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Estilo expressivo

Arno Stern, o homem que encontrou o mesmo desenho em crianças de todo o planeta

Pela redação do Personaramic6 min de leitura
Ilustração geométrica amável de um turbilhão e um pontilhado, dois traços arredondados sem figuras reconhecíveis

Arno Stern fez 100 anos a 23 de junho de 2024. Morreu uma semana depois, a 30 de junho, em França. Dedicou mais de sessenta desses anos a uma ideia muito concreta: que perguntar a uma criança “o que desenhaste?” é, segundo ele, quase sempre um erro.

Não é uma anedota menor dentro da sua obra. É, segundo os trabalhos académicos que analisam o seu pensamento, o ponto de partida de tudo o resto.

De um orfanato do pós-guerra a uma teoria completa

Stern nasceu em 1924 em Kassel, na Alemanha. A família fugiu do nazismo e instalou-se em França em 1933, e durante a guerra ele próprio passou por um campo de trabalho.

O seu primeiro contacto profissional com a pintura infantil chegou em 1946, nos arredores de Paris, quando ficou responsável por uma oficina de pintura num lar para órfãos de guerra. Ali propôs às crianças que pintassem sem instruções nem qualquer correção, e o que viu nessas sessões orientou o resto do seu trabalho.

A partir daí, e sem nunca ter trabalhado dentro do sistema escolar, Stern passou décadas a observar como pintam pessoas de todas as idades num espaço que ele próprio concebeu: o Closlieu.

O Closlieu: um espaço pensado para que ninguém te observe

O Closlieu não é uma sala de aula nem um estúdio de arte convencional. Segundo descreve um trabalho académico sobre a sua semiologia da expressão, é uma instalação de cerca de 20 metros quadrados, com capacidade máxima de catorze pessoas, pensada para excluir qualquer intrusão, pedido ou distração externa.

O mobiliário inclui uma mesa-paleta partilhada para misturar tinta, pincéis, papéis, água e uma estante de recipientes. Nada no espaço está ali para avaliar o resultado.

No Closlieu, quem acompanha a sessão não é um professor. Stern insistia em chamar-lhe assistente, uma palavra escolhida com cuidado: não dirige, não avalia, não corrige a figura nem a cor nem a composição.

A sua função é sustentar as condições para que a pintura aconteça sem qualquer relação de poder pelo meio.

A pergunta que, segundo ele, faz mais mal do que qualquer correção

O núcleo da crítica de Stern não são as correções evidentes, mas uma pergunta que soa inofensiva: “O que desenhaste?”

Um trabalho académico que analisa o seu livro Del dibujo infantil a la semiología de la expresión resume assim o seu argumento, nas palavras do próprio Stern:

O adulto não diz apenas “Faz-me um desenho bonito!”, a seguir pede à criança que lhe explique o desenho. E isto completa o desastre, porque faz enraizar no espírito da criança a ideia de que o desenho serve para comunicar. […] O adulto também pergunta: “E ali, o que quiseste representar?” E a criança reage: “Mas não se vê? Então não fui capaz de desenhar bem!”.

Arno Stern

Para Stern, essa sequência (elogio, pergunta, exigência implícita de reconhecimento) é a que instala na criança a ideia de que um desenho pode estar “bem” ou “mal” feito, e de que a sua função é comunicar algo a um adulto.

Daí a sua tese mais polémica: a criança que pinta em liberdade não faz “arte” para ninguém, responde antes a uma necessidade própria de se exprimir através de formas.

A Formulação: o mesmo traço em desertos, savanas e selvas

Entre 1966 e 1972, Stern fez numerosas estadias em desertos, savanas e selvas para observar como pintavam crianças e adultos sem contacto com a educação artística ocidental.

Segundo o seu próprio relato, encontrou as mesmas figuras e traços em culturas que não tinham contacto entre si, e chegou a catalogar cerca de setenta formas.

A esse fenómeno chamou Formulação: um repertório de figuras (redonda, quadrado, radial, espinha, entre outras) que, segundo a sua teoria, não representam nada do mundo exterior. Convém lembrar que a descoberta vem das suas observações, não de um estudo comparativo com critérios de codificação independentes.

Nascem, segundo descreve com detalhe um trabalho académico sobre o desenvolvimento do desenho infantil, de dois gestos motores básicos: o Turbilhão (um giro impulsivo do qual, ao unir as extremidades, surge a figura Redonda) e o Pontilhado (batimento rápido e repetido que dá origem ao fenómeno da Multiplicação).

A Formulação evolui, segundo Stern, em três fases sucessivas:

  • Figuras primárias: não pensadas, não representam nada.
  • Objetos-imagem: a razão intervém e algumas figuras primárias começam a ser usadas como partes de uma casa, uma árvore ou um barco, por semelhança com o ambiente.
  • Figuras essenciais: surgem quando a pessoa, já adulta, se entrega por completo à Formulação sem necessidade de representar nada, deixando renascer os traços que a representação naturalista tinha eclipsado.

Stern defendia que este código se alimenta do que chamou memória orgânica: um depósito da vida pré-natal e dos primeiros anos que, segundo a sua teoria, se revelaria de forma indireta nas figuras da Formulação.

Convém ser precisos aqui: esta é uma ideia própria de Stern, não uma descoberta com o respaldo empírico que existe, por exemplo, para outras técnicas de desenho que analisamos neste mesmo site.

Dois tipos de traço: o que comunica e o que apenas se exprime

Um trabalho de mestrado centrado em escultura e desenho expressivo recolhe outra distinção central de Stern: a diferença entre o traço-comunicação e o traço-expressão.

O primeiro é o do esboço, o estudo preparatório que procura fixar de antemão como ficará uma obra terminada.

O segundo é o da construção livre de formas, guiada apenas pelo impulso interno e pela atenção ao material, sem intenção de que o resultado se pareça com algo reconhecível.

Esse mesmo trabalho cita o dramaturgo Friedrich Schiller para descrever a atitude necessária no traço-expressão:

A razão é uma testemunha incómoda durante o processo poético.

Uma teoria que choca de frente com a leitura de conteúdo num desenho

Digamo-lo com clareza: a posição de Stern é incompatível com qualquer sistema, incluindo os que se baseiam em investigação real, que interprete traços concretos de um desenho (um olho grande, uma casa sem janelas) como um sinal sobre a personalidade de quem o fez.

Para Stern, essa mesma pergunta (“o que representa isto?”) é a origem do problema, não uma ferramenta legítima de análise.

Esta tensão é mais uma razão para tratar a sua teoria, precisamente, como uma teoria: uma perspetiva completa e coerente sobre a expressão gráfica, sustentada por décadas de observação própria, mas de natureza diferente da de um sistema como o que revimos ao falar sobre o que revela o teu desenho segundo o método de Machover, submetido ali a décadas de estudos de validade.

Dito isto, há um ponto de contacto curioso: o nosso próprio teste de estilo expressivo não interpreta o que desenhas, mede apenas ritmo e uso do espaço, sem se pronunciar sobre o conteúdo. Não foi concebido a partir da obra de Stern, mas partilha, pelo menos nesse ponto concreto, a mesma cautela de fundo: não transformar um traço numa mensagem que outra pessoa tem de decifrar.

Fontes

  • Stern, A. (2018). Del dibujo infantil a la semiología de la expresión: Iniciación a otra mirada sobre el trazo. Samaruc.
  • Felipo Llopis, N. (2018). Desde otra perspectiva: Del dibujo infantil a la obra de arte (Trabalho Final de Licenciatura). Facultat de Belles Arts de Sant Carles, Universitat Politècnica de València.
  • García Sánchez, M. (2020). La forma emergente: Reflexiones acerca del dibujo expresivo como génesis del modelado cerámico (Trabalho Final de Mestrado). Facultat de Belles Arts, Universitat Politècnica de València.
  • Dados biográficos (datas, exílio, oficina de 1946, viagens de 1966-1972) confrontados com o site oficial de Arno Stern (arnostern.com) e com a entrada “Arno Stern” da Wikipédia em francês.

Perguntas frequentes

Quem foi Arno Stern?

Um educador nascido em Kassel (Alemanha) em 1924 e falecido em França em 2024, fundador do Instituto para a Investigação em Semiologia da Expressão. Dedicou mais de sessenta anos a observar como pintam crianças e adultos, sem intervir naquilo que criam.

O que é o Closlieu de Arno Stern?

O espaço-oficina que Stern concebeu em Paris para praticar o que chamou o Jogo de Pintar: um lugar sem intrusões nem distrações, com materiais fixos, capacidade máxima de catorze pessoas e um adulto que atua como 'assistente', não como professor, sem avaliar nem corrigir o que é produzido.

O que é a 'Formulação' segundo Arno Stern?

O nome que deu a um conjunto de figuras (redonda, quadrada, radial, espinha, entre outras) que, segundo as suas observações em diferentes culturas, surgem de forma espontânea no traço de crianças e adultos sem qualquer relação com instrução externa. Para Stern, este repertório não procura representar nada.

A teoria de Arno Stern tem o mesmo tipo de respaldo científico que outros métodos de análise de desenho?

Não da mesma forma. Os seus conceitos, como a 'memória orgânica' que segundo ele alimentaria a Formulação, provêm de décadas de observação própria e não foram submetidos ao tipo de estudos de validade e fiabilidade que existem, por exemplo, para o teste de Machover. Este artigo descreve a sua teoria tal como a expõem trabalhos académicos que a analisam, não como um facto científico estabelecido.