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Estilo expressivo

O que revelam a tua casa, a tua árvore e a tua pessoa, segundo o método H-T-P de Buck (e o que diz a evidência real)

Por Elena Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista de uma casa e uma árvore simples, uma ao lado da outra

Três folhas em branco.

Uma casa. Uma árvore. Uma pessoa.

Nada mais.

Assim começa um dos testes de desenho mais usados em psicologia clínica desde 1948.

Quem o criou e porquê três desenhos

John N. Buck, psicólogo clínico norte-americano.

Desenvolveu o método a partir de 1946. Publicou-o em 1948.

O seu ponto de partida: o Teste do Desenho de um Homem, de Florence Goodenough, já usado para medir inteligência infantil.

Buck perguntou-se algo diferente: e se, além de inteligência, um desenho revelasse personalidade?

E foi mais longe: e se um único desenho não bastasse?

A sua resposta foram três objetos, cada um com uma função diferente:

  • A casa → evocaria a vida doméstica e familiar.
  • A árvore → um autorretrato profundo, menos consciente.
  • A pessoa → um autorretrato direto, mais próximo de como te vês.

Como se aplica na realidade

O protocolo real não é apenas “desenha”.

Depois de cada desenho vem um questionário estruturado.

Perguntas típicas sobre a casa:

  • De que é feita?
  • É tua?
  • Parece-te acolhedora?
  • Que tempo faz no desenho?

Perguntas típicas sobre a árvore:

  • Que idade tem?
  • Está viva?
  • O que lhe aconteceu se não estiver?

Perguntas típicas sobre a pessoa:

  • É um rapaz ou uma rapariga?
  • O que está a fazer?
  • É feliz?

Para Buck, o questionário não era um extra. Era metade do teste.

Buck deixou um quadro geral.

Isaac Jolles encheu-o de detalhe em 1964.

O seu livro: um catálogo, item a item, do que significaria cada parte de cada desenho.

Alguns exemplos reais do seu sistema:

  • Porta muito pequena → reticência, inadequação, indecisão.
  • Porta ausente → inacessibilidade, isolamento.
  • Chaminé com fumo excessivo → tensão extrema no lar.
  • Janelas ausentes → isolamento.
  • Janelas numerosas → exibicionismo.
  • Raízes omitidas → insegurança.
  • Braços colados ao corpo → passividade.
  • Braços omitidos → culpa, sentimentos de inadequação.

Cada detalhe, um significado. É esse o estilo de Jolles.

Tabela-resumo: o que dizia este método vs. o que diz hoje a evidência

Elemento desenhadoO método diziaEvidência hoje
Casa muito pequenaAnsiedade de castração (Burns, 1982)Sem apoio específico
Porta ausenteInacessibilidade, isolamentoSem apoio específico
Chaminé sem fumoFalta de afeto no larSem apoio específico
Janelas numerosasExibicionismoSem estudos que o isolem
Raízes omitidasInsegurançaExplicação técnica mais simples possível
Traço grossoTensão, ansiedade, vigorSem apoio específico
Traços faciais omitidosIsolamentoSem apoio específico
Braços estendidosNecessidade de realizaçãoSem apoio específico
Roupa muito detalhadaImaturidadeSem dados conclusivos

O que diz a evidência real

A prova mais contundente é recente. E é grande.

2022. Quase 4.200 crianças e adolescentes chineses.

Investigadores treinaram redes neuronais para analisar automaticamente milhares de desenhos H-T-P.

As redes aprenderam mesmo a distinguir uma casa de uma árvore e de uma pessoa. Isso funcionou.

O que não funcionou: prever depressão a partir desses desenhos.

A conclusão dos próprios autores, resumida: nenhum dos indicadores estudados do H-T-P se relacionou de forma fiável com a saúde mental.

Não é uma crítica isolada de uma única linha de investigação.

Motta, Little e Tobin (1993), revendo em conjunto os desenhos de figura humana como ferramenta de avaliação, chegaram a uma conclusão parecida: não avaliam de forma fiável a personalidade, o comportamento nem o estado emocional.

E sobre os sinais gráficos concretos (espessura, sombreado, colocação na página), o problema é ainda mais de fundo.

A revisão de Kahill (1984) sobre o teste da figura humana, que usa o mesmo tipo de sinais, encontrou que 28 de 30 índices citados não tinham respaldo consistente.

Como a pessoa do H-T-P se desenha com a mesma lógica de uma figura humana clássica, essa mesma crítica transfere-se diretamente.

Porque é que o sombreado é um caso especial

O sombreado merece uma menção à parte.

Handler e Reyher (1965) assinalaram algo revelador sobre este sinal em concreto:

  • Foi usado para explicar a presença de ansiedade.
  • E também foi usado para explicar os esforços por a controlar.

Ou seja: sombrear “demonstra” ansiedade. Não sombrear também, às vezes, “demonstra” controlo da ansiedade.

Um sinal que explica qualquer resultado possível não é um sinal científico.

É uma história que se adapta ao que for preciso.

Como funciona o nosso teste

Medimos 13 indicadores desta tradição, repartidos pelos três desenhos:

  • 5 medem-se diretamente sobre o teu próprio traço: tamanho da casa, tamanho e colocação da pessoa, espessura do lápis, uso deliberado do sombreado.
  • 8 dependem de nos contares o que desenhaste: porta, chaminé, janelas, raízes, frutos, traços faciais, braços, roupa.

Cada indicador aparece junto a duas coisas: o que dizia o método (Buck ou Jolles) e o que diz hoje a evidência, sem ocultar nenhuma das duas.

Um aviso, como no resto deste site: um traço feito com rato nunca reproduz a pressão real de um lápis sobre papel. Mede magnitudes, não destreza motora fina.

Se quiseres ver estes 13 indicadores aplicados aos teus próprios desenhos, podes fazer o teste Casa-Árvore-Pessoa.

A pessoa do H-T-P desenha-se com a mesma lógica de uma figura humana clássica: se quiseres aprofundar só esse desenho, o método de Machover é a referência original.

Fontes

  • Buck, J. N. (1948). The H-T-P technique, a qualitative and quantitative scoring manual. Journal of Clinical Psychology, 4, 317-396.
  • Jolles, I. (1964). A Catalogue for the Qualitative Interpretation of the House-Tree-Person (H-T-P). Western Psychological Services.
  • Lin, Y., Zhang, N., Qu, Y., Li, T., Liu, J., e Song, Y. (2022). The House-Tree-Person test is not valid for the prediction of mental health: An empirical study using deep neural networks. Acta Psychologica, 230, 103734.
  • Motta, R. W., Little, S. G., e Tobin, M. I. (1993). The use and abuse of human figure drawings. School Psychology Quarterly, 8(3), 162-169.
  • Kahill, S. (1984). Human figure drawing in adults: An update of the empirical evidence, 1967-1982. Canadian Psychology, 25, 269-292.
  • Handler, L., e Reyher, J. (1965). Figure drawing anxiety indexes: A review of the literature. Journal of Projective Techniques and Personality Assessment, 29(3), 305-313.

Perguntas frequentes

Quem foi John Buck?

Um psicólogo clínico norte-americano que desenvolveu o teste H-T-P (Casa-Árvore-Pessoa) a partir de 1946 e o publicou formalmente em 1948, inspirado no Teste do Desenho de um Homem de Florence Goodenough.

Porquê três desenhos e não apenas um?

Buck considerava que a casa, a árvore e a pessoa funcionariam como três ecrãs de projeção distintos: a casa para a vida doméstica, a árvore para um autorretrato mais profundo e inconsciente, e a pessoa para um autorretrato mais consciente e direto.

Quantos dos seus indicadores têm apoio científico real?

Nenhum dos 13 que o nosso teste mede tem hoje respaldo empírico consistente e isolado. Um estudo de 2022 com quase 4.200 participantes, usando redes neuronais, não encontrou que os indicadores do H-T-P previssem de forma fiável a saúde mental de quem desenha.

Quem foi Isaac Jolles?

O autor de um catálogo de interpretação do H-T-P publicado em 1964, muito mais detalhado do que o manual original de Buck. A maioria das leituras simbólicas concretas que circulam hoje sobre este teste (porta, chaminé, janelas, raízes...) provêm do seu catálogo, não do texto original de Buck.