Compatibilidade ansioso-ansioso: quando os dois alarmes tocam ao mesmo tempo
Compatibilidade ansioso-ansioso: muito envolvimento, pouca calma disponível
Duas pessoas com vinculação ansiosa costumam construir vínculos muito voltados para o outro. A vinculação ansiosa, para quem não conhece o termo, é um padrão de relacionamento em que a pessoa precisa com alguma frequência de sinais claros de que é amada e de que a relação vai bem, e tende a ficar preocupada quando esses sinais demoram a chegar. Quando são duas pessoas assim a formar um casal, o resultado costuma ser alta disponibilidade emocional e muita atenção mútua, quase sempre presentes e atentas uma à outra. O desafio surge num momento muito concreto: quando ambas precisam, ao mesmo tempo, da garantia que nenhuma das duas tem de sobra para dar naquele instante.
Nota de responsabilidade: Este artigo baseia-se na teoria da vinculação de Bowlby e Ainsworth, no modelo adulto de Bartholomew, e na aplicação destes conceitos à vida a dois feita por Amir Levine e Rachel Heller. Tem uma finalidade exclusivamente informativa e não substitui a avaliação nem o acompanhamento de um profissional de saúde mental.
Ao contrário da combinação ansioso-evitante, em que uma das pessoas costuma afastar-se quando sente pressão, aqui não há ninguém que ponha distância de forma sistemática. Ambas procuram proximidade, ambas temem o abandono e ambas costumam ser generosas a dar atenção ao outro. Isto pode traduzir-se, sobretudo no início da relação, numa ligação muito intensa, quase avassaladora, com muitas mensagens, muito tempo partilhado e uma sensação de “encontrámo-nos finalmente” que outras combinações raramente têm com a mesma força.
O risco desta combinação, ainda que menos estudado de forma específica do que outras combinações, é coerente com o mecanismo geral da vinculação ansiosa: a amplificação. Imagine-se o seguinte cenário. Uma das duas pessoas tem um mau dia no trabalho e chega a casa a precisar de mais garantia e atenção do que o habitual. Só que a outra também está a passar por algo parecido nesse mesmo dia. Nenhuma das duas dispõe, naquele momento, da calma que normalmente serviria para tranquilizar a outra, porque ambas estão, ao mesmo tempo, a pedir essa mesma calma. Um pequeno mal-entendido, por exemplo uma mensagem que demora a ter resposta, pode escalar mais depressa do que aconteceria noutras combinações, porque os dois sistemas de alarme emocional se retroalimentam em vez de se equilibrarem.
Isto não torna a relação numa combinação destinada ao conflito constante, longe disso. Quando ambas as pessoas reconhecem o padrão em voz alta (“as duas precisamos de garantia agora mesmo, não é que algo esteja errado entre nós”), costuma ser mais fácil acalmarem-se mutuamente do que em combinações onde uma delas nem sequer reconhece a necessidade de proximidade da outra como legítima. Nomear o mecanismo, em vez de o viver em silêncio, é muitas vezes o que separa um casal ansioso-ansioso que se afunda numa crise de um que sai dela mais unido.
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Perguntas frequentes
Duas pessoas ansiosas dão-se mal necessariamente?
Não. Costumam ter muito envolvimento mútuo; o desafio é a amplificação da ansiedade em momentos de stress partilhado, não uma incompatibilidade de fundo.
O que ajuda esta combinação?
Nomear o padrão em voz alta e não assumir que a necessidade de garantia do outro é sintoma de que algo está errado na relação.
Precisam sempre de ajuda externa?
Não necessariamente; muitos casais ansioso-ansiosos funcionam bem reconhecendo o mecanismo entre eles, embora o acompanhamento profissional possa sempre ajudar se o padrão gerar mal-estar persistente.