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Cronotipo

O que é o cronotipo e o que diz sobre a tua personalidade

Por Elena Personaramic8 min de leitura
Ilustração minimalista de um relógio circular com dois ponteiros de cores distintas

Há pessoas que abrem os olhos antes de qualquer despertador tocar e já estão a pensar com clareza às sete da manhã. Há outras que, a essa mesma hora, ainda não são bem elas próprias. A diferença entre umas e outras tem um nome em psicologia: cronotipo, e a investigação descobriu que vai bastante além de uma simples preferência de horário.

O relógio que trazes dentro, mesmo sem o veres

Dentro do cérebro, numa zona chamada núcleo supraquiasmático, existe um grupo de neurónios que funciona como um relógio biológico. Este relógio não marca as horas exatas do relógio de parede, mas gera um ciclo de aproximadamente 24 horas (daí o termo circadiano, que vem do latim circa diem, “à volta de um dia”) que regula quando o teu corpo liberta certas hormonas, quando sobe ou desce a tua temperatura corporal e quando te sentes com mais ou menos alerta mental.

Esse relógio interno não funciona exatamente da mesma forma em todas as pessoas. Nalgumas vai ligeiramente adiantado em relação ao dia solar; noutras, ligeiramente atrasado. Essa diferença, mantida ao longo do tempo, é aquilo a que os investigadores chamam cronotipo.

Um espectro, não duas gavetas

É fácil pensar no cronotipo como uma escolha binária: ou és “de manhãs” ou és “de noites”. A investigação descreve algo mais matizado: um espectro contínuo com três zonas de referência.

  • Matutino: o relógio interno vai adiantado. Acordar é fácil, a mente fica desperta cedo e o cansaço chega cedo à noite.
  • Vespertino: o relógio interno vai atrasado. Arrancar de manhã custa, e o melhor rendimento chega ao final da tarde ou já de noite.
  • Intermédio: não há uma preferência marcada por nenhum dos dois extremos. É, de longe, o grupo mais numeroso: nos estudos populacionais costuma andar à volta dos 60% das pessoas.

O questionário que abriu o campo, em 1976

O interesse científico sério por medir estas diferenças arrancou na década de 1970. Em 1976, o psicólogo britânico James Horne e o fisiólogo sueco Olov Östberg publicaram um questionário de autoavaliação concebido para classificar uma pessoa em cinco categorias, de “claramente matutino” a “claramente vespertino”. Esse trabalho tornou-se, com os anos, o instrumento mais citado de todo o campo da cronopsicologia, a disciplina que estuda como variam os nossos processos psicológicos ao longo do dia. Horne e Östberg encontraram também um respaldo fisiológico para as suas categorias: as pessoas de cada grupo mostravam temperaturas corporais matinais significativamente distintas entre si.

Esse questionário não ficou sem revisão. Christopher Smith, Colleen Reilly e Karen Midkiff assinalaram em 1989 que a correlação entre alguns dos seus itens era bastante fraca, o que apontava para a possibilidade de a escala estar, na realidade, a medir dois fatores relacionados, e propuseram uma versão revista. Anos mais tarde, o investigador austríaco Aljoscha Neubauer encontrou que os pontos de corte originais identificavam menos matutinos do que seria de esperar ao aplicarem-se a estudantes austríacos, e concluiu que estes questionários provavelmente precisam de ser ajustados consoante a população a que se aplicam.

Uma abordagem diferente chegou pela mão do investigador alemão Till Roenneberg, com o seu Questionário de Munique: em vez de perguntar por preferências subjetivas, pede diretamente a que horas adormeces e acordas nos dias úteis e nos dias de descanso, e calcula o ponto médio do sono nos dias de descanso. Esse dado relaciona-se de forma consistente com a classificação clássica de Horne e Östberg, embora cada instrumento capte um matiz ligeiramente distinto: o questionário de preferências está mais influenciado por fatores sociais, enquanto o de Roenneberg reflete de forma mais direta o relógio biológico.

Porque não é uma questão de disciplina

O mal-entendido mais comum sobre o cronotipo é tratá-lo como se fosse um traço de carácter: “os matutinos são disciplinados, os vespertinos são uns preguiçosos que não se sabem organizar”. A evidência aponta noutra direção. O cronotipo tem uma componente genética real e, além disso, muda de forma bastante previsível ao longo da vida: a adolescência empurra o relógio biológico para a vespertinidade, e a partir da meia-idade boa parte da população começa a deslocar-se de novo para a matutinidade.

O que diz sobre a tua personalidade, segundo a investigação

Para além da biologia do sono, um estudo espanhol foi mais longe e perguntou algo distinto: será que matutinos e vespertinos têm personalidades diferentes, para além do tópico? Juan Francisco Díaz Morales e Marta Aparicio García, da Universidade Complutense de Madrid, aplicaram a 189 pessoas uma escala de cronotipo e o Inventário Millon de Estilos de Personalidade, um modelo que avalia aspetos motivacionais, cognitivos e de comportamento interpessoal, distinto (embora aparentado) do mais conhecido modelo dos cinco grandes traços de personalidade.

A descoberta mais consistente não teve a ver com a sociabilidade, como habitualmente se assume, mas sim com o estilo cognitivo: a forma como cada pessoa processa a informação do seu ambiente.

  • As pessoas matutinas mostraram uma preferência significativa pela informação concreta e pela experiência direta (aquilo a que o modelo de Millon chama sensação), e uma tendência para assimilar essa informação apoiando-se em esquemas de conhecimento já existentes, um estilo mais sistemático e organizado.
  • As pessoas vespertinas mostraram a tendência contrária: preferência pela informação simbólica e ambígua (intuição), e uma inclinação maior para a inovação, ou seja, acomodar a informação a esquemas novos e originais em vez de aos já conhecidos.

Chega aqui o dado que provavelmente mais surpreenderá quem dá por garantido o estereótipo do notívago extrovertido e sociável: o estudo não encontrou uma relação significativa entre a vespertinidade e a extroversão, tal como esta é medida pelo modelo clássico de Hans Eysenck. Investigações anteriores tinham sugerido essa ligação, mas com resultados contraditórios entre si, e este trabalho também não a confirmou de forma clara. O que encontrou foi uma diferença no terreno das normas sociais: as pessoas matutinas pontuaram mais alto em conformismo, com maior tendência para respeitar os costumes e as convenções estabelecidas, enquanto as vespertinas se mostraram um pouco menos conformistas com essas mesmas normas.

O grupo de que quase ninguém fala

Boa parte da investigação sobre cronotipo centra-se em comparar os dois extremos e deixa em segundo plano o grupo intermédio, apesar de ser, como já se viu, o mais numeroso dos três. Na amostra do estudo de Díaz Morales e Aparicio García, as pessoas de cronotipo intermédio mostraram, por exemplo, maior indecisão nas suas relações sociais do que as matutinas, um matiz que se perde por completo se só se comparam os dois polos. Investigadoras como Ana Adan, especializada em cronopsicologia, insistem precisamente em tratar o cronotipo intermédio como uma categoria com identidade própria, e não como um simples ponto médio.

O horário laboral também molda o cronotipo

A relação entre horário de vida e cronotipo provavelmente funciona nas duas direções. Um estudo realizado por Neus Fernández e a sua equipa no Hospital de Jove em Gijón, com 96 trabalhadores, encontrou que quem tinha um horário sem turnos noturnos apresentava pontuações significativamente mais matutinas do que quem trabalhava à noite, e que estar há mais de dez anos na mesma empresa também se associava a uma maior tendência para a matutinidade. O teu relógio biológico influencia que horário te é mais cómodo, mas manter um determinado horário durante anos também parece deixar a sua própria marca em como esse relógio se expressa com o passar do tempo.

A conclusão que se pode tirar de tudo isto

Nem o estereótipo do madrugador rígido nem o do notívago desorganizado resistem bem ao confronto com os dados. O que a investigação descreve é algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais interessante: dois estilos cognitivos distintos, nenhum superior ao outro, cada um com as suas próprias vantagens consoante o tipo de tarefa, e um terceiro grupo, o intermédio, que raramente aparece na conversa apesar de ser, com frequência, o mais numeroso dos três. E, no fundo, um relógio biológico real que não escolheste tu e que raramente coincide de todo com o horário que o mundo à tua volta exige.

Fontes

  • Horne, J. A. e Östberg, O. (1976). A self-assessment questionnaire to determine morningness-eveningness in human circadian rhythms. International Journal of Chronobiology, 4, 97-110.
  • Smith, C. S., Reilly, C. e Midkiff, K. (1989). Evaluation of three circadian rhythm questionnaires with suggestions for an improved measure of morningness. Journal of Applied Psychology, 74(5), 728-738.
  • Neubauer, A. C. (1992). Psychometric comparison of two circadian rhythm questionnaires and their relationship with personality. Personality and Individual Differences, 13(2), 125-131.
  • Roenneberg, T., Wirz-Justice, A. e Merrow, M. (2003). Life between clocks: daily temporal patterns of human chronotypes. Journal of Biological Rhythms, 18(1), 80-90.
  • Díaz Morales, J. F. e Aparicio García, M. (2003). Relaciones entre matutinidad-vespertinidad y estilos de personalidad. Anales de Psicología, 19(2), 247-256.
  • Fernández, N., Hinojal, R., Díaz, J., Sáiz, P. A., González, M. P. e Bobes, J. (2003). Valoración de tipología circadiana en trabajadores de un hospital general. Archivos de Prevención de Riesgos Laborales, 6(1), 77-83.

Perguntas frequentes

O que é exatamente o cronotipo?

É a tendência biológica de uma pessoa para se sentir mais desperta e render melhor a certas horas do dia do que a outras, regulada pelo relógio circadiano interno.

O cronotipo é o mesmo que ter bons ou maus hábitos de sono?

Não. Os hábitos de sono são comportamentos que se podem mudar com relativa facilidade. O cronotipo é uma tendência fisiológica de fundo, com uma componente genética, sobre a qual os hábitos atuam mas que não criam do nada.

Posso mudar o meu cronotipo se me propuser a isso?

Pode deslocar-se de forma moderada ajustando a exposição à luz e os horários, mas não se inverte por completo só com força de vontade. Muda também de forma bastante previsível com a idade.

O cronotipo prevê o tipo de personalidade de alguém?

Não de forma determinista. Os estudos encontram associações estatísticas moderadas entre cronotipo e certos estilos cognitivos, não uma relação de causa-efeito que permita adivinhar a personalidade completa de alguém só pelo seu horário de sono.

É verdade que as pessoas vespertinas são mais criativas?

Um estudo espanhol encontrou uma associação entre vespertinidade e um estilo cognitivo mais orientado para a inovação, mas trata-se de uma tendência estatística num grupo de pessoas, não uma regra aplicável a cada indivíduo vespertino.

Existe um questionário oficial para medir o cronotipo?

O mais citado na investigação académica é o questionário publicado por Horne e Östberg em 1976, um instrumento clínico protegido por direitos de autor. Este artigo explica a ciência por trás dele sem o reproduzir.