O que o teu cérebro decide num quinto de segundo
Antes de terminares de ler esta frase, o teu cérebro já terá concluído, várias vezes, um processo que os cientistas há mais de século e meio andam a cronometrar em milissegundos.
Não é preciso resolver um enigma.
Não é preciso sequer pensar, no sentido habitual da palavra.
Basta reagir a uma luz que se acende. E esse ato, tão simples que quase não parece “mental”, esconde algo que a psicologia há muito tempo observa com lupa.
Um botão, uma luz, e um cronómetro de 1868
O psicólogo Arthur Jensen dedica boa parte de The g Factor (1998) a um tipo de experiência que soa quase demasiado simples para importar: o tempo de reação.
O método original devemo-lo ao fisiologista neerlandês Franciscus Donders, que no século XIX concebeu uma forma engenhosa de medir processos mentais que não se podem observar diretamente.
- No tempo de reação simples (TRS), a pessoa mantém uma tecla premida e larga-a assim que aparece um estímulo (uma luz, um som). Não há nada para escolher, só reagir.
- No tempo de reação por discriminação, aparece um de dois estímulos possíveis (uma luz amarela ou uma azul, por exemplo) e só é preciso responder a um deles.
- No tempo de reação por escolha, cada estímulo tem associada uma resposta diferente: luz amarela, botão esquerdo; luz azul, botão direito.
A ideia de Donders, conhecida como método de subtração, era simples: se se subtrair o tempo da tarefa mais simples ao da mais complexa, o que resta é o tempo que o cérebro precisou, especificamente, para esse passo adicional (discriminar, escolher).
Um quinto de segundo, e o que se acrescenta depois
Em adultos jovens, o tempo de reação simples ronda, em média, os 200 milissegundos: um quinto de segundo.
A partir daí, cada camada extra de processamento acrescenta um pouco mais:
- Discriminar entre dois estímulos acrescenta, em média, entre 30 e 100 milissegundos a mais, consoante a dificuldade de os distinguir.
- Escolher entre duas respostas diferentes acrescenta tempo adicional a isso.
- Quanto mais complexa a tarefa, maior é a diferença entre uma pessoa e outra.
E surge aqui o dado que liga tudo isto ao fator g: esse tempo extra, tão pequeno que se mede em frações de segundo, correlaciona-se com o CI. Segundo os dados que Jensen recolhe, a correlação aumenta à medida que aumenta a complexidade da tarefa: cerca de -0,10 na reação simples, -0,20 na discriminação, -0,30 na escolha (negativa porque menos tempo se associa a mais CI).
Porque é que a tarefa mais simples é a que menos diz
Há uma nuance importante que costuma passar despercebida: quanto mais simples é a tarefa, menos varia de pessoa para pessoa.
- No tempo de reação simples, quase toda a gente se assemelha: há pouca margem para que a variável “capacidade de processamento” se note.
- Na escolha, há mais etapas mentais envolvidas (percecionar, discriminar, decidir, executar) e, por isso, mais margem para que umas pessoas demorem claramente menos do que outras nessa parte específica.
Jensen resume-o com uma ideia que atravessa boa parte do seu livro: o “ingrediente ativo” nestas correlações não é a velocidade muscular nem a acuidade sensorial, é g, o fator geral que também intervém em tarefas muito mais complexas, como resolver um problema de raciocínio abstrato.
O que isto mede, e o que definitivamente não mede
Vale a pena ser preciso sobre o que esta descoberta diz e o que não diz.
- Mostra, sim, que até as tarefas cognitivas mais elementares, medidas com precisão de milissegundos, guardam uma relação estatística com o fator g.
- Não significa que uma pessoa lenta a reagir a uma luz tenha, por isso, menos capacidade intelectual: a correlação é moderada e só se sustenta em amostras grandes, não num caso individual.
- Não é uma prova diagnóstica nem um substituto de nenhuma avaliação psicométrica séria.
O que esta experiência, já centenária, deixa é uma ideia curiosa: não é preciso um problema complexo para que o cérebro comece a diferenciar-se entre pessoas. Basta uma luz, um botão, e um cronómetro capaz de medir em milissegundos.
Se te interessa como o próprio cérebro reage, sem que medeie qualquer resposta consciente, a um estímulo igualmente simples, em o teu cérebro responde a um simples clique antes de saberes o que é explica-se a experiência equivalente com ondas cerebrais.
Fontes
- Jensen, A. R. (1998). The g Factor: The Science of Mental Ability. Praeger.
- Donders, F. C. (1868). Método descrito e analisado em detalhe por Jensen (1998, pp. 207-211) como origem histórica da cronometria mental (chronometrics) aplicada ao estudo do fator g.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
É mesmo possível medir a inteligência com o tempo de reação?
Não de forma isolada nem fiável numa única pessoa. O que mostra a investigação que Arthur Jensen recolhe em The g Factor (1998) é uma correlação estatística, moderada e só visível em amostras grandes, entre o tempo de reação e o CI. Uma única medição individual não permite deduzir nada sobre a inteligência dessa pessoa.
Porque é que reagir mais depressa se relaciona com o CI se não é preciso 'pensar' para carregar num botão?
Porque até uma tarefa tão simples envolve um breve processamento cerebral entre percecionar o estímulo e ativar a resposta muscular. Quantas mais decisões a tarefa exige (escolher entre dois botões em vez de um só, por exemplo), mais tempo extra aparece, e é esse tempo extra que mais se relaciona com o CI.
Quem inventou este método e quando?
O fisiologista neerlandês Franciscus Donders, no século XIX, idealizou o chamado método de subtração: medir o tempo de uma tarefa simples, depois o de uma tarefa um pouco mais complexa, e subtrair ambos os tempos para isolar quanto acrescenta esse passo extra de processamento. Jensen retoma este método clássico no seu livro para estudar o fator g.
Isto serve para saber se sou mais ou menos inteligente do que outra pessoa?
Não. É um resumo divulgativo de uma descoberta psicométrica sobre tendências de grupo, não uma prova diagnóstica nem uma forma válida de comparar a inteligência de duas pessoas concretas.