Personaramic
Vinculação

Compatibilidade ansioso-evitante: a armadilha que apanha os dois

Por Rafa Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista com as palavras COMPATIBILIDADE ANSIOSO-EVITANTE num emblema geométrico

Compatibilidade ansioso-evitante: a armadilha que apanha os dois

Entre todas as combinações possíveis de estilos de vinculação (isto é, das formas como cada pessoa costuma ligar-se afetivamente a quem ama, um padrão que se aprende desde muito cedo, geralmente na infância, e que depois se repete sem muita consciência disso na vida adulta), há uma que se destaca. É a que junta uma pessoa com vinculação ansiosa, ou seja, alguém que sente uma necessidade forte de proximidade e que fica facilmente alerta perante qualquer sinal de afastamento, com outra pessoa de vinculação evitante, alguém que valoriza muito a sua independência e que tende a recuar quando sente que lhe pedem demasiada intimidade. A investigação associa esta mistura, de forma bastante consistente, a níveis mais baixos de satisfação relacional quando é o próprio casal quem avalia como está a correr a relação. E, no entanto, e talvez por isso mesmo seja interessante estudá-la, é também uma das combinações mais frequentes que existem.

Nota de responsabilidade: Este artigo baseia-se, entre outras fontes, no trabalho de Amir Levine e Rachel Heller em «Maneiras de Amar» (Attached) e tem uma finalidade exclusivamente divulgativa. Não substitui a avaliação, o diagnóstico nem a intervenção de um profissional de saúde mental. Se sentes que este padrão te está a causar sofrimento real, o melhor caminho continua a ser falar com alguém qualificado, e não apenas ler sobre o tema.

Um dado que surpreende: estabilidade sem satisfação

Um estudo longitudinal (ou seja, um estudo que acompanha as mesmas pessoas ao longo de vários anos, em vez de as observar apenas uma vez) de Lee Kirkpatrick e Keith Davis, publicado em 1994, seguiu 354 casais durante três anos. Os investigadores encontraram algo que à partida parece contraintuitivo: os pares formados por um homem evitante e uma mulher ansiosa mostravam-se tão estáveis, ou até mais estáveis, do que outras combinações de estilos de vinculação, apesar de relatarem níveis de satisfação mais baixos com a relação.

Por outras palavras, permanecer junto e sentir-se satisfeito dentro da relação não são a mesma coisa, algo que pode parecer óbvio quando dito assim, mas que é fácil esquecer no dia a dia. Este padrão parece sustentar-se, então, por razões diferentes da satisfação percebida, talvez ligadas à familiaridade do ciclo, ou ao facto de cada pessoa reconhecer no outro um tipo de dinâmica emocional que já lhe é, de alguma forma, conhecida.

O «efeito montanha-russa»

Levine e Heller, no seu livro, descrevem este ciclo com uma imagem fácil de visualizar: o efeito montanha-russa. Funciona mais ou menos assim. A pessoa ansiosa aproxima-se, à procura de mais contacto e reafirmação. A pessoa evitante, sentindo essa aproximação como demasiado intensa, afasta-se um pouco para recuperar o seu espaço. Essa distância, por sua vez, aumenta a ansiedade da primeira pessoa, que reage aproximando-se ainda mais. E isso, como seria de esperar, intensifica a necessidade de espaço da segunda pessoa, fechando o círculo.

Cada reação, vista isoladamente, é apenas uma tentativa de gerir o próprio desconforto emocional. Ninguém está, à partida, a tentar magoar o outro. O problema é que o resultado final acaba por reforçar exatamente aquilo que o outro mais teme: a pessoa ansiosa sente-se cada vez mais abandonada, e a pessoa evitante sente-se cada vez mais invadida.

O «contrapeso emocional»

Os mesmos autores descrevem ainda um segundo mecanismo, ao qual chamam contrapeso emocional. A ideia é que cada estilo, sem se dar bem conta disso, procura de forma inconsciente alguém que o «equilibre», ou seja, alguém com características opostas às suas. A pessoa evitante pode sentir-se atraída pela intensidade emocional de alguém ansioso, porque isso lhe dá acesso a um tipo de proximidade que, por si só, provavelmente nunca procuraria. A pessoa ansiosa, por sua vez, pode sentir-se atraída pela aparente calma e autossuficiência de alguém evitante, que lhe parece, à primeira vista, um porto seguro e estável.

O problema é que essa atração inicial, aquela que faz nascer a relação, assenta exatamente nas mesmas características que, passado algum tempo, acabam por gerar o ciclo de fricção descrito acima. Aquilo que atraiu no início torna-se, mais tarde, motivo de conflito.

Dois exemplos do dia a dia

Para tornar isto mais concreto, vejamos dois exemplos simples que muitos casais nesta situação vão reconhecer.

O primeiro: depois de uma discussão, a pessoa ansiosa quer falar sobre o assunto de imediato, porque falar é a forma como restabelece a sua sensação de segurança. A pessoa evitante, pelo contrário, quer algum tempo sozinha para processar internamente o que sentiu, antes de estar pronta para voltar a falar sobre isso. Se nenhum dos dois compreender esta necessidade diferente do outro, a pessoa ansiosa interpreta o silêncio como rejeição, e a pessoa evitante interpreta a insistência em falar já como uma invasão. Cada um acaba, sem querer, por confirmar o pior receio do outro.

O segundo exemplo: perante um fim de semana em que cada um tem planos separados, a pessoa evitante sente alívio por ter espaço só para si. A pessoa ansiosa, em contrapartida, sente esse mesmo espaço como um sinal de distanciamento afetivo, mesmo que, na realidade, nada tenha mudado na relação e o parceiro continue tão comprometido como sempre.

É possível sair da armadilha?

A boa notícia é que este ciclo não é uma sentença definitiva. A literatura terapêutica sobre vinculação, incluindo o próprio trabalho de Levine e Heller, propõe que o primeiro passo costuma ser reencaminhar o comportamento do parceiro, isto é, mudar a forma como o interpretamos. Em vez de o ler como uma decisão pessoal contra a relação, ou como prova de que já não gosta de nós, trata-se de o entender como uma estratégia automática de vinculação, aprendida muito antes de a relação atual sequer existir, provavelmente ainda na infância. Isso não elimina o ciclo por si só, e ninguém deve esperar que baste ler isto para que o padrão desapareça, mas abre espaço para respostas diferentes das habituais, mais pausadas e menos reativas.

Podes ler mais sobre como cada estilo comunica de forma diferente perante o conflito em comunicação segundo o teu estilo de vinculação. Quando este padrão gera um desgaste persistente, isto é, quando se repete vezes suficientes para desgastar de forma real o bem-estar de ambos, o acompanhamento de um profissional de psicologia com cédula profissional, seja em formato individual ou de casal, costuma ser um recurso valioso que vai bastante além do que a autoanálise, feita sozinho em casa, consegue oferecer.

Queres saber mais sobre ti?

Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.

Perguntas frequentes

Porque é tão comum a combinação ansioso-evitante?

Porque cada estilo confirma, sem querer, o medo do outro: a procura de proximidade de um parece 'excesso' para o outro, e a necessidade de espaço do outro parece 'abandono' para o primeiro.

Este tipo de casal está condenado à instabilidade?

Não necessariamente. Um estudo longitudinal de Kirkpatrick e Davis (1994) com 354 casais encontrou pares homem-evitante/mulher-ansiosa surpreendentemente estáveis ao fim de três anos, apesar da satisfação percebida ser baixa.

Pode este padrão mudar-se?

Reencaminhar o comportamento do outro como uma estratégia automática de vinculação, e não como um ataque pessoal, é um dos primeiros passos que a literatura terapêutica costuma propor.