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Vinculação

Comunicação segundo o teu estilo de vinculação: por que nem todos partem do mesmo ponto

Pela redação do Personaramic6 min de leitura
Ilustração minimalista com as palavras COMUNICAÇÃO E VINCULAÇÃO num emblema geométrico

Comunicação segundo o teu estilo de vinculação: a mesma conversa, dois pontos de partida diferentes

Duas pessoas podem ter exatamente a mesma conversa difícil e vivê-la de forma completamente diferente, consoante o seu estilo de vinculação.

Não é só uma questão de “saber comunicar”: o próprio sistema de vinculação condiciona o que parece arriscado dizer em voz alta e o que se ouve por trás do que o outro diz.

O que diz a investigação sobre vinculação e comunicação

Uma das referências em que Levine e Heller se apoiam é o trabalho de Nancy Collins e Stephen Read, então na Universidade do Sul da Califórnia. Em 1990 publicaram três estudos com um questionário próprio que media três dimensões da vinculação adulta: o conforto com a proximidade, a sensação de poder depender dos outros e a ansiedade perante o abandono (Collins e Read, 1990).

No terceiro estudo, com casais de namorados, encontraram duas coisas úteis para perceber a comunicação:

  • O estilo de vinculação de cada membro relacionava-se com a forma como percebia a qualidade da relação, incluindo a comunicação, a confiança e a satisfação.
  • O que mais pesava não era igual para todos. Nas mulheres, o melhor preditor da qualidade da relação era o conforto do parceiro com a proximidade; nos homens, a pouca ansiedade da parceira perante o abandono.

Dito de outra forma: a comunicação de um casal não depende só da competência de cada um, mas de como encaixam as suas formas de gerir a proximidade.

A comunicação eficiente segundo Levine e Heller

Com base nisso, Levine e Heller (2010) propõem em Attached aquilo a que chamam «comunicação eficiente»: exprimir as próprias necessidades de forma clara, direta e não ofensiva, sem cair na atitude defensiva nem no ataque. O livro resume-a em poucas orientações:

  • Sinceridade total: dizer o que realmente se sente, não uma versão atenuada.
  • Centrar-se na própria necessidade, não nas falhas do outro.
  • Concretizar: um pedido específico pode ser cumprido; uma queixa genérica, não.
  • Não culpar: descrever a situação sem a transformar num juízo sobre a outra pessoa.
  • Firmeza sem pedir desculpa: pedir o que se precisa como algo legítimo.

Os autores acrescentam uma ideia interessante: a forma como o parceiro responde a um pedido claro diz muito sobre a sua capacidade de atender essa necessidade, e por isso apresentam-na também como uma maneira de conhecer melhor o outro. É uma proposta de divulgação, não um protocolo validado, mas reúne o essencial do que a investigação associa a conversas mais construtivas.

Perguntas para rever uma conversa

O livro propõe perguntas como estas para rever a forma como se conduziu uma conversa difícil:

  • Chegou-se ao fundo real do mal-estar, ou limaram-se arestas sem resolver nada?
  • Respondeu-se aos factos concretos, ou a uma interpretação ou juízo sobre o outro?
  • Surgiu a atitude defensiva, ou foi possível manter a conversa sem ela?

Nenhuma conversa cumpre sempre estes pontos, e mantê-los depende em parte do estilo de cada pessoa, não só da vontade.

Como soa cada estilo: o mesmo exemplo

Para o ver na prática, um caso simples: uma pessoa fica inquieta quando o parceiro chega tarde sem avisar. É assim que a conversa costuma sair a partir de cada estilo, e é assim que poderia soar em chave de comunicação eficiente.

Se ainda não conheces o teu estilo, o nosso teste de vinculação é um bom ponto de partida.

Vinculação segura

Na vinculação segura, a crítica ou o desacordo não são interpretados como uma ameaça à relação inteira, por isso a frase costuma sair já perto do modelo: “Fiquei preocupado ontem à noite. Escreves-me quando fores chegar mais tarde?”. É por isso que Levine e Heller descrevem as pessoas seguras como uma espécie de treinadoras naturais deste tipo de comunicação: facilitam que os outros também se exprimam.

Vinculação ansiosa

Na vinculação ansiosa, ao expor uma necessidade surge o medo de parecer “dependente” ou de estar a exagerar, e a necessidade infiltra-se sob a forma de censura ou de comportamento de protesto: “Claro, como a ti tanto te faz como eu estou…”, ou deixar de responder às mensagens no dia seguinte para que o outro perceba o que se sente.

Em chave de comunicação eficiente: “Quando passam horas sem saber nada, fico mais inquieto do que gostaria. Ajuda-me muito uma mensagem curta, nem que seja ‘chego tarde’”. Dá nome à necessidade sem pedir desculpa por a ter.

Vinculação evitante

Na vinculação evitante, comunicar uma necessidade de forma direta pode ser vivido como uma exposição desnecessária, coerente com a estratégia de desativação. O habitual é que a conversa nem sequer comece, ou que se feche depressa: “Não se passa nada, tanto faz”. E se é a outra pessoa a reclamar, a resposta tende a ser pôr distância.

Em chave de comunicação eficiente, a necessidade costuma ir no sentido contrário: “Quando chego do trabalho preciso de meia hora sozinho. Não tem nada a ver contigo; depois estou contigo a sério”. Explicar o espaço evita que o outro o leia como rejeição.

Vinculação desorganizada

A vinculação desorganizada pode combinar as duas dificuldades, alternando entre a necessidade de exprimir algo e a sensação de que fazê-lo é arriscado. Por vezes, a frase sai em dois tempos contraditórios: primeiro uma censura intensa e, pouco depois, um “esquece, não é importante”. Aqui, mais do que a frase perfeita, ajuda reconhecer o vaivém e retomar a conversa quando o alarme já baixou, muitas vezes com acompanhamento profissional.

Porque é que isto não é só “falar mais”

Nesta abordagem, a comunicação eficiente não depende de falar mais ou menos, mas daquilo a que se responde: aos factos concretos da situação ou à interpretação automática que o próprio sistema de vinculação dispara.

Reconhecer essa diferença é o que separa uma conversa que resolve algo real de uma que apenas repete o mesmo padrão com outras palavras.

É o mecanismo que se ativa numa das combinações mais exigentes das dez possíveis entre os quatro estilos, a de vinculação ansiosa e vinculação evitante, e que se vê em cenas do quotidiano no nosso artigo sobre a vinculação no casal.

Este artigo é divulgativo e não substitui a avaliação nem a intervenção de um profissional de saúde mental.

Fontes

  • Collins, N. L. e Read, S. J. (1990). Adult attachment, working models, and relationship quality in dating couples. Journal of Personality and Social Psychology, 58(4), 644-663.
  • Levine, A. e Heller, R. (2010). Attached: The New Science of Adult Attachment and How It Can Help You Find, and Keep, Love. Jeremy P. Tarcher/Penguin.

Queres saber mais sobre ti?

Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.

Perguntas frequentes

O que é a 'comunicação eficiente' no contexto da vinculação?

Um conceito que Amir Levine e Rachel Heller desenvolvem em Attached, apoiando-se em investigação sobre vinculação adulta como a de Nancy Collins e Stephen Read: comunicar as próprias necessidades de forma clara, direta e não ofensiva, sem cair na atitude defensiva nem no ataque.

Porque é que algumas pessoas têm mais dificuldade em comunicar o que precisam?

A investigação sobre vinculação associa essa dificuldade ao próprio estilo: quem tem vinculação ansiosa pode ter medo de parecer 'dependente' ao pedir algo, e quem tem vinculação evitante pode viver a comunicação direta de uma necessidade como uma exposição desnecessária.

A vinculação segura comunica melhor por natureza?

Segundo a literatura, tende a reagir de forma mais tranquila e construtiva a este tipo de conversas, mas comunicar com clareza é uma competência que a investigação não reserva a um único estilo de vinculação.

O que é uma mensagem na primeira pessoa?

Uma forma de exprimir uma necessidade falando do que se sente e se pede ("fico inquieto quando não sei nada de ti; escreves-me se fores chegar tarde?") em vez de descrever o outro ("nunca avisas"). Põe o foco no pedido concreto e deixa menos margem para que a conversa se transforme numa defesa.