O limiar da porta: porque atravessá-lo é, na verdade, um ritual
Prostrar-se perante uma porta. Beijá-la. Tocar-lhe com a mão ao entrar. Ou, pelo contrário, evitar pisá-la, descalçar-se antes de a atravessar, ou fazer-se levar ao colo por cima dela. Culturas que nunca tiveram contacto entre si desenvolveram, todas, algum gesto ritual para esse mesmo pedaço de chão de apenas uns centímetros.
O etnógrafo francês Arnold van Gennep dedicou uma secção inteira de Os Ritos de Passagem (1909) a explicar porquê.
A sua resposta não tem que ver com superstições avulsas. Tem que ver com o que é, exatamente, um limiar.
Um limiar não é daqui nem dali
Van Gennep classificou os rituais que acompanham qualquer mudança de estado em três tipos: ritos de separação (deixar para trás a situação anterior), ritos de margem (a travessia em si) e ritos de agregação (a incorporação na nova situação).
O limiar de uma porta é, para Van Gennep, o exemplo físico mais puro de margem.
- Não pertence ao espaço de dentro.
- Não pertence ao espaço de fora.
- Durante o instante em que alguém o ocupa, essa pessoa “flutua entre dois mundos”, nas palavras do próprio Van Gennep.
Por isso, diz, “passar o limiar” não é um simples deslocamento físico. Significa, literalmente, agregar-se a um mundo novo: ao lar de outra família num casamento, a uma comunidade religiosa numa ordenação, ao mundo dos mortos num funeral.
Porque se derramava sangue sobre a porta
Precisamente porque o limiar não é um lugar neutro, muitas culturas documentadas por Van Gennep tratam-no como um ponto que precisa de proteção ou purificação ativa antes de ser atravessado.
- Em algumas tradições borrifava-se o limiar com sangue ou com água lustral.
- As ombreiras da porta e a padieira eram untadas com sangue ou com perfumes.
- Noutros casos penduravam-se ou cravavam-se objetos sagrados (sacra) diretamente na estrutura da porta.
Van Gennep observa algo que muitas vezes se perde ao ler estes rituais isoladamente: toda a armadura da porta, o limiar, as ombreiras, a padieira, forma um único conjunto ritual. Se os ritos concretos diferem de uma cultura para outra, é só “por motivos técnicos imediatos”: a lógica de fundo é a mesma em todas.
Os guardiões que herdaram o limiar
Quando esse carácter sagrado se desenvolve em grande escala, segundo Van Gennep, a porta deixa de bastar-se a si própria. Precisa de guardiões.
- No Egito e no mundo assírio-babilónico, essa função era cumprida por dragões alados, esfinges e monstros de todo o tipo, esculpidos junto às portas de templos e palácios.
- Na China, a mesma função era cumprida por estátuas monumentais colocadas de ambos os lados da entrada.
- Nestes casos, aponta Van Gennep, a porta e o limiar “passam à categoria de pano de fundo”: as orações e oferendas deixam de se dirigir ao próprio limiar e passam a dirigir-se aos seus guardiões.
O limiar não perdeu a sua carga simbólica nestes casos. Transferiu-a para algo com forma própria, mais fácil de representar e de temer.
O limiar tem o seu próprio antes e o seu próprio depois
Van Gennep insiste numa nuance que costuma passar despercebida: os ritos que se fazem no limiar não esgotam a cerimónia. São ladeados por outros dois.
- Antes de tocar o limiar, são frequentes os ritos de purificação: lavar-se, limpar-se, deixar simbolicamente para trás o espaço anterior.
- Logo depois de o atravessar, chegam os ritos de agregação: a apresentação de sal, uma refeição partilhada com quem já habita esse novo espaço.
- Por isso, assinala Van Gennep, os ritos do limiar não são em si mesmos “ritos de aliança”: são apenas a dobradiça intermédia de uma sequência de três passos que começa antes de chegar à porta e termina bastante depois de a ter atravessado.
Oferecer sal ou pão a quem entra pela primeira vez numa casa, um costume que continua vivo em diferentes culturas hoje, é exatamente esse terceiro passo: a agregação que encerra aquilo que o limiar, uns segundos antes, tinha deixado em suspenso.
Porque se leva a noiva ao colo
Perante os rituais que procuram honrar o limiar (tocar-lhe, beijá-lo, prostrar-se perante ele), existe a estratégia exatamente oposta: evitar o contacto com ele por completo.
- Van Gennep documenta práticas de descalçar antes de atravessar um limiar, ou de dar um passo suficientemente largo para não chegar a pisá-lo.
- Cita, como uma das suas fontes, o estudo de W. Crooke The Lifting of the Bride (Folk-Lore, 1902), que recolhe o costume, documentado em diferentes culturas, de levar a noiva ao colo ao entrar no seu novo lar.
- Segundo o enquadramento de Van Gennep, ambas as estratégias (tocar o limiar com reverência ou evitá-lo por completo) respondem à mesma premissa: esse ponto exato é demasiado carregado para se atravessar de forma neutra.
Não é por acaso que este gesto concreto, levar alguém ao colo mesmo ao entrar numa casa nova, sobreviveu até aos casamentos atuais em muitas culturas, muito depois de se ter perdido qualquer explicação consciente do porquê de o fazer.
Da porta da tua casa à fronteira de um país
O mais inesperado da teoria de Van Gennep é a sua capacidade para explicar fenómenos que, à primeira vista, nada têm a ver com uma porta.
- Entre países, existia antigamente aquilo a que Van Gennep chama uma zona neutra: uma faixa de terreno entre dois territórios que não pertencia inteiramente a nenhum, as antigas “marcas” fronteiriças da Europa cristã medieval.
- Cita um caso muito concreto, documentado por Trumbull: quando o general Ulysses Grant chegou a Assiute, no Egito, um lugar fronteiriço, para desembarcar, sacrificou-se um boi e colocaram-se a sua cabeça e o seu corpo de ambos os lados da passarela. Grant teve de caminhar entre os dois, literalmente a cavalo sobre o sangue derramado, para completar a passagem.
- Van Gennep interpreta este rito, e outros parecidos (passar entre dois ramos, entre um objeto cortado em dois, ou por baixo de um arco), como variantes diretas do mesmo gesto: sair formalmente de um mundo para entrar noutro.
- Essa mesma lógica, diz, repete-se a menor escala na porta de um bairro, no pórtico de um templo (o pronaos, o nártex, o vestíbulo), até se reduzir, na sua forma mais pequena, a uma simples pedra, uma viga ou um limiar.
- É a mesma estrutura de margem, simplesmente comprimida: atravessar a fronteira de um país entre o sangue de um boi sacrificado e atravessar o limiar de um quarto são, para a mente que produz estes rituais, o mesmo tipo de ato.
O que resta hoje de tudo isto
Quase ninguém, ao entrar em sua própria casa, pensa em dragões babilónicos nem em zonas neutras medievais.
Mas os gestos de baixa intensidade continuam ali:
- Bater à porta antes de entrar, mesmo que a porta esteja aberta.
- Evitar ficar parado precisamente no vão de uma porta, um gesto que em muitas culturas continua a considerar-se, sem se saber bem porquê, má educação ou má sorte.
- O próprio ato de receber alguém “à porta” de casa, um pequeno ritual de boas-vindas que quase ninguém substitui por receber os convidados já sentados lá dentro.
- Limpar os sapatos, ou diretamente descalçar-se, antes de entrar numa casa alheia, mesmo quando o chão da rua não está especialmente sujo.
Nenhum destes gestos precisa já de uma explicação religiosa para sobreviver. Tornaram-se simples educação, simples costume, simples “é assim que se faz”. Mas a forma exata que assumem, detendo-se precisamente nesse ponto, marcando precisamente esse instante, continua a ser a mesma que Van Gennep documentou em cerimónias de casamento, de fronteira e de templo separadas por milhares de quilómetros e por nenhuma relação histórica direta entre elas.
Van Gennep não teria precisado de explicar porque é que isto lhe pareceria familiar. Já o tinha explicado ele próprio, mais de um século antes de estes costumes perderem o seu nome ritual e ficarem apenas com o gesto.
Fontes
- Van Gennep, A. (1909). Les rites de passage (trad. portuguesa Os Ritos de Passagem). Capítulo “A porta, o limiar, o pórtico”.
- Crooke, W. (1902). The Lifting of the Bride. Folk-Lore, XIII, pp. 226-251.
- Trumbull, H. C. (1896). The Threshold Covenant: Or, the Beginning of Religious Rites. Charles Scribner’s Sons.
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Perguntas frequentes
Porque é que em alguns casamentos a noiva é levada ao colo ao atravessar a porta?
O etnógrafo Arnold van Gennep documentou em Os Ritos de Passagem (1909) que este gesto se relaciona diretamente com o limiar entendido como zona ritualmente perigosa: levar ao colo evita que a pessoa toque ou pise esse ponto exato durante o momento de transição. Cita como fonte o estudo de W. Crooke 'The Lifting of the Bride' (Folk-Lore, 1902), que documenta o costume em diferentes culturas.
É verdade que em algumas culturas se pintava com sangue a porta da casa?
Sim, segundo recolhe Van Gennep: em diferentes tradições borrifava-se o limiar com sangue ou água lustral, e untavam-se as ombreiras da porta com sangue ou perfumes, como parte dos ritos de separação e purificação associados à passagem de um espaço para outro.
Porque há dragões, esfinges ou estátuas junto a portas antigas no Egito ou na Babilónia?
Van Gennep explica que, quando o carácter sagrado de uma porta se desenvolve em grande escala, esta passa a ser guardada por divindades ou figuras protetoras próprias, como os dragões alados ou esfinges documentados no Egito e na Assíria-Babilónia, ou as estátuas guardiãs na China. A porta e o limiar ficam então em segundo plano, como pano de fundo desses guardiões.
Este artigo diz que tocar ou evitar um limiar tem algum efeito real sobre a sorte?
Não. Descreve, com fins informativos, como diferentes culturas trataram simbolicamente o limiar de uma porta segundo a etnografia clássica de Van Gennep. Não faz nenhuma afirmação sobre superstições, boa ou má sorte, nem substitui nenhuma crença pessoal ou religiosa.