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Autoconhecimento e bem-estar

O que é a inteligência? Nem os especialistas estão de acordo

Por Rafa Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista orgânica de duas formas curvas de cores distintas que colidem entre si no centro do enquadramento

Há mais de um século a tentar. Têm departamentos universitários inteiros dedicados a isso. E, ainda assim, os especialistas em inteligência não chegam a acordo sobre algo tão básico como o que exatamente estão a estudar.

Não é que falte investigação.

Não é que falte interesse.

É que a própria palavra “inteligência”, tal como é usada na linguagem corrente, se revela surpreendentemente escorregadia assim que se tenta precisá-la a sério.

Quase tantas definições como especialistas

O psicólogo Arthur Jensen resume-o em The g Factor (1998) com uma frase que não deixa muita margem para ambiguidade: “não há nenhum outro termo em psicologia que se tenha revelado mais difícil de definir do que ‘inteligência’”. E acrescenta algo ainda mais contundente: há quase tantas definições diferentes de ‘inteligência’ como especialistas que a tentaram definir.

Não é que cada especialista proponha uma definição ligeiramente diferente da mesma ideia. É que colocam o foco em aspetos genuinamente diferentes:

  • Uns definem-na em torno da capacidade de raciocinar e resolver problemas novos.
  • Outros, em torno da capacidade de adaptação a situações em mudança.
  • Outros, em torno da velocidade ou eficácia da aprendizagem.
  • Outros incluem a capacidade de abstração, ou de manusear símbolos, ou de planear a longo prazo.

Cada uma destas propostas é razoável por si só. O problema é que, juntas, não delimitam um único conceito, delimitam vários, parcialmente sobrepostos, sem que exista um critério partilhado para decidir qual é “a” definição correta.

A solução de Spearman: deixar de discutir a palavra e medir a correlação

No início do século XX, o psicólogo britânico Charles Spearman tomou uma decisão metodológica que mudaria o rumo de todo o campo: em vez de continuar a discutir o que é “a inteligência” em abstrato, propôs-se observar algo muito mais concreto e mensurável.

Spearman partiu de uma descoberta empírica que já intuíam pensadores anteriores como Herbert Spencer e Francis Galton: as pontuações em provas mentais muito diferentes entre si (vocabulário, raciocínio numérico, orientação espacial) tendem a estar positivamente correlacionadas. Quem pontua alto numa, tende a pontuar alto nas outras, ainda que não tenham, à primeira vista, nada em comum.

Para pôr isto à prova de forma rigorosa, Spearman inventou a análise fatorial, um método estatístico capaz de determinar em que medida cada uma dessas provas está relacionada com um fator comum subjacente. A esse fator comum, presente de um modo ou de outro em qualquer tarefa que exija esforço mental, chamou, simplesmente, g (de “geral”).

Uma anedota que resume a ideia melhor do que qualquer definição técnica

Jensen recolhe, para ilustrar esta mesma intuição muito antes de existir a análise fatorial, uma anedota protagonizada pelo escritor Samuel Johnson (1709-1784).

Um historiador reconhecido afirmou perante Johnson que tinha sido graças a talentos muito distintos entre si que César chegou a ser um grande comandante, Shakespeare um grande poeta e Newton um grande cientista. A resposta de Johnson foi taxativa:

“Não, é apenas que um homem tem mais mente do que outro; pode dirigi-la de forma diferente, ou preferir este estudo àquele. Senhor, o homem que tem vigor pode caminhar tanto para norte como para sul, tanto para leste como para oeste.”

Dois séculos antes de Spearman, Johnson já intuía, numa frase, o que a análise fatorial acabaria por demonstrar com números: que por trás de talentos aparentemente tão distintos como a liderança militar, a poesia e a ciência podia existir algo comum, uma espécie de “vigor” mental geral, aplicável a qualquer direção.

Porque é que isto não é apenas um jogo de palavras académico

Pode parecer que trocar “inteligência” por “fator g” é apenas substituir uma palavra difícil de definir por outra igualmente abstrata. Não é bem assim, e a diferença importa:

  • “Inteligência” é uma palavra da linguagem quotidiana, carregada de conotações diferentes consoante quem a usa.
  • “g” é um fator estatístico, definido de forma operacional a partir de padrões reais de correlação entre provas, não a partir de uma intuição prévia sobre o que “deveria” significar ser inteligente.
  • Isto permite algo que a discussão filosófica sobre a palavra “inteligência” nunca conseguiu oferecer: medir quanto desse fator comum reflete cada prova concreta, comparar testes entre si, e acumular evidência empírica verificável sobre os seus correlatos biológicos e o seu papel em resultados da vida real.

Spearman não resolveu o debate sobre o que é “a inteligência” em sentido filosófico. Contornou-o, com bom critério, e propôs em seu lugar uma pergunta que sim se podia responder com dados: existe um fator comum a todas as capacidades mentais, e como se pode medir?

O que resta quando se deixa de discutir a palavra

Mais de um século depois de Spearman, a palavra “inteligência” continua sem uma definição única e aceite por todos os especialistas. E provavelmente nunca a terá, porque é, acima de tudo, uma palavra de uso corrente, não um termo técnico com fronteiras precisas.

O que existe, com um século de investigação acumulada por trás, é um fator estatístico bem caracterizado, com correlatos biológicos mensuráveis (desde a eficiência energética do cérebro até ao tempo de reação em milissegundos) e com uma capacidade de previsão demonstrada em áreas tão distintas como o desempenho académico ou a segurança rodoviária.

É possível que nunca se chegue a acordo sobre o que significa exatamente ser “inteligente”. Mas isso, como demonstrou Spearman há mais de um século, não era na realidade a pergunta que era preciso responder.

Se queres ver esse mesmo fator g em ação, medido em frações de segundo, em o que o teu cérebro decide num quinto de segundo explica-se a experiência que há mais de um século o põe à prova.

Fontes

  • Jensen, A. R. (1998). The g Factor: The Science of Mental Ability. Praeger.
  • Spearman, C. (1904). “General intelligence”, objectively determined and measured. The American Journal of Psychology, 15(2), 201-292.

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Perguntas frequentes

Porque é que os psicólogos não chegam a acordo sobre a definição de 'inteligência'?

Segundo recolhe Arthur Jensen em The g Factor (1998), há mais de um século que tentam e não chegaram a um consenso: há quase tantas definições diferentes como especialistas que a propuseram, cada uma a dar ênfase a um aspeto distinto (raciocínio, adaptação, aprendizagem, resolução de problemas...).

Se não há acordo sobre o que é a inteligência, o que é então o 'fator g'?

É um conceito distinto e mais preciso: o psicólogo Charles Spearman descobriu que o desempenho em provas mentais muito diferentes entre si (verbais, numéricas, espaciais) tende a estar correlacionado. A esse fator estatístico comum a todas elas chamou g, sem necessidade de definir antes o que é 'a inteligência' em abstrato.

É o mesmo o fator g e um teste de CI?

Não exatamente. Um teste de CI é um instrumento de medição concreto; g é o fator estatístico subjacente que esse instrumento tenta captar, em maior ou menor grau consoante o teste. Diferentes testes de CI têm diferente 'carga' de g, ou seja, refletem-no com mais ou menos pureza.

Este artigo pretende dar uma definição fechada de inteligência?

Não. Resume, de forma divulgativa, porque é que a psicologia científica se moveu de discutir uma palavra de uso quotidiano para medir uma regularidade estatística concreta, não oferece nem defende uma definição única e definitiva do termo.