Comunicação segundo o teu estilo de vinculação: por que nem todos partem do mesmo ponto
Comunicação segundo o teu estilo de vinculação
Duas pessoas podem ouvir exatamente a mesma frase numa discussão e senti-la de forma completamente diferente. Uma parte importante dessa diferença tem origem no estilo de vinculação de cada uma, isto é, no padrão que aprendemos desde cedo sobre como nos relacionarmos com quem nos é próximo: não é só o que se diz, mas o filtro através do qual se interpreta o que se ouve, um pouco como se cada pessoa usasse óculos diferentes para ler a mesma frase.
Nota de responsabilidade: Este artigo baseia-se, entre outras fontes, no trabalho de Amir Levine e Rachel Heller em «Maneiras de Amar» (Attached) e tem uma finalidade exclusivamente divulgativa. Não substitui a avaliação, o diagnóstico nem a intervenção de um profissional de saúde mental.
O conceito de comunicação eficiente
Nancy Collins e Stephanie Read (1990) estudaram o que chamaram de comunicação eficiente: a capacidade de expressar necessidades e emoções de forma direta, dizendo com clareza aquilo que se sente e se precisa, e de interpretar as do outro sem as distorcer através de medos próprios, isto é, sem misturar o que a outra pessoa realmente disse com aquilo que se teme ouvir. Os seus dados relacionam este tipo de comunicação com padrões de vinculação mais seguros, e a sua ausência com mais mal-entendidos e insatisfação relacional ao longo do tempo.
O livro «Maneiras de Amar», de Levine e Heller, propõe três perguntas simples de autoavaliação antes de uma conversa difícil, inspiradas nesta linha de investigação: o que sinto realmente sobre esta situação? O que preciso concretamente? Estou disposto ou disposta a pedir isso de forma direta, em vez de esperar que o outro adivinhe?
Como cada estilo costuma viver uma conversa difícil
- Vinculação ansiosa: a conversa pode ser sentida como uma ameaça a todo o vínculo, não como um desacordo pontual sobre um assunto concreto, o que empurra para a procura imediata de reafirmação, isto é, de sinais claros de que a relação continua segura. Ver vinculação ansiosa.
- Vinculação evitante: a conversa pode ser sentida como uma invasão do espaço próprio, o que empurra para minimizar o assunto, restar-lhe importância, ou para se retirar dela por completo. Ver vinculação evitante.
- Vinculação desorganizada: a conversa pode ativar simultaneamente o desejo de proximidade e o medo de exposição, gerando reações que parecem contraditórias mesmo para quem as vive, como querer aproximar-se e afastar-se ao mesmo tempo. Ver vinculação desorganizada.
- Vinculação segura: a conversa costuma ser vivida como resolúvel, ou seja, como um problema que se pode discutir e resolver sem pôr tudo em causa, o que permite manter o foco no assunto concreto sem que este se transforme numa ameaça ao vínculo. Ver vinculação segura.
Não é falar mais, é responder ao quê
Um dos pontos centrais desta linha de investigação é que o problema raramente está na quantidade de palavras trocadas, quer dizer, não é uma questão de falar mais ou menos. Está antes em se a resposta de cada pessoa é dirigida aos factos concretos da conversa, ou a uma interpretação automática que o próprio padrão de vinculação gera antes mesmo de o outro terminar a frase. Uma pessoa ansiosa pode estar a responder a um medo de abandono que a frase do outro nem sequer continha; uma pessoa evitante pode estar a responder a uma sensação de invasão que não estava, de facto, a ser proposta pelo outro lado da conversa.
Reconhecer essa diferença, entre o que realmente foi dito e o que o próprio padrão interpretou, é um dos primeiros passos que a literatura sobre comunicação e vinculação costuma sugerir para desarmar discussões que, de outra forma, tendem a repetir-se sempre da mesma maneira. Como se viu na compatibilidade ansioso-evitante, este é precisamente o mecanismo que sustenta alguns dos ciclos relacionais mais persistentes e mais difíceis de quebrar sem que ambas as partes se apercebam do que está realmente a acontecer.
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Perguntas frequentes
Porque comunicamos de forma diferente consoante o nosso estilo de vinculação?
Porque cada estilo parte de expectativas diferentes sobre o que uma conversa difícil significa: uma ameaça ao vínculo, uma invasão do espaço próprio, ou um desacordo resolúvel, entre outras.
O que é a 'comunicação eficiente' de que fala a investigação?
É o conceito estudado por Nancy Collins e Stephanie Read (1990): a capacidade de expressar necessidades e emoções de forma clara e de as interpretar sem distorção, associada a uma vinculação mais segura.
Falar mais é sempre a solução?
Não necessariamente. O que costuma marcar a diferença não é a quantidade de comunicação, mas se se está a responder aos factos concretos da situação ou a uma interpretação automática gerada pelo próprio padrão de vinculação.