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Autoconhecimento e bem-estar

A miopia e a inteligência: o mistério que a ciência não resolveu

Por Rafa Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista orgânica de um olho grande e literal, com íris verde-salva e pupila clara

As crianças das turmas para sobredotados têm entre três e cinco vezes mais miopia do que os colegas de turmas normais. Ninguém, nem sequer os investigadores que o mediram com mais cuidado, tem uma explicação completa do porquê.

É um daqueles dados que soam a erro de impressão à primeira leitura.

Não é.

E quanto mais de perto se observa, menos se parece com uma simples coincidência demográfica.

Um dado repetido em “muitos estudos e amostras enormes”

O psicólogo Arthur Jensen dedica uma secção de The g Factor (1998) a esta relação, que descreve como “conhecida há muito tempo” e sustentada por muitos estudos e amostras muito grandes.

  • A correlação entre o grau de miopia e o CI ronda, segundo esses estudos, entre +0,20 e +0,25.
  • A miopia é altamente hereditária, e já foi identificado um gene concreto que regula a forma do globo ocular como principal responsável.
  • Ainda na infância, a partir do primeiro ano de idade, um exame ocular pode prever com alguma fiabilidade se essa pessoa desenvolverá miopia na adolescência ou na vida adulta.

É, à primeira vista, uma dessas correlações curiosas e sem grande relevo. A surpresa chega quando se tenta explicar porque existe.

A explicação óbvia, e porque não se sustenta

A primeira hipótese que ocorre a qualquer pessoa é a mais intuitiva: quem lê mais, estuda mais, e por isso usa mais os olhos ao perto, acaba por desenvolver mais miopia. E quem lê mais também tende a ter melhores resultados académicos.

Jensen explica porque é que esta ideia, conhecida como a hipótese do “trabalho de perto”, está em grande parte descartada:

  • As pessoas com trisomia 21 (síndrome de Down), uma condição que reduz notavelmente a capacidade intelectual e, com ela, o tempo dedicado à leitura e a outras tarefas de perto, mostram a mesma incidência de miopia do que a população geral.
  • Se a miopia dependesse apenas do hábito de ler, seria de esperar muito menos miopia neste grupo. Não é o que se observa.
  • A miopia, além disso, tem uma forte componente hereditária, algo que um simples hábito de leitura não explicaria.

A conclusão de Jensen é que o “trabalho de perto” provavelmente interage com uma predisposição genética já existente, mas não a cria do zero.

A experiência que isola o efeito: comparar irmãos entre si

O dado mais convincente do livro vem de um estudo de 1988 assinado por Cohn, Cohn e Jensen, concebido especificamente para responder a uma pergunta incómoda: será esta correlação real dentro de cada família, ou é apenas um efeito de diferentes grupos populacionais diferirem tanto em miopia como em CI?

  • Selecionaram-se sessenta adolescentes com CI alto (medido com as Matrizes de Raven) e os seus irmãos completos com um CI, em média, catorze pontos mais baixo.
  • A todos foi medido o grau de miopia de forma objetiva, através de refração ótica, não apenas pelo simples facto de usarem ou não óculos.
  • O irmão com o CI mais alto mostrou, em média, um grau de miopia significativamente maior do que o seu próprio irmão com CI mais baixo, dentro da mesma família, com o mesmo ambiente e a mesma carga genética em grande parte partilhada.

Por se tratar de irmãos, ficam controladas quase todas as variáveis que poderiam “inflacionar” uma correlação assim (nível socioeconómico, ambiente educativo, cultura familiar). O que resta é uma relação intrínseca: algo dentro de cada indivíduo liga ambos os traços, não apenas o facto de pertencer a uma família ou a um grupo social concreto.

Genes que fazem duas coisas ao mesmo tempo, sem que se saiba bem como

É aqui que o mistério se torna, honestamente, mais interessante do que se tivesse uma resposta clara.

Jensen não oferece uma explicação causal direta. O que propõe é a hipótese de uma relação pleiotrópica: a possibilidade de um mesmo gene, ou um conjunto de genes relacionados, influenciar simultaneamente o desenvolvimento do olho e algum aspeto do desenvolvimento neurológico relacionado com g, sem que um cause o outro de forma direta.

É um pouco como descobrir que dois interruptores, em divisões diferentes da casa, estão ligados ao mesmo cabo oculto na parede: dá para verificar que se ativam juntos, mas isso nada diz sobre porque é que alguém decidiu ligá-los assim.

Porque esta correlação não serve para nada prático (e porque isso está bem)

Antes de tirar conclusões apressadas, convém ser claro sobre os limites desta descoberta:

  • Uma correlação de +0,20 a +0,25 é modesta: deixa espaço de sobra para imensas pessoas míopes sem nenhum CI acima da média, e vice-versa.
  • Não há nenhum mecanismo prático que transforme isto em informação útil sobre uma pessoa concreta a partir de usar ou não óculos.
  • O valor deste dado não está na sua utilidade, mas no que revela sobre o quão entrelaçados podem estar traços que, à primeira vista, nada têm a ver entre si.

Às vezes a ciência não fecha um mistério, apenas o descreve com mais precisão. Este é um desses casos: um vínculo real, medido com cuidado, e ainda sem uma explicação completa de porque é que o mesmo corpo que afina a visão para o perto parece, por vezes, afinar também outra coisa.

Se te interessa outro vínculo igualmente inesperado entre biologia e fator g, em porque é que dois desconhecidos criados na mesma casa acabam sem nada em comum explica-se o que mostram os estudos com gémeos e famílias adotivas.

Fontes

  • Jensen, A. R. (1998). The g Factor: The Science of Mental Ability. Praeger.
  • Cohn, S. J., Cohn, C. M. G., & Jensen, A. R. (1988). Myopia and intelligence: A pleiotropic relationship? Human Genetics, 80, 53-58.

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Perguntas frequentes

É verdade que as pessoas míopes são mais inteligentes?

Não no sentido de uma regra individual. O que existe é uma correlação estatística modesta, de cerca de +0,20 a +0,25, entre o grau de miopia e o CI em estudos com amostras grandes, segundo recolhe Arthur Jensen em The g Factor (1998). Não permite prever nada sobre uma pessoa concreta a partir de usar ou não óculos.

Não será simplesmente que ler muito, sendo estudioso, estraga a vista?

É a explicação intuitiva, mas segundo Jensen está em grande parte descartada pela evidência: pessoas com síndrome de Down, que pela própria condição leem e fazem 'trabalho de perto' muito menos do que a média, têm a mesma incidência de miopia do que a população geral. A miopia, além disso, tem uma hereditariedade muito alta e já foi identificado um gene concreto que regula a forma do globo ocular.

Como se pode saber que a relação é real e não uma coincidência demográfica?

O estudo de Cohn, Cohn e Jensen (1988) comprovou-o comparando adolescentes com CI alto (medido com as Matrizes de Raven) com os seus próprios irmãos com CI mais baixo, dentro da mesma família. Mesmo controlando assim a origem social e genética partilhada, o irmão com mais CI mostrava, em média, mais miopia medida de forma objetiva (por refração ótica), não apenas declarada.

Este artigo recomenda fazer exames à vista para saber algo sobre a inteligência?

Não. É um resumo divulgativo de uma descoberta de investigação em psicometria, não um guia de saúde visual nem uma ferramenta de autoavaliação. Qualquer dúvida sobre a vista deve ser consultada com um profissional de oftalmologia.