Porque é que a ciência descobriu que os narcisistas não se odeiam a si mesmos por dentro?
Durante anos, a explicação de senso comum sobre o narcisismo foi que, no fundo, todo o narcisista se odeia a si próprio. A investigação que Kristin Neff revê em Self-Compassion aponta noutra direção, embora o quadro completo tenha mais nuances do que costuma contar-se.
Neff, psicóloga da Universidade do Texas em Austin, dedica várias páginas do seu livro (2011) a uma reviravolta incómoda na investigação sobre a autoestima: os dados não só questionam se vale a pena perseguir uma autoestima alta a todo o custo, como põem em causa uma das explicações mais repetidas sobre a razão de ser do narcisismo.
A hipótese da máscara
A ideia de que o narcisista esconde um núcleo de insegurança tem raízes clínicas: autores psicanalíticos como Otto Kernberg e Heinz Kohut descreveram a grandiosidade como uma defesa contra uma imagem de si frágil. Na psicologia social, é conhecida como modelo da máscara.
A sua previsão é concreta e verificável: alguém com muitos traços narcisistas deveria mostrar uma autoestima explícita (a que declara) muito alta e uma autoestima implícita (a que surge nas reações automáticas) baixa.
O instrumento que pôs o mito à prova
Para o verificar, era preciso medir algo que a pessoa não pudesse simplesmente declarar por palavras. É aqui que entra o Teste de Associação Implícita (IAT, na sigla inglesa), desenvolvido por Greenwald, McGhee e Schwartz (1998): uma prova por computador que mede a rapidez com que alguém associa o rótulo “eu” a palavras positivas (“maravilhoso”) face a palavras negativas (“horrível”).
- Uma associação rápida entre “eu” e o positivo, e lenta entre “eu” e o negativo, indica uma autoestima implícita alta. O padrão contrário indica uma autoestima implícita baixa.
- Segundo Neff, as pessoas com pontuações altas no Inventário de Personalidade Narcisista (NPI, com afirmações como “acho que sou uma pessoa especial” ou “gosto de me olhar ao espelho”) pontuam alto tanto de forma explícita como implícita.
O estudo mais citado nesta linha é o de Campbell, Bosson, Goheen, Lakey e Kernis (2007), publicado na Psychological Science com um título que é, ele próprio, uma pergunta: “Os narcisistas desgostam de si mesmos ‘lá no fundo’?”. A resposta foi que não, com uma nuance importante: a nível implícito, as pessoas narcisistas associavam-se a traços de agência (estatuto, domínio, inteligência), mas não a traços comunais (amabilidade, moralidade, proximidade). Mais do que uma autoestima escondida e em baixo, o que descrevem é um eu desequilibrado: muito convencido da sua competência e pouco interessado na sua bondade.
O que o resumo popular costuma omitir
Aqui a história deixa de ser tão limpa como o título a conta.
- Jordan, Spencer, Zanna, Hoshino-Browne e Correll (2003) encontraram precisamente o padrão da máscara num dos seus estudos: quem combinava autoestima explícita alta e implícita baixa era quem mostrava mais narcisismo, e noutras experiências essa combinação previa comportamentos mais defensivos.
- A revisão de Bosson e colaboradores (2008), assinada em parte pelos mesmos autores dos dois lados, conclui que a evidência é mista e propõe três razões: a baixa fiabilidade das medidas implícitas, a diferença entre autoimagem de agência e comunal, e a confusão entre duas formas distintas de narcisismo.
- Uma replicação posterior do estudo de 2007, de uma equipa da Universidade de Potsdam, também não encontrou autoestima implícita baixa, embora tenha encontrado uma autoavaliação de agência mais neutra do que a publicada.
A nossa leitura deste debate: o que a investigação desmontou foi a versão universal do mito (“todo o narcisista se odeia por dentro”), não a possibilidade de que, em algumas pessoas, a grandiosidade seja defensiva.
Narcisismo grandioso e narcisismo vulnerável
A peça que arruma boa parte da contradição é a distinção entre dois perfis, revista por Pincus e Lukowitsky (2010) e posta à prova por Miller e colaboradores (2011) com 858 participantes e três escalas diferentes:
- O narcisismo grandioso associa-se a extroversão, dominância e uma autoestima explícita alta e estável. É o que o NPI mede sobretudo e o que aparece nos estudos com o IAT.
- O narcisismo vulnerável associa-se a neuroticismo, hipersensibilidade à crítica, vergonha e uma autoestima baixa ou muito flutuante. Nele, a grandiosidade convive com sentimentos de insuficiência.
Dito de outra forma: a intuição popular não estava totalmente errada, mas descrevia melhor a forma vulnerável do que a grandiosa, que é a que a maioria das pessoas imagina quando pensa num narcisista.
Porque é que o mito continuava tão atraente
O livro cita um exemplo de como esta ideia circulava na conversa pública: um comentador de televisão, a falar sobre jovens celebridades, afirmou que por dentro “uma vozinha interior” lhes repetiria que não eram suficientemente boas.
Neff recolhe uma declaração de Paris Hilton ao Sunday Times em 2006 (“não há ninguém no mundo como eu… neste momento, esse ícone sou eu”) como exemplo do tipo de discurso que costuma ler-se como fachada, e contrasta-a com o que mostram os dados do IAT. O mito é cómodo porque transforma um comportamento incómodo em algo compreensível, e até digno de compaixão, sem precisar de provas.
O que acontece quando o ego se sente ameaçado
Se a autoestima alta do narcisista grandioso não é uma fachada, de onde vem a sua reação tão intensa à crítica? Neff recolhe uma experiência clássica, a de Bushman e Baumeister (1998), pensada para responder a isto.
- Os participantes escreveram uma redação que supostamente seria avaliada por um colega noutra sala, que na verdade não existia.
- A “avaliação” recebida era, ao acaso, um elogio (“nenhuma sugestão, perfeito”) ou um insulto (“uma das piores redações que já li”).
- Depois, numa tarefa apresentada como competitiva, os participantes podiam definir o volume e a duração de um ruído incómodo dirigido a esse mesmo “colega”.
- Quem pontuava alto em narcisismo e tinha recebido a crítica aplicou os castigos sonoros mais intensos e prolongados. A autoestima, por si só, não previa essa agressividade.
A leitura de Neff, partilhada pelos autores: a agressividade não surge porque o narcisista se sinta mal consigo mesmo no fundo, mas como resposta a uma ameaça pontual a uma autoimagem que, até esse momento, se sustentava sem fissuras. Baumeister e a sua equipa chamaram-lhe egotismo ameaçado.
O problema de fundo: de que depende a autoestima
Neff alarga o foco para lá do narcisismo. Cita o termo que os psicólogos usam para um padrão muito mais disseminado: a autoestima contingente, a que depende do sucesso, da aprovação ou da comparação numa área concreta, seja o aspeto físico, o desempenho profissional ou a aprovação percebida de desconhecidos.
- Quanto mais a autoestima depende de uma área concreta, pior se sente a pessoa quando falha precisamente nessa área. O resultado parece-se, nas palavras da autora, com uma montanha-russa emocional.
- Neff usa a expressão “passadeira hedónica” (Brickman e Campbell, 1971) para descrever a necessidade de uma dose cada vez maior de aprovação ou de sucesso para manter o mesmo nível de bem-estar.
- Como contexto histórico, menciona o relatório encomendado pelo estado da Califórnia no final dos anos oitenta para promover a autoestima escolar, que não encontrou a maioria dos efeitos esperados. Anos depois, a revisão de Baumeister, Campbell, Krueger e Vohs (2003) chegou a uma conclusão semelhante com muito mais evidência: a autoestima alta associa-se a sentir-se melhor e a mais iniciativa, mas pouco prevê o rendimento académico ou profissional, e em boa parte é consequência do sucesso mais do que a sua causa.
Se quiseres explorar de que depende a tua própria autoestima, o teste de autoestima centra-se precisamente nessa base.
Confundir o mapa com o território
Uma das metáforas centrais do livro compara o conceito que cada um tem de si a um quadro: uma representação, não a própria realidade. Neff compara-o a confundir os frutos de uma natureza-morta com frutos verdadeiros, e a ficar frustrado ao perceber que não se podem comer.
O autoconceito, defende, é sempre uma versão simplificada de algo muito mais mutável: pensamentos, emoções e comportamentos que variam consoante o momento e o contexto. Agarrarmo-nos a uma autoimagem fixa e positiva funciona, na sua imagem, como uma boia insuflável com um furo: aguenta durante algum tempo, mas exige um esforço constante. A alternativa que propõe não é trocar um rótulo positivo por um negativo, mas deixar de precisar de um rótulo fixo de “bom” ou “mau”.
A alternativa que Neff tem investigado
O argumento de Neff não fica pela crítica à autoestima. Propõe a autocompaixão: tratarmo-nos com a mesma amabilidade com que trataríamos um amigo, reconhecer a falha como parte da experiência humana partilhada e observar o mal-estar sem o dramatizar.
O seu estudo com Roos Vonk (Neff e Vonk, 2009), com mais de 2.000 participantes, comparou as duas variáveis. A autocompaixão associou-se a uma sensação de valor mais estável no tempo e menos dependente da aprovação externa; além disso, ao contrário da autoestima, não se relacionou com o narcisismo. São dados correlacionais e, em boa parte, da própria autora do constructo, por isso convém lê-los como uma linha promissora e não como uma conclusão fechada.
Este artigo resume a investigação sobre narcisismo e autoestima com fins informativos. Não é um critério de diagnóstico de narcisismo nem de qualquer outro traço ou perturbação da personalidade.
Este mecanismo, em que a autoestima depende de comparar e competir, liga-se ao que se explica sobre a química cerebral da autocrítica e aos traços de personalidade do modelo Big Five, onde o neuroticismo ou a amabilidade se relacionam com formas muito diferentes de gerir a comparação social.
Também se liga à forma como a segurança interior se constrói desde a infância, tratada no artigo sobre a vinculação segura.
Fontes
- Neff, K. (2011). Self-Compassion: The Proven Power of Being Kind to Yourself. William Morrow.
- Neff, K. D., e Vonk, R. (2009). Self-compassion versus global self-esteem: Two different ways of relating to oneself. Journal of Personality, 77(1), 23-50.
- Greenwald, A. G., McGhee, D. E., e Schwartz, J. L. K. (1998). Measuring individual differences in implicit cognition: The Implicit Association Test. Journal of Personality and Social Psychology, 74(6), 1464-1480.
- Campbell, W. K., Bosson, J. K., Goheen, T. W., Lakey, C. E., e Kernis, M. H. (2007). Do narcissists dislike themselves “deep down inside”? Psychological Science, 18(3), 227-229.
- Jordan, C. H., Spencer, S. J., Zanna, M. P., Hoshino-Browne, E., e Correll, J. (2003). Secure and defensive high self-esteem. Journal of Personality and Social Psychology, 85(5), 969-978. doi:10.1037/0022-3514.85.5.969
- Bosson, J. K., Lakey, C. E., Campbell, W. K., Zeigler-Hill, V., Jordan, C. H., e Kernis, M. H. (2008). Untangling the links between narcissism and self-esteem: A theoretical and empirical review. Social and Personality Psychology Compass, 2(3), 1415-1439.
- Pincus, A. L., e Lukowitsky, M. R. (2010). Pathological narcissism and narcissistic personality disorder. Annual Review of Clinical Psychology, 6, 421-446.
- Miller, J. D., Hoffman, B. J., Gaughan, E. T., Gentile, B., Maples, J., e Campbell, W. K. (2011). Grandiose and vulnerable narcissism: A nomological network analysis. Journal of Personality, 79(5), 1013-1042. doi:10.1111/j.1467-6494.2010.00711.x
- Bushman, B. J., e Baumeister, R. F. (1998). Threatened egotism, narcissism, self-esteem, and direct and displaced aggression: Does self-love or self-hate lead to violence? Journal of Personality and Social Psychology, 75(1), 219-229.
- Baumeister, R. F., Campbell, J. D., Krueger, J. I., e Vohs, K. D. (2003). Does high self-esteem cause better performance, interpersonal success, happiness, or healthier lifestyles? Psychological Science in the Public Interest, 4(1), 1-44.
- Brickman, P., e Campbell, D. T. (1971). Hedonic relativism and planning the good society. Em M. H. Appley (ed.), Adaptation-Level Theory: A Symposium. Academic Press.
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Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Os narcisistas têm, no fundo, a autoestima baixa?
No narcisismo grandioso, a maior parte dos dados não o sustenta. O estudo de Campbell, Bosson e colaboradores (2007), com o teste de associação implícita, concluiu que as pessoas com mais traços narcisistas não se avaliam pior a nível automático: veem-se muito bem em traços de estatuto e competência, embora não em traços de proximidade e bondade. Há estudos que encontraram o padrão da 'máscara' (Jordan et al., 2003), e a revisão de Bosson et al. (2008) conclui que a evidência é mista. Já o narcisismo vulnerável associa-se, esse sim, a uma autoestima baixa.
Ter a autoestima alta protege de nos sentirmos mal connosco próprios?
Depende da sua base. Uma autoestima que depende do sucesso, da aprovação ou da comparação (aquilo a que os psicólogos chamam autoestima contingente) associa-se a mais altos e baixos emocionais, e não a menos, quando chega o fracasso nessa área concreta.
O que é a autoestima contingente?
É o termo usado em psicologia para a autoestima que depende do sucesso ou do fracasso em áreas concretas: o aspeto físico, a aprovação social, o desempenho profissional. Quanto mais o sentido do próprio valor depende de uma área específica, pior tende a sentir-se a pessoa quando falha precisamente nela.
Isto significa que a autoestima em geral é negativa?
Não. Neff distingue entre uma autoestima saudável, que não depende de nos sentirmos superiores aos outros, e uma autoestima insegura ou contingente, e adverte que a maioria das escalas habituais não diferencia as duas. Por isso, uma pontuação alta, sem mais contexto, diz pouco sobre o quão estável ela é.
Que diferença há entre narcisismo grandioso e vulnerável?
O grandioso caracteriza-se por dominância, extroversão e uma autoimagem inflacionada que se mantém estável; o vulnerável, por hipersensibilidade à crítica, retraimento, ansiedade e uma autoestima baixa ou muito flutuante. Ambos partilham a sensação de merecer um tratamento especial. A distinção é resumida, entre outros, por Pincus e Lukowitsky (2010) e Miller et al. (2011).