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Tabuleiro Ouija: o efeito psicológico que explica quem move o copo

Pela redação do Personaramic6 min de leitura
Ilustração orgânica minimalista de uma planchette em forma de gota com uma janela circular, sobre o arco de um tabuleiro

Vários dedos indicadores sobre um copo virado ao contrário, as letras em círculo, a luz baixa. O copo começa a deslizar e ninguém admite tê-lo empurrado. O mais curioso é que, quase sempre, ninguém está a mentir.

É a cena clássica do tabuleiro Ouija, ou da sua versão caseira, o jogo do copo.

A pergunta é sempre a mesma: quem é que o mexe?

A psicologia tem uma resposta há mais de 170 anos, e é mais interessante do que qualquer fantasma: mexem-no todos, sem saberem.

O que é o tabuleiro Ouija e de onde veio?

O tabuleiro Ouija tem o alfabeto, os números de 0 a 9 e as palavras “sim” e “não”. Os participantes pousam os dedos num ponteiro, a planchette, ou num copo.

A origem é comercial, não ancestral:

  • A patente norte-americana 446.054 foi pedida a 28 de maio de 1890 em nome de Elijah J. Bond, de Baltimore.
  • Foi concedida a 10 de fevereiro de 1891 e cedida a Charles W. Kennard e William H. A. Maupin, da Kennard Novelty Company.
  • O documento descrevia-o, sem rodeios, como um “brinquedo ou jogo”.

O fenómeno que aproveita é mais antigo. Na década de 1850, a Europa foi apanhada pela febre das mesas girantes: grupos de pessoas pousavam as mãos numa mesa até ela rodar, inclinar-se ou dar pancadas.

Faraday e as mesas que giravam sozinhas

Em 1853, o físico Michael Faraday decidiu pôr aquilo à prova.

Construiu um dispositivo simples: duas tábuas finas separadas por varetas de vidro que serviam de rolos, presas com elásticos, e uma alavanca leve que funcionava como indicador. Se as mãos empurrassem antes de a mesa se mexer, o ponteiro denunciava-o.

Publicou os resultados numa carta ao The Times a 30 de junho de 1853 e, com mais pormenor, no The Athenaeum a 2 de julho.

As observações foram categóricas:

  • Quando os participantes viam o indicador, ele ficava quieto.
  • Quando lho escondiam, começava a oscilar.
  • Assim que tomavam consciência dos próprios empurrões, os efeitos cessavam, mesmo que continuassem a desejar que a mesa se mexesse.

Faraday concluiu que se tratava de ação muscular involuntária. E confessou-se muito surpreendido com o que o episódio revelava sobre o estado da opinião pública.

O efeito ideomotor: pensar num movimento é começar a fazê-lo

Um ano antes, em 1852, o fisiologista William B. Carpenter tinha apresentado na Royal Institution, em Londres, um trabalho sobre movimentos musculares guiados pela sugestão, “independentemente da vontade”. Foi aí que cunhou um termo: ação ideomotora.

William James retomou-o no capítulo sobre a vontade dos seus Princípios de Psicologia (1890) e deu-lhe forma de lei.

No essencial: toda a representação de um movimento desperta esse movimento em certo grau, e ao máximo sempre que não haja ao mesmo tempo na mente uma representação antagónica que o trave.

Para James, isto não era uma curiosidade de sessão espírita. Era o processo normal, sem disfarce. Os exemplos dele:

  • A meio de uma conversa, repara num alfinete no chão e apanha-o sem ter decidido fazê-lo.
  • Depois do jantar, dá por si a tirar nozes ou passas do prato e a comê-las.
  • O espectador de bilhar, como observou Lotze, acompanha com pequenos movimentos do braço a bola que rola.
  • A moda da época da “leitura da mente” era, segundo James, leitura muscular: guiada pelos micromovimentos de quem segurava a mão do artista.

A ideia é o primeiro troço do movimento. O tabuleiro Ouija só lhe põe letras por baixo.

São ajustes minúsculos e rapidíssimos, na escala daquilo que o teu cérebro decide num quinto de segundo.

Como funciona o tabuleiro Ouija, segundo as experiências?

Em 2019, uma equipa da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, publicou uma experiência de campo feita com rastreadores oculares numa conferência sobre Ouija.

Andersen e colegas (2019) estudaram 40 voluntários norte-americanos, em pares e na maioria já experientes, em duas condições: usar o tabuleiro como de costume ou soletrar palavras de propósito.

O que encontraram:

  • Na sessão de Ouija, os participantes anteciparam com o olhar a letra seguinte com menos probabilidade do que quando soletravam de propósito.
  • Os crentes relatavam uma menor sensação de controlo sobre o movimento do que os céticos.
  • À medida que uma resposta avançava, iam antecipando melhor as letras.
  • As respostas com sentido só se explicavam ao nível do par, e não de cada pessoa em separado.

É como uma conversa a duas vozes em que nenhum dos dois sente que está a conduzi-la. A mensagem nasce entre ambos.

O tabuleiro sabe coisas que não sabes que sabes

Uma experiência na Universidade da Colúmbia Britânica foi ainda mais longe.

Gauchou, Rensink e Fels (2012) fizeram a 27 estudantes perguntas de cultura geral de sim ou não e pediram-lhes que indicassem se sabiam a resposta ou estavam a adivinhar.

Depois, de olhos vendados, responderam a algumas dessas perguntas com o tabuleiro Ouija. Julgavam jogar com outra participante, mas a cúmplice dos investigadores retirava as mãos em silêncio.

O resultado:

  • Nas perguntas em que achavam estar a adivinhar, a resposta verbal acertava ao acaso: 50%.
  • Com o tabuleiro, essas mesmas perguntas eram acertadas em 65% dos casos.

Os autores interpretam-no como memória semântica implícita que se exprime no movimento sem nunca chegar à consciência.

A memória também empurra o copo

Há um segundo mecanismo, menos conhecido: aquilo de que nos lembramos depois.

No capítulo sobre a consciência do eu, James recolhe um caso que Carpenter foi buscar ao relato de uma Miss Cobbe. Uma senhora jurava que uma mesa de sessão espírita tinha dado pancadas sem ninguém suficientemente perto para lhe tocar. As suas próprias notas, escritas dez anos antes, diziam que seis pessoas tinham as mãos em cima dela.

A memória tinha sido polida até encaixar na história.

O que James acertou e onde ficou a meio caminho

Com honestidade: James não era um cético fechado. Participou na fundação da American Society for Psychical Research em 1884-1885 e estudou médiuns e escrita automática, incluindo experiências com a planchette de Edmund Gurney.

Isso não faz do tabuleiro Ouija prova de coisa nenhuma. Mostra um cientista disposto a investigar aquilo que outros despachavam sem olhar.

O que acertou:

  • Que o movimento involuntário é a regra, e não a exceção.
  • Que uma ideia basta para o iniciar, se nada a travar.

O que a investigação acrescentou: a sensação de agência pode falhar, a mensagem constrói-se em conjunto e a mente preenche o que falta, tal como na pareidolia, quando o teu cérebro vê caras em tomadas e nuvens.

Nada disto diz respeito àquilo em que cada pessoa acredita. Diz de onde vem o movimento.

Fontes

  • James, W. (1890). The Principles of Psychology. Henry Holt and Company.
  • Andersen, M., Nielbo, K. L., Schjoedt, U., Pfeiffer, T., Roepstorff, A., & Sørensen, J. (2019). Predictive minds in Ouija board sessions. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 18(3), 577-588. https://doi.org/10.1007/s11097-018-9585-8
  • Bond, E. J. (1891). Toy or game (Patente dos EUA n.º 446.054). U.S. Patent Office.
  • Carpenter, W. B. (1852). On the influence of suggestion in modifying and directing muscular movement, independently of volition. Proceedings of the Royal Institution of Great Britain, 147-153.
  • Faraday, M. (1853, 30 de junho). [Carta ao diretor sobre as mesas girantes]. The Times.
  • Gauchou, H. L., Rensink, R. A., & Fels, S. (2012). Expression of nonconscious knowledge via ideomotor actions. Consciousness and Cognition, 21(2), 976-982. https://doi.org/10.1016/j.concog.2012.01.016

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Perguntas frequentes

Como funciona o tabuleiro Ouija, segundo a psicologia?

Através do efeito ideomotor: pensar num movimento basta para desencadear microcontrações musculares que não são sentidas como próprias. Com várias pessoas a tocar no copo ou na planchette, esses impulsos somam-se e o objeto parece mexer-se sozinho. Andersen e colegas (2019) observaram ainda que as respostas com sentido surgem da interação entre os participantes, e não de um só.

O que é o efeito ideomotor?

É a tendência de uma ideia de movimento para produzir esse movimento sem intenção consciente. O termo 'ideo-motor' foi cunhado pelo fisiologista William B. Carpenter em 1852, e William James formulou-o em 1890 como lei geral: toda a representação de um movimento desperta esse movimento em certo grau, a não ser que outra representação antagónica o impeça.

É verdade que no jogo do copo ninguém o empurra de propósito?

Na maioria dos casos, é isso que a investigação descreve: as pessoas movem o copo, mas sem sentirem que o fazem. Michael Faraday demonstrou-o em 1853 com um dispositivo que tornava visíveis esses empurrões. Quando os participantes os podiam ver, o efeito desaparecia.

Quem inventou o tabuleiro Ouija?

A patente norte-americana 446.054, pedida a 28 de maio de 1890 e concedida a 10 de fevereiro de 1891, está em nome de Elijah J. Bond, de Baltimore, e foi cedida a Charles W. Kennard e William H. A. Maupin, fundadores da Kennard Novelty Company. Descrevia o tabuleiro como um 'brinquedo ou jogo'.

Este artigo substitui ajuda profissional se uma experiência com a Ouija me deixou mal?

Não. Resume investigação psicológica com fins informativos e educativos, com respeito por qualquer crença. Se uma experiência deste tipo deixou medo, ansiedade ou mal-estar que persistem, o indicado é consultar um profissional de psicologia ou de saúde mental.