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Autoconhecimento e bem-estar

O que o teu cérebro decide num quinto de segundo

Por Rafa Personaramic4 min de leitura
Ilustração minimalista orgânica de um círculo grande com um pequeno setor marcado, como uma fração mínima de tempo assinalada à parte

Antes de terminares de ler esta frase, o teu cérebro já terá concluído, várias vezes, um processo que os cientistas há mais de século e meio andam a cronometrar em milissegundos.

Não é preciso resolver um enigma.

Não é preciso sequer pensar, no sentido habitual da palavra.

Basta reagir a uma luz que se acende. E esse ato, tão simples que quase não parece “mental”, esconde algo que a psicologia há muito tempo observa com lupa.

Um botão, uma luz, e um cronómetro de 1868

O psicólogo Arthur Jensen dedica boa parte de The g Factor (1998) a um tipo de experiência que soa quase demasiado simples para importar: o tempo de reação.

O método original devemo-lo ao fisiologista neerlandês Franciscus Donders, que no século XIX concebeu uma forma engenhosa de medir processos mentais que não se podem observar diretamente.

  • No tempo de reação simples (TRS), a pessoa mantém uma tecla premida e larga-a assim que aparece um estímulo (uma luz, um som). Não há nada para escolher, só reagir.
  • No tempo de reação por discriminação, aparece um de dois estímulos possíveis (uma luz amarela ou uma azul, por exemplo) e só é preciso responder a um deles.
  • No tempo de reação por escolha, cada estímulo tem associada uma resposta diferente: luz amarela, botão esquerdo; luz azul, botão direito.

A ideia de Donders, conhecida como método de subtração, era simples: se se subtrair o tempo da tarefa mais simples ao da mais complexa, o que resta é o tempo que o cérebro precisou, especificamente, para esse passo adicional (discriminar, escolher).

Um quinto de segundo, e o que se acrescenta depois

Em adultos jovens, o tempo de reação simples ronda, em média, os 200 milissegundos: um quinto de segundo.

A partir daí, cada camada extra de processamento acrescenta um pouco mais:

  1. Discriminar entre dois estímulos acrescenta, em média, entre 30 e 100 milissegundos a mais, consoante a dificuldade de os distinguir.
  2. Escolher entre duas respostas diferentes acrescenta tempo adicional a isso.
  3. Quanto mais complexa a tarefa, maior é a diferença entre uma pessoa e outra.

E surge aqui o dado que liga tudo isto ao fator g: esse tempo extra, tão pequeno que se mede em frações de segundo, correlaciona-se com o CI. Segundo os dados que Jensen recolhe, a correlação aumenta à medida que aumenta a complexidade da tarefa: cerca de -0,10 na reação simples, -0,20 na discriminação, -0,30 na escolha (negativa porque menos tempo se associa a mais CI).

Porque é que a tarefa mais simples é a que menos diz

Há uma nuance importante que costuma passar despercebida: quanto mais simples é a tarefa, menos varia de pessoa para pessoa.

  • No tempo de reação simples, quase toda a gente se assemelha: há pouca margem para que a variável “capacidade de processamento” se note.
  • Na escolha, há mais etapas mentais envolvidas (percecionar, discriminar, decidir, executar) e, por isso, mais margem para que umas pessoas demorem claramente menos do que outras nessa parte específica.

Jensen resume-o com uma ideia que atravessa boa parte do seu livro: o “ingrediente ativo” nestas correlações não é a velocidade muscular nem a acuidade sensorial, é g, o fator geral que também intervém em tarefas muito mais complexas, como resolver um problema de raciocínio abstrato.

O que isto mede, e o que definitivamente não mede

Vale a pena ser preciso sobre o que esta descoberta diz e o que não diz.

  • Mostra, sim, que até as tarefas cognitivas mais elementares, medidas com precisão de milissegundos, guardam uma relação estatística com o fator g.
  • Não significa que uma pessoa lenta a reagir a uma luz tenha, por isso, menos capacidade intelectual: a correlação é moderada e só se sustenta em amostras grandes, não num caso individual.
  • Não é uma prova diagnóstica nem um substituto de nenhuma avaliação psicométrica séria.

O que esta experiência, já centenária, deixa é uma ideia curiosa: não é preciso um problema complexo para que o cérebro comece a diferenciar-se entre pessoas. Basta uma luz, um botão, e um cronómetro capaz de medir em milissegundos.

Se te interessa como o próprio cérebro reage, sem que medeie qualquer resposta consciente, a um estímulo igualmente simples, em o teu cérebro responde a um simples clique antes de saberes o que é explica-se a experiência equivalente com ondas cerebrais.

Fontes

  • Jensen, A. R. (1998). The g Factor: The Science of Mental Ability. Praeger.
  • Donders, F. C. (1868). Método descrito e analisado em detalhe por Jensen (1998, pp. 207-211) como origem histórica da cronometria mental (chronometrics) aplicada ao estudo do fator g.

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Perguntas frequentes

É mesmo possível medir a inteligência com o tempo de reação?

Não de forma isolada nem fiável numa única pessoa. O que mostra a investigação que Arthur Jensen recolhe em The g Factor (1998) é uma correlação estatística, moderada e só visível em amostras grandes, entre o tempo de reação e o CI. Uma única medição individual não permite deduzir nada sobre a inteligência dessa pessoa.

Porque é que reagir mais depressa se relaciona com o CI se não é preciso 'pensar' para carregar num botão?

Porque até uma tarefa tão simples envolve um breve processamento cerebral entre percecionar o estímulo e ativar a resposta muscular. Quantas mais decisões a tarefa exige (escolher entre dois botões em vez de um só, por exemplo), mais tempo extra aparece, e é esse tempo extra que mais se relaciona com o CI.

Quem inventou este método e quando?

O fisiologista neerlandês Franciscus Donders, no século XIX, idealizou o chamado método de subtração: medir o tempo de uma tarefa simples, depois o de uma tarefa um pouco mais complexa, e subtrair ambos os tempos para isolar quanto acrescenta esse passo extra de processamento. Jensen retoma este método clássico no seu livro para estudar o fator g.

Isto serve para saber se sou mais ou menos inteligente do que outra pessoa?

Não. É um resumo divulgativo de uma descoberta psicométrica sobre tendências de grupo, não uma prova diagnóstica nem uma forma válida de comparar a inteligência de duas pessoas concretas.