O que revelam a tua casa, a tua árvore e a tua pessoa, segundo o método H-T-P de Buck (e o que diz a evidência real)
Três folhas em branco e uma instrução mínima: desenha uma casa, uma árvore e uma pessoa. Assim começa um dos testes de desenho mais usados em psicologia clínica desde 1948.
Quem o criou e porquê três desenhos
John N. Buck, psicólogo clínico norte-americano, desenvolveu o método a partir de 1946 e publicou-o em 1948. Partiu do Teste do Desenho de um Homem de Florence Goodenough, que já se usava para estimar a inteligência infantil, e fez uma pergunta diferente: se um desenho poderia revelar também traços de personalidade, e se para isso bastaria um só.
A sua resposta foram três objetos, cada um com uma função diferente:
- A casa, que evocaria a vida doméstica e familiar.
- A árvore, entendida como um autorretrato profundo e menos consciente.
- A pessoa, um autorretrato mais direto, próximo de como te vês.
Como se aplica na prática clínica
O protocolo original não termina com o desenho. Depois de cada um vem um questionário estruturado, e para Buck essa parte não era um acrescento, era metade do teste.
Sobre a casa pergunta-se, por exemplo, de que é feita, se é a própria, se parece acolhedora ou que tempo faz no desenho. Sobre a árvore, que idade tem, se está viva e, se não estiver, o que lhe aconteceu. Sobre a pessoa, quem é, o que está a fazer e se é feliz.
O catálogo que o tornou popular: Jolles
Buck deixou um quadro geral. Isaac Jolles encheu-o de detalhe em 1964 com um catálogo que atribuía, item a item, um significado a cada parte de cada desenho. Alguns exemplos do seu sistema:
- Porta muito pequena: reticência, inadequação, indecisão.
- Porta ausente: inacessibilidade, isolamento.
- Chaminé com fumo excessivo: tensão no lar.
- Janelas ausentes: isolamento; janelas numerosas: exibicionismo.
- Raízes omitidas: insegurança.
- Braços colados ao corpo: passividade; braços omitidos: culpa ou sentimentos de inadequação.
A cada detalhe, um significado: é esse o estilo de Jolles, e é dele que vem a maioria das leituras simbólicas que circulam hoje sobre este teste.
Tabela-resumo: o que dizia este método e o que diz hoje a evidência
| Elemento desenhado | O método dizia | Evidência hoje |
|---|---|---|
| Porta muito pequena | Reticência, inadequação | Sem apoio específico |
| Porta ausente | Inacessibilidade, isolamento | Sem apoio específico |
| Chaminé sem fumo | Falta de afeto no lar | Sem apoio específico |
| Janelas numerosas | Exibicionismo | Sem estudos que o isolem |
| Raízes omitidas | Insegurança | Sem estudos que o isolem |
| Traço grosso | Tensão, ansiedade, vigor | Sem apoio específico |
| Traços faciais omitidos | Isolamento | Sem apoio específico |
| Braços estendidos | Necessidade de realização | Sem apoio específico |
| Roupa muito detalhada | Imaturidade | Sem dados conclusivos |
No caso das raízes há ainda uma explicação mais simples do que qualquer leitura simbólica: muita gente desenha a árvore assente numa linha de chão, e numa árvore real as raízes não se veem.
O que diz a evidência
A prova mais ampla é recente. Em 2022, Lin, Zhang, Qu, Li, Liu e Song publicaram na Acta Psychologica um trabalho em duas partes.
Primeiro reviram os indicadores de diagnóstico propostos em estudos anteriores do H-T-P e não encontraram uma relação fiável entre eles e os problemas de saúde mental estudados. Depois reuniram os desenhos e as pontuações de depressão de 4196 crianças e adolescentes chineses e treinaram redes neuronais com os desenhos completos, sem se limitarem a sinais soltos.
As redes aprenderam a reconhecer casas, árvores e pessoas, mas não conseguiram distinguir os desenhos de quem pontuava alto em depressão dos do resto. Os autores concluem que o resultado põe em dúvida a validade do H-T-P para diagnosticar problemas de saúde mental. O estudo centra-se na depressão e em crianças e adolescentes, por isso não fecha todas as perguntas, mas fecha a mais habitual.
Bate certo com a revisão de Motta, Little e Tobin (1993) sobre os desenhos de figura humana, que conclui que não avaliam de forma fiável a personalidade, o comportamento nem o estado emocional. E com a de Kahill (1984) sobre o teste da figura humana, que usa o mesmo tipo de sinais gráficos: de 30 índices revistos, apenas 2 tinham respaldo consistente. Como a pessoa do H-T-P se desenha com a mesma lógica, a crítica aplica-se-lhe diretamente.
O sombreado, um sinal que não pode falhar
O sombreado merece uma menção à parte. Handler e Reyher (1965), ao rever a investigação sobre sinais de ansiedade em desenhos, assinalaram que foi usado para explicar tanto a presença de ansiedade como os esforços para a controlar.
Com essa dupla leitura, sombrear indica ansiedade e não sombrear pode indicar que ela está a ser contida. Uma interpretação que encaixa em qualquer resultado não pode ser posta à prova, e por isso não funciona como sinal científico.
Como funciona o nosso teste
O nosso teste Casa-Árvore-Pessoa reúne 13 indicadores desta tradição, repartidos pelos três desenhos:
- 5 medem-se diretamente sobre o teu traço: tamanho da casa, tamanho e colocação da pessoa, espessura do lápis e uso deliberado do sombreado.
- 8 dependem de nos contares o que desenhaste: porta, chaminé, janelas, raízes, frutos, traços faciais, braços e roupa.
Cada indicador aparece junto ao que dizia o método (Buck ou Jolles) e ao que diz hoje a evidência, sem esconder nenhuma das duas. Um traço feito com o rato não reproduz a pressão de um lápis sobre o papel, por isso o que se regista são magnitudes como o tamanho ou a posição, não a destreza fina.
A pessoa do H-T-P desenha-se com a mesma lógica de uma figura humana clássica. Para aprofundar apenas esse desenho, o método de Machover é a referência original.
Fontes
- Buck, J. N. (1948). The H-T-P technique, a qualitative and quantitative scoring manual. Journal of Clinical Psychology, 4, 317-396.
- Jolles, I. (1964). A Catalogue for the Qualitative Interpretation of the House-Tree-Person (H-T-P). Western Psychological Services.
- Lin, Y., Zhang, N., Qu, Y., Li, T., Liu, J., e Song, Y. (2022). The House-Tree-Person test is not valid for the prediction of mental health: An empirical study using deep neural networks. Acta Psychologica, 230, 103734. https://doi.org/10.1016/j.actpsy.2022.103734
- Motta, R. W., Little, S. G., e Tobin, M. I. (1993). The use and abuse of human figure drawings. School Psychology Quarterly, 8(3), 162-169.
- Kahill, S. (1984). Human figure drawing in adults: An update of the empirical evidence, 1967-1982. Canadian Psychology, 25(4), 269-292. https://doi.org/10.1037/h0080846
- Handler, L., e Reyher, J. (1965). Figure drawing anxiety indexes: A review of the literature. Journal of Projective Techniques and Personality Assessment, 29(3), 305-313.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Quem foi John Buck?
Um psicólogo clínico norte-americano que desenvolveu o teste H-T-P (Casa-Árvore-Pessoa) a partir de 1946 e o publicou formalmente em 1948, inspirado no Teste do Desenho de um Homem de Florence Goodenough.
Porquê três desenhos e não apenas um?
Buck considerava que a casa, a árvore e a pessoa funcionariam como três ecrãs de projeção distintos: a casa para a vida doméstica, a árvore para um autorretrato mais profundo e inconsciente, e a pessoa para um autorretrato mais consciente e direto.
Quantos dos seus indicadores têm apoio científico real?
Nenhum dos 13 que o nosso teste mede tem hoje respaldo empírico consistente e isolado. Um estudo de 2022 com 4196 crianças e adolescentes reviu a literatura anterior sem encontrar indicadores fiáveis e verificou que redes neuronais treinadas com os desenhos completos não conseguiam distinguir quem pontuava alto em depressão.
Quem foi Isaac Jolles?
O autor de um catálogo de interpretação do H-T-P publicado em 1964, muito mais detalhado do que o manual original de Buck. A maioria das leituras simbólicas concretas que circulam hoje sobre este teste (porta, chaminé, janelas, raízes...) provêm do seu catálogo, não do texto original de Buck.