O conselho de há 2000 anos que a psicologia demorou séculos a levar a sério
No século I depois de Cristo, um professor romano já dizia a outros professores que observassem com atenção as diferenças de talento entre os seus alunos. Quase dois mil anos depois, em 1890, o livro de psicologia mais importante do seu tempo mal mencionava a palavra “inteligência”.
Entre um dado e o outro há quase vinte séculos, e para o psicólogo Arthur Jensen esse hiato não foi um descuido, mas o sintoma de como boa parte da tradição ocidental entendeu a mente humana. Este artigo segue o seu relato e acrescenta-lhe duas peças que ele não menciona: um médico espanhol do século XVI e uma data que convém pôr em ordem.
O conselho de um mestre de retórica romano
Em The g Factor (1998), Jensen procura a primeira menção explícita que conseguiu encontrar na literatura filosófica sobre as diferenças individuais de capacidade mental. Não vem de um cientista, mas de um orador.
Marco Fábio Quintiliano, mestre de retórica na Roma imperial, escreveu um conselho que, segundo Jensen, não destoaria num manual atual de psicologia educativa:
“Considera-se em geral, e não sem razão, uma excelente qualidade num mestre observar com precisão as diferenças de capacidade naqueles que se propôs instruir, e averiguar para onde se inclina particularmente a natureza de cada um; pois há no talento uma variedade incrível, e as formas da mente são quase tão variadas como as dos corpos.”
Quintiliano, Institutio oratoria, II, 8, 1
Quintiliano dava já por adquirido, há vinte séculos, algo que a psicologia académica demoraria séculos a aceitar como objeto de estudo sério: que as pessoas diferem, de forma notável, na sua capacidade mental, e que um bom mestre devia saber reconhecê-lo.
Um médico de Baeza, quinze séculos depois
Jensen escreve a partir da tradição anglo-saxónica e salta de Roma para o século XIX. Pelo meio fica um livro que em Espanha se estuda como marco da psicologia diferencial: o Examen de ingenios para las ciencias, do médico navarro Juan Huarte de San Juan, impresso em Baeza em 1575.
Huarte retomava a intuição de Quintiliano e levava-a mais longe. Defendia que cada pessoa tem um “engenho” diferente, que essas diferenças têm uma base natural (ele explicava-a com a medicina dos humores da sua época, hoje ultrapassada) e que a sociedade ganharia se cada um se dedicasse à ciência ou ao ofício para o qual o seu engenho está mais bem dotado. Por isso é citado como precursor da orientação escolar e profissional.
O livro teve um sucesso enorme, com traduções para várias línguas, e também problemas: a Inquisição censurou-o, e a versão revista foi publicada em 1594, após a morte do autor. É uma nuance interessante para a tese de Jensen: a ideia das diferenças de capacidade não era impensável antes do século XIX, mas era incómoda para o quadro religioso dominante, e não tinha ainda um método para ser posta à prova.
Um livro de 1890 que quase não usa a palavra “inteligência”
O contraste que Jensen oferece a seguir é, se possível, ainda mais impressionante. William James, um dos pais da psicologia moderna, publicou em 1890 a obra Principles of Psychology, um dos textos mais influentes e completos da disciplina na sua época.
- A palavra “inteligência” aparece nesse livro uma única vez, e só como sinónimo de “intelecto” e “razão”, no contexto da definição das propriedades gerais da mente.
- Não há, em nenhum ponto do livro, qualquer menção às diferenças individuais nessa capacidade.
- O mesmo acontece, segundo Jensen, com Talks to Teachers (1899), do próprio James, o primeiro manual influente de psicologia educativa nos Estados Unidos, e com o Handbook of Psychology (1890) de James Mark Baldwin, outro texto de referência da época.
Os livros de psicologia mais importantes do final do século XIX, escritos com a intenção explícita de cobrir o campo inteiro, mal dedicam uma linha a algo que hoje é um dos temas centrais da disciplina.
Porque é que algo tão evidente demorou tanto a tornar-se ciência
Jensen apresenta duas explicações principais para este vazio de séculos, e nenhuma tem a ver com ninguém ter reparado antes.
A primeira é filosófica. Desde Platão, a tradição ocidental (reforçada depois pela teologia cristã) defendia uma separação radical entre corpo e alma. A alma, nesta visão, era uma qualidade universal, perfeita e imaterial, a mesma em essência para toda a humanidade. Essa ideia era, pura e simplesmente, incompatível com a noção de que umas pessoas tivessem mais ou menos capacidade mental do que outras: a alma não admitia graus.
A segunda é social. Antes da industrialização, o acesso à educação formal era um privilégio de uma pequena elite. O estatuto social de nascença determinava, quase por completo, as oportunidades educativas e profissionais de cada pessoa. Num mundo assim, as diferenças individuais de capacidade mental ficavam escondidas atrás de uma desigualdade de oportunidades muito mais visível e determinante.
Só com a chegada da industrialização, com a proliferação de ocupações especializadas e o acesso mais alargado à escolarização formal, é que essas diferenças individuais começaram a tornar-se visíveis em grande escala e, com elas, a converter-se num tema digno de estudo científico.
De Spencer a Spearman: a viragem que mudou tudo
O ponto de viragem, segundo Jensen, chegou com o pensamento evolucionista de meados do século XIX. A capacidade mental de humanos e animais começou a ser entendida como produto de um processo evolutivo, sujeito a variação individual, tal como qualquer outro traço físico.
Convém pôr as datas em ordem. Herbert Spencer publicou os seus Principles of Psychology em 1855, quatro anos antes de A Origem das Espécies de Darwin (1859): o seu evolucionismo não derivava de Darwin, corria em paralelo. Francis Galton, primo de Darwin, partiu de facto da obra deste para escrever Hereditary Genius (1869). Ambos defenderam que a inteligência humana era, em grande parte, um atributo geral e hereditário. As suas conclusões, nota Jensen, apoiavam-se mais em convicção do que em provas sólidas, mas lançaram as perguntas que dominariam a investigação do século seguinte.
E foi Charles Spearman, já em 1904, quem encontrou finalmente uma forma rigorosa de pôr essa ideia à prova: um método estatístico, a análise fatorial, capaz de demonstrar que o desempenho em tarefas mentais muito diferentes entre si tendia a estar correlacionado, como se existisse um fator comum por trás de todas elas.
A esse fator chamou, simplesmente, g. Um ano depois, em 1905, Alfred Binet e Théodore Simon publicavam em França a primeira escala prática de inteligência, pensada precisamente para aquilo que Quintiliano pedia: detetar que alunos precisavam de outro tipo de ensino.
O que dois milénios de atraso ensinam sobre a ciência
O interessante neste percurso não é só a história curiosa, é o que revela sobre como avança (ou não avança) o conhecimento científico.
- Uma observação pode ser evidente para qualquer pessoa com bom senso, como o era para Quintiliano, e mesmo assim demorar séculos a tornar-se objeto de estudo rigoroso.
- O obstáculo, muitas vezes, não é a falta de dados, é um quadro de ideias prévio (filosófico, religioso ou social) que torna essa observação, literalmente, impensável dentro desse quadro.
- Quando esse quadro muda (neste caso, com a teoria da evolução), aquilo que estava invisível há séculos torna-se, de repente, o centro de toda uma disciplina.
O que Quintiliano observou com bom senso no século I, e Huarte tentou explicar no XVI, a ciência demorou quase dois mil anos a começar a medir com rigor. E ainda hoje, como reconhece o próprio Jensen, continua a não haver pleno acordo sobre como chamar àquilo que esse mestre romano já sabia reconhecer nos seus alunos.
Sobre essa falta de acordo, precisamente, trata o que é a inteligência? Nem os especialistas estão de acordo.
Fontes
- Jensen, A. R. (1998). The g Factor: The Science of Mental Ability. Praeger.
- Huarte de San Juan, J. (1575). Examen de ingenios para las ciencias. Juan Bautista de Montoya.
- James, W. (1890). The Principles of Psychology. Henry Holt and Company.
- Quintiliano, M. F. (c. 95). Institutio oratoria, II, 8, 1. Trad. inglesa de H. E. Butler (1920). Loeb Classical Library, Harvard University Press.
- Spearman, C. (1904). “General intelligence”, objectively determined and measured. American Journal of Psychology, 15(2), 201-292. doi:10.2307/1412107
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Perguntas frequentes
Quem foi Quintiliano e o que disse exatamente sobre o talento?
Marco Fábio Quintiliano foi um orador e pedagogo romano do século I d.C. Na sua Institutio oratoria (livro II, capítulo 8), que Arthur Jensen cita em The g Factor (1998), considerava uma virtude do mestre observar com precisão as diferenças de capacidade entre os seus alunos, porque as formas da mente são quase tão variadas como as dos corpos.
É verdade que um livro tão importante como o de William James quase não fala de inteligência?
Segundo Jensen, sim: Principles of Psychology (1890), de William James, um dos textos fundadores da psicologia moderna, menciona a palavra 'inteligência' uma única vez, como sinónimo de 'intelecto', sem se referir em nenhum momento às diferenças individuais nessa capacidade.
Porque demorou tanto a psicologia a estudar as diferenças de inteligência entre pessoas?
Jensen aponta duas causas principais: uma tradição filosófica, herdada de Platão, que separava a alma (universal e imaterial) do corpo, incompatível com a ideia de diferenças individuais; e um sistema social, até à industrialização, que limitava tanto o acesso à educação que essas diferenças mal eram visíveis.
Este artigo defende alguma das teorias mais controversas sobre a inteligência?
Não. Limita-se à história de como e quando a psicologia começou a estudar as diferenças individuais em capacidade mental como objeto de investigação científica, não a nenhuma hipótese sobre as suas causas concretas num indivíduo ou grupo.