais faltam. A vinculação segura, pelo contrário, é o padrão de quem confia com relativa facilidade, tolera a distância ocasional do outro sem entrar em alarme e também sabe dar proximidade sem se sentir invadido.
Nesta combinação, a pessoa segura não precisa de se defender da proximidade da outra, nem da sua necessidade de garantia. Isto é importante porque é precisamente esse tipo de defesa, quando existe, que quebra a relação e mantém o chamado ciclo de hiperativação, descrito pelos investigadores Mikulincer e Shaver. Por hiperativação entende-se, em termos simples, um estado em que o sistema de alarme emocional da pessoa ansiosa fica ligado durante mais tempo do que seria necessário, à procura de provas de que a relação continua segura. Quando a pessoa segura não alimenta esse alarme com distância ou irritação, ele tem menos motivos para se manter aceso.
Nota de responsabilidade: Este artigo baseia-se na teoria da vinculação de Bowlby e Ainsworth (um modelo, desenvolvido a partir da década de 1950, sobre como os laços afetivos da infância moldam a forma como nos relacionamos em adultos), no modelo adulto de Bartholomew, e na investigação sobre a chamada segurança conquistada. Tem uma finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação nem o acompanhamento de um profissional de saúde mental.
Porque é que o mesmo ciclo não se repete
Vale a pena comparar esta combinação com outra mais conhecida, a ansioso-evitante, para perceber a diferença. Nessa combinação, cada vez que a pessoa ansiosa se aproxima à procura de garantia, a pessoa evitante tende a afastar-se, porque sente essa aproximação como uma pressão. Esse afastamento, por sua vez, confirma exatamente o medo original da pessoa ansiosa, que é o de não ser suficientemente importante para o outro. É um ciclo que se alimenta a si próprio.
Com vinculação segura, esse segundo passo simplesmente não acontece. A proximidade é tolerada sem ser sentida como uma ameaça à liberdade pessoal, e a pessoa segura consegue dar garantia (um abraço, uma palavra tranquilizadora, uma resposta rápida a uma mensagem) sem sentir que está a perder o seu próprio espaço ou identidade. Quando esta resposta calma se repete muitas vezes ao longo do tempo, meses ou até anos de relação, ela é um dos mecanismos que a investigação associa à segurança conquistada: a ideia de que uma pessoa que não teve uma vinculação segura na infância pode, ainda assim, desenvolvê-la em adultos através de relações estáveis e de experiência terapêutica.
Onde está o limite
Isto não significa que a combinação seja perfeita ou isenta de esforço. Um pedido de garantia muito frequente e muito intenso, por exemplo várias mensagens por dia à procura de confirmação de que “está tudo bem”, pode, mesmo assim, cansar uma pessoa segura ao longo do tempo. Ninguém tem paciência infinita.
Por isso, a investigação sugere que esta combinação se mantém mais estável quando a pessoa ansiosa também trabalha, pelo seu lado, formas de tolerar a incerteza que não dependam inteiramente da disponibilidade constante do outro. Isso pode passar, por exemplo, por aprender a sentar-se com o desconforto de não ter uma resposta imediata, ou por construir outras fontes de segurança na própria vida (amizades, rotinas, um sentido de identidade que não depende só da relação) que aliviem parte da pressão colocada sobre o parceiro.
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Perguntas frequentes
Porque é que ansioso-seguro costuma funcionar melhor do que ansioso-evitante?
Porque a pessoa com vinculação segura não interpreta a procura de proximidade como invasão nem responde com distância, que é precisamente o que ativa o alarme da pessoa ansiosa. Sem essa confirmação, o ciclo de hiperativação tem menos motivos para se intensificar.
A pessoa ansiosa deixa de precisar de garantia nesta combinação?
Não de imediato, mas a investigação sobre vinculação descreve que respostas consistentes ao longo do tempo podem reduzir gradualmente a frequência dessa necessidade, um processo relacionado com a chamada segurança conquistada.
É uma relação sem atritos?
Não necessariamente. Mesmo uma pessoa segura pode cansar-se se o pedido de garantia for muito frequente e intenso; a estabilidade depende também de a pessoa ansiosa trabalhar a sua própria tolerância à incerteza.