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Enfrentamento evitativo: adiar o problema, proteção ou risco?

Por Rafa Personaramic4 min de leitura
Ilustração minimalista com as palavras ENFRENTAMENTO EVITATIVO numa insígnia geométrica

Enfrentamento evitativo: desviar o olhar, pelo menos por agora

O enfrentamento evitativo descreve a tendência para adiar ou desviar o olhar de uma situação stressante, pelo menos num primeiro momento. É uma das estratégias de enfrentamento pior compreendidas: não é simplesmente “não fazer nada” sem motivo, mas uma forma, por vezes útil, por vezes dispendiosa, de te protegeres de um mal-estar percebido como demasiado grande para enfrentar de imediato.

Nota de responsabilidade: Este artigo apoia-se na literatura de enfrentamento do stress iniciada por Richard Lazarus e Susan Folkman, que identifica a evitação como uma terceira grande categoria a par do enfrentamento centrado no problema e na emoção, e tem uma finalidade exclusivamente divulgativa.

De onde vem: proteger, ainda que temporariamente

Evitar nem sempre é negação pura: muitas vezes é uma forma de ganhar tempo enquanto se reúnem os recursos emocionais necessários para enfrentar algo de frente. O problema não está na pausa em si, mas no facto de que, ao contrário de outras estratégias, a evitação não atua sobre a causa do stress: enquanto dura, o problema costuma continuar ali, e em muitos casos cresce.

Formas habituais de evitar sem lhe chamar isso

  • Adiamento sistemático: deixar para mais tarde tarefas ou conversas que geram mal-estar, mesmo quando são urgentes.
  • Distração ativa: preencher o tempo com outras coisas para não pensar no que preocupa.
  • Minimização: desvalorizar um problema como forma de ainda não ter de o abordar.
  • Delegação evasiva: pedir a outra pessoa que trate de algo não tanto porque o faça melhor, mas para não ter de enfrentá-lo por si próprio.
  • Alívio a curto prazo, custo a longo prazo: a sensação de calma imediata costuma vir acompanhada de mais tensão acumulada mais tarde.

Imagina uma fatura ou uma carta do banco que chega e fica por abrir em cima da mesa vários dias. Sempre que a pessoa a vê de relance sente uma pontada de mal-estar, e sempre decide “depois vejo isso com mais calma”. O problema é que o valor real, seja ele qual for, não muda por a carta ficar fechada: só muda quanto tempo dura a ansiedade de fundo entretanto, e por vezes o prazo para reagir sem custo adicional.

O preço que sobe com o tempo

O custo da evitação quase nunca é fixo: em muitos casos cresce quanto mais se adia. Uma conversa incómoda com um colega de trabalho costuma ser mais difícil quanto mais tempo leva sem acontecer, porque o mal-estar acumulado se soma ao motivo original. Um problema de saúde menor ignorado pode complicar-se. Uma dívida pequena por gerir pode gerar juros. Isto não torna a evitação num erro automático (por vezes a situação melhora sozinha, ou o momento para a enfrentar de verdade ainda não chegou), mas é a razão pela qual este estilo, mais do que os outros três, merece ser revisto com alguma frequência: perguntar se aquilo que se está a evitar continua tão gerível como no início, ou se a margem para agir sem custo extra se está a reduzir.

O teu desafio de crescimento

A chave não está em eliminar por completo este estilo (uma pausa breve antes de enfrentar algo grande pode ser perfeitamente adaptativa), mas em notar quando se tornou a única estratégia disponível enquanto o problema continua intacto ou cresce. Dividir aquilo que gera evitação num primeiro passo muito pequeno e muito concreto, algo que se possa fazer em poucos minutos, costuma reduzir a resistência inicial muito mais eficazmente do que tentar enfrentar o problema todo de uma vez.

O que Tolle chama o “corpo da dor”

Eckhart Tolle, em O Poder do Agora (1997), descreve um conceito que ajuda a entender porque é que algumas evitações se mantêm tanto tempo: aquilo a que chama o “corpo da dor”, uma acumulação de mal-estar emocional não processado que fica armazenada e que ressurge, quase com vida própria, sempre que algo a ativa. Evitar, em muitos casos, não é apenas adiar uma tarefa concreta: é evitar o contacto com esse mal-estar acumulado que a tarefa ameaça remover. Tolle sugere que o primeiro passo não é forçar o confronto direto, mas simplesmente reconhecer conscientemente que esse mal-estar está ali, em vez de continuar a agir a partir dele sem dar por isso. Nomear aquilo que se está a evitar, e porque gera tanta resistência, costuma aliviar parte dessa carga ainda antes de abordar o problema em si.

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Perguntas frequentes

O enfrentamento evitativo é sempre negativo?

Nem sempre. Como pausa temporária perante algo avassalador pode ser adaptativo; o problema surge quando se torna a única estratégia e o problema continua a crescer entretanto.

Porque tendo a adiar as coisas que me geram stress?

Costuma ser uma forma de te protegeres do mal-estar imediato que provoca enfrentar o problema, ainda que à custa de esse problema continuar presente ou até crescer.

Como posso passar de evitar a enfrentar?

A literatura sobre enfrentamento do stress associa dividir um problema num primeiro passo pequeno e concreto a menos resistência inicial do que enfrentá-lo de uma vez, embora o processo varie de pessoa para pessoa e, perante uma evitação que gera mal-estar importante, convenha a orientação de um profissional.

Este resultado é um diagnóstico?

Não. É uma aproximação orientativa e divulgativa, não uma escala clínica validada.