O teu cérebro responde a um simples clique antes de saberes o que é
Um elétrodo no topo da cabeça e um clique repetido centenas de vezes, a cada poucos segundos, durante vários minutos. A pessoa não tem de responder a nada nem de carregar em nenhum botão. Durante alguns anos, na década de oitenta, várias equipas acreditaram que a onda que o cérebro desenha perante esse som podia dizer muito sobre a inteligência de quem o ouve.
A história dessa ideia ajuda a perceber como avança a investigação: uma descoberta espetacular, réplicas que a moderam e uma pergunta de fundo que continua em aberto.
O truque que permite “ver” uma reação cerebral limpa
O psicólogo Arthur Jensen dedica uma secção de The g Factor (1998) ao potencial evocado (evoked potential), a resposta elétrica do cérebro a um estímulo concreto, registada sem que a pessoa tenha de fazer qualquer tarefa.
O problema de partida é que a atividade elétrica cerebral está cheia de “ruído”: atividade aleatória que impede ver um sinal claro num único registo. A solução parece-se com a que usam o radar e o sonar:
- Coloca-se um elétrodo no topo da cabeça e elétrodos de referência nos lóbulos das orelhas.
- Repete-se um estímulo breve, como um clique, a intervalos de poucos segundos durante vários minutos.
- Um computador calcula a média de centenas de fragmentos de atividade cerebral, cada um alinhado com o instante exato do estímulo.
O que é aleatório cancela-se na média e o que se repete em cada ensaio fica visível. O resultado é uma onda limpa, com picos e vales característicos, que reflete a forma como esse cérebro processa um estímulo muito simples.
A medida de “corda” dos Hendrickson
A versão mais marcante desta linha de trabalho foi proposta por Donna e Alan Hendrickson em 1980, no primeiro volume da Personality and Individual Differences. A ideia era fácil de enunciar: se se medir o comprimento do contorno da onda média, como se se estendesse uma corda sobre todos os seus picos e vales, uma onda mais recortada e complexa corresponderia a um sistema nervoso que transmite a informação com menos erros.
Com estímulos auditivos, as correlações que comunicaram entre esse “comprimento de corda” e o CI rondavam 0,7, um valor altíssimo para qualquer medida biológica. Blinkhorn e Hendrickson (1982) publicaram depois na Nature outro estudo que apontava no mesmo sentido.
Jensen reúne estes trabalhos com os de Richard Haier e da sua equipa, que usaram flashes de luz em vez de sons. Haier, Robinson, Braden e Williams (1983) encontraram também uma relação entre características da onda visual e a inteligência psicométrica, e Robinson, Haier e colaboradores publicaram uma réplica no ano seguinte. Convém não misturar os dois casos: o clique pertence ao paradigma auditivo dos Hendrickson; os estudos de Haier são visuais.
O que aconteceu depois: as réplicas
Esta é a parte que costuma ficar de fora dos resumos. Quando outros laboratórios repetiram o procedimento, as correlações desceram muito:
- Vetterli e Furedy (1985) apontaram problemas de fundo tanto na medida de corda como na teoria do “erro de transmissão” que a acompanhava. Análises posteriores mostraram ainda que o comprimento de corda depende em boa parte da amplitude da onda, de modo que não é claro o que reflete.
- Barrett e Eysenck (1992), no mesmo meio do Instituto de Psiquiatria de Londres onde o paradigma tinha sido desenvolvido, dedicaram-lhe um estudo extenso e não conseguiram reproduzir a força da relação original.
- Bates e colaboradores (1995) observaram que a relação mudava, e chegava mesmo a inverter-se, consoante a pessoa prestasse atenção aos estímulos ou não. A diferença entre as duas condições previa o CI melhor do que qualquer uma delas isoladamente.
Esta última descoberta matiza a ideia de um registo “sem esforço”. O cérebro não reage da mesma forma a um som que ouve com atenção e a um que ignora, e essa diferença de atenção parece fazer parte daquilo que se media.
Porque é que isto não é o mesmo que um eletroencefalograma qualquer
O eletroencefalograma (EEG) espontâneo é a atividade “de fundo” que se regista sem qualquer estímulo. Também foi estudado em relação ao CI, por exemplo através da frequência da onda alfa, com correlações fracas e pouco estáveis.
O potencial evocado, por estar ancorado a um estímulo preciso e repetido centenas de vezes, oferece um sinal muito mais limpo. Por isso Jensen o considerava uma via mais promissora. É a diferença entre ouvir uma sala cheia de conversas e pedir a uma só pessoa que repita a mesma frase centenas de vezes para ficar apenas com o que se repete igual.
O que resta hoje da ideia
A investigação sobre as bases cerebrais da inteligência não abandonou os potenciais evocados, mas mudou de foco. Em vez de um único número de “complexidade”, os estudos atuais medem componentes concretas da onda, como o P300, durante tarefas que exigem atenção ou memória de trabalho, e encontram associações modestas com a capacidade cognitiva geral.
Há três conclusões que se sustentam com os dados disponíveis:
- São correlações de grupo, obtidas com muitos participantes, não uma medida individual. Nenhum registo deste tipo permite estimar o CI de uma pessoa concreta.
- Os números espetaculares dos primeiros estudos não resistiram às réplicas, um padrão frequente quando as amostras são pequenas e as medidas são novas.
- A pergunta de fundo continua a ser legítima: saber se a capacidade mental geral deixa marca na forma como o cérebro processa estímulos muito simples. É a mesma lógica dos tempos de reação e da eficiência energética do cérebro.
Outro correlato biológico da inteligência que Jensen discutia, e que a investigação posterior reinterpretou, é o da miopia e da inteligência.
Fontes
- Jensen, A. R. (1998). The g Factor: The Science of Mental Ability. Praeger.
- Hendrickson, D. E., e Hendrickson, A. E. (1980). The biological basis of individual differences in intelligence. Personality and Individual Differences, 1(1), 3-33. https://doi.org/10.1016/0191-8869(80)90003-3
- Blinkhorn, S. F., e Hendrickson, D. E. (1982). Averaged evoked responses and psychometric intelligence. Nature, 295(5850), 596-597. https://doi.org/10.1038/295596a0
- Haier, R. J., Robinson, D. L., Braden, W., e Williams, D. (1983). Electrical potentials of the cerebral cortex and psychometric intelligence. Personality and Individual Differences, 4(6), 591-599. https://doi.org/10.1016/0191-8869(83)90113-7
- Robinson, D. L., Haier, R. J., Braden, W., e Krengel, M. (1984). Psychometric intelligence and visual evoked potentials: A replication. Personality and Individual Differences, 5(4), 487-489. https://doi.org/10.1016/0191-8869(84)90019-9
- Vetterli, C. F., e Furedy, J. J. (1985). Evoked potential correlates of intelligence: Some problems with Hendrickson’s string measure of evoked potential complexity and error theory of intelligence. International Journal of Psychophysiology, 3(1), 1-3. https://doi.org/10.1016/0167-8760(85)90012-1
- Barrett, P. T., e Eysenck, H. J. (1992). Brain evoked potentials and intelligence: The Hendrickson paradigm. Intelligence, 16(3-4), 361-381. https://doi.org/10.1016/0160-2896(92)90015-J
- Bates, T., Stough, C., Mangan, G., e Pellett, O. (1995). Intelligence and complexity of the averaged evoked potential: An attentional theory. Intelligence, 20(1), 27-39. https://doi.org/10.1016/0160-2896(95)90004-7
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
O que é exatamente o potencial evocado cerebral?
É a média, obtida por computador, de centenas de fragmentos de atividade elétrica cerebral, cada um registado logo após o mesmo estímulo (por exemplo, um clique auditivo). Ao calcular a média de tantos fragmentos, o ruído neuronal aleatório cancela-se e resta apenas a resposta que o cérebro repete de forma consistente perante esse estímulo.
A pessoa tem de fazer alguma coisa enquanto isto é medido?
Não. Segundo descreve Arthur Jensen em The g Factor (1998), a pessoa permanece simplesmente sentada e relaxada enquanto o estímulo se repete. Não há nenhuma tarefa, decisão ou esforço consciente envolvido, o que tornou especialmente notável que a forma dessa onda pudesse relacionar-se com o CI. Investigação posterior mostrou, no entanto, que a atenção da pessoa durante o registo altera o resultado.
Que relação tem isto com a inteligência?
Nos estudos que Jensen reúne, certas características da onda (a sua amplitude ou o comprimento do seu contorno, a chamada medida de corda dos Hendrickson) correlacionaram com as pontuações em testes de CI. Os primeiros números foram muito altos, mas as réplicas posteriores deram resultados fracos ou inconsistentes, por isso hoje a relação considera-se modesta e dependente das condições do registo.
Isto significa que um aparelho poderia medir a minha inteligência sem me fazer nenhum teste?
Não com a fiabilidade de um teste psicométrico validado. São correlações de grupo, úteis para a investigação sobre as bases biológicas da inteligência, não uma alternativa prática ou diagnóstica a uma avaliação psicológica real.