Personaramic
Estilo expressivo

O que revelam a tua casa, a tua árvore e a tua pessoa, segundo o método H-T-P de Buck (e o que diz a evidência real)

Pela redação do Personaramic6 min de leitura
Ilustração minimalista de uma casa e uma árvore simples, uma ao lado da outra

Três folhas em branco e uma instrução mínima: desenha uma casa, uma árvore e uma pessoa. Assim começa um dos testes de desenho mais usados em psicologia clínica desde 1948.

Quem o criou e porquê três desenhos

John N. Buck, psicólogo clínico norte-americano, desenvolveu o método a partir de 1946 e publicou-o em 1948. Partiu do Teste do Desenho de um Homem de Florence Goodenough, que já se usava para estimar a inteligência infantil, e fez uma pergunta diferente: se um desenho poderia revelar também traços de personalidade, e se para isso bastaria um só.

A sua resposta foram três objetos, cada um com uma função diferente:

  • A casa, que evocaria a vida doméstica e familiar.
  • A árvore, entendida como um autorretrato profundo e menos consciente.
  • A pessoa, um autorretrato mais direto, próximo de como te vês.

Como se aplica na prática clínica

O protocolo original não termina com o desenho. Depois de cada um vem um questionário estruturado, e para Buck essa parte não era um acrescento, era metade do teste.

Sobre a casa pergunta-se, por exemplo, de que é feita, se é a própria, se parece acolhedora ou que tempo faz no desenho. Sobre a árvore, que idade tem, se está viva e, se não estiver, o que lhe aconteceu. Sobre a pessoa, quem é, o que está a fazer e se é feliz.

Buck deixou um quadro geral. Isaac Jolles encheu-o de detalhe em 1964 com um catálogo que atribuía, item a item, um significado a cada parte de cada desenho. Alguns exemplos do seu sistema:

  • Porta muito pequena: reticência, inadequação, indecisão.
  • Porta ausente: inacessibilidade, isolamento.
  • Chaminé com fumo excessivo: tensão no lar.
  • Janelas ausentes: isolamento; janelas numerosas: exibicionismo.
  • Raízes omitidas: insegurança.
  • Braços colados ao corpo: passividade; braços omitidos: culpa ou sentimentos de inadequação.

A cada detalhe, um significado: é esse o estilo de Jolles, e é dele que vem a maioria das leituras simbólicas que circulam hoje sobre este teste.

Tabela-resumo: o que dizia este método e o que diz hoje a evidência

Elemento desenhadoO método diziaEvidência hoje
Porta muito pequenaReticência, inadequaçãoSem apoio específico
Porta ausenteInacessibilidade, isolamentoSem apoio específico
Chaminé sem fumoFalta de afeto no larSem apoio específico
Janelas numerosasExibicionismoSem estudos que o isolem
Raízes omitidasInsegurançaSem estudos que o isolem
Traço grossoTensão, ansiedade, vigorSem apoio específico
Traços faciais omitidosIsolamentoSem apoio específico
Braços estendidosNecessidade de realizaçãoSem apoio específico
Roupa muito detalhadaImaturidadeSem dados conclusivos

No caso das raízes há ainda uma explicação mais simples do que qualquer leitura simbólica: muita gente desenha a árvore assente numa linha de chão, e numa árvore real as raízes não se veem.

O que diz a evidência

A prova mais ampla é recente. Em 2022, Lin, Zhang, Qu, Li, Liu e Song publicaram na Acta Psychologica um trabalho em duas partes.

Primeiro reviram os indicadores de diagnóstico propostos em estudos anteriores do H-T-P e não encontraram uma relação fiável entre eles e os problemas de saúde mental estudados. Depois reuniram os desenhos e as pontuações de depressão de 4196 crianças e adolescentes chineses e treinaram redes neuronais com os desenhos completos, sem se limitarem a sinais soltos.

As redes aprenderam a reconhecer casas, árvores e pessoas, mas não conseguiram distinguir os desenhos de quem pontuava alto em depressão dos do resto. Os autores concluem que o resultado põe em dúvida a validade do H-T-P para diagnosticar problemas de saúde mental. O estudo centra-se na depressão e em crianças e adolescentes, por isso não fecha todas as perguntas, mas fecha a mais habitual.

Bate certo com a revisão de Motta, Little e Tobin (1993) sobre os desenhos de figura humana, que conclui que não avaliam de forma fiável a personalidade, o comportamento nem o estado emocional. E com a de Kahill (1984) sobre o teste da figura humana, que usa o mesmo tipo de sinais gráficos: de 30 índices revistos, apenas 2 tinham respaldo consistente. Como a pessoa do H-T-P se desenha com a mesma lógica, a crítica aplica-se-lhe diretamente.

O sombreado, um sinal que não pode falhar

O sombreado merece uma menção à parte. Handler e Reyher (1965), ao rever a investigação sobre sinais de ansiedade em desenhos, assinalaram que foi usado para explicar tanto a presença de ansiedade como os esforços para a controlar.

Com essa dupla leitura, sombrear indica ansiedade e não sombrear pode indicar que ela está a ser contida. Uma interpretação que encaixa em qualquer resultado não pode ser posta à prova, e por isso não funciona como sinal científico.

Como funciona o nosso teste

O nosso teste Casa-Árvore-Pessoa reúne 13 indicadores desta tradição, repartidos pelos três desenhos:

  • 5 medem-se diretamente sobre o teu traço: tamanho da casa, tamanho e colocação da pessoa, espessura do lápis e uso deliberado do sombreado.
  • 8 dependem de nos contares o que desenhaste: porta, chaminé, janelas, raízes, frutos, traços faciais, braços e roupa.

Cada indicador aparece junto ao que dizia o método (Buck ou Jolles) e ao que diz hoje a evidência, sem esconder nenhuma das duas. Um traço feito com o rato não reproduz a pressão de um lápis sobre o papel, por isso o que se regista são magnitudes como o tamanho ou a posição, não a destreza fina.

A pessoa do H-T-P desenha-se com a mesma lógica de uma figura humana clássica. Para aprofundar apenas esse desenho, o método de Machover é a referência original.

Fontes

  • Buck, J. N. (1948). The H-T-P technique, a qualitative and quantitative scoring manual. Journal of Clinical Psychology, 4, 317-396.
  • Jolles, I. (1964). A Catalogue for the Qualitative Interpretation of the House-Tree-Person (H-T-P). Western Psychological Services.
  • Lin, Y., Zhang, N., Qu, Y., Li, T., Liu, J., e Song, Y. (2022). The House-Tree-Person test is not valid for the prediction of mental health: An empirical study using deep neural networks. Acta Psychologica, 230, 103734. https://doi.org/10.1016/j.actpsy.2022.103734
  • Motta, R. W., Little, S. G., e Tobin, M. I. (1993). The use and abuse of human figure drawings. School Psychology Quarterly, 8(3), 162-169.
  • Kahill, S. (1984). Human figure drawing in adults: An update of the empirical evidence, 1967-1982. Canadian Psychology, 25(4), 269-292. https://doi.org/10.1037/h0080846
  • Handler, L., e Reyher, J. (1965). Figure drawing anxiety indexes: A review of the literature. Journal of Projective Techniques and Personality Assessment, 29(3), 305-313.

Perguntas frequentes

Quem foi John Buck?

Um psicólogo clínico norte-americano que desenvolveu o teste H-T-P (Casa-Árvore-Pessoa) a partir de 1946 e o publicou formalmente em 1948, inspirado no Teste do Desenho de um Homem de Florence Goodenough.

Porquê três desenhos e não apenas um?

Buck considerava que a casa, a árvore e a pessoa funcionariam como três ecrãs de projeção distintos: a casa para a vida doméstica, a árvore para um autorretrato mais profundo e inconsciente, e a pessoa para um autorretrato mais consciente e direto.

Quantos dos seus indicadores têm apoio científico real?

Nenhum dos 13 que o nosso teste mede tem hoje respaldo empírico consistente e isolado. Um estudo de 2022 com 4196 crianças e adolescentes reviu a literatura anterior sem encontrar indicadores fiáveis e verificou que redes neuronais treinadas com os desenhos completos não conseguiam distinguir quem pontuava alto em depressão.

Quem foi Isaac Jolles?

O autor de um catálogo de interpretação do H-T-P publicado em 1964, muito mais detalhado do que o manual original de Buck. A maioria das leituras simbólicas concretas que circulam hoje sobre este teste (porta, chaminé, janelas, raízes...) provêm do seu catálogo, não do texto original de Buck.