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Relações e vida social

O poder psicológico do mistério: a lição incompleta de Mata Hari

Por Rafa Personaramic6 min de leitura
Ilustração orgânica de uma silhueta envolta em camadas de manchas semitransparentes que se esbatem em direção às margens

Quando Margaretha Zelle chegou a Paris em 1904, tinha meio franco no bolso e nenhuma experiência como bailarina. Um ano depois, meia Europa acreditava que era uma sacerdotisa nascida na ilha de Java. Doze anos mais tarde, um pelotão de fuzilamento francês executou-a como espiã alemã.

Robert Greene conta a sua história em As 48 Leis do Poder (1998) como exemplo daquilo a que chama a lei de cultivar um ar de mistério. O que o capítulo não dedica sequer uma linha a contar é como termina, de facto, essa mesma história.

Uma identidade que mudava sempre que a contava

Zelle não tinha nenhum talento excecional para a dança. O que tinha era uma intuição muito precisa sobre aquilo em que o público de Paris queria acreditar.

Fez-se chamar Mata Hari, “olho da alvorada” em malaio, e começou a contar que tinha nascido em Java, que a sua avó era uma princesa javanesa, que em criança tinha aprendido danças sagradas hindus na Índia. Os jornalistas nunca conseguiam confirmar nada, porque a história mudava a cada entrevista:

  • Umas vezes dizia ter crescido em Sumatra, “montando a cavalo, com uma arma na mão”.
  • Outras vezes situava a sua infância na Índia, entre templos.
  • Insistia que as mulheres indianas, ao contrário das europeias, “sabem disparar, montar a cavalo e falar de filosofia”.

Nada disso era verdade. Mas quando alguém poderia tê-lo desmentido, já não importava: a própria inconsistência tinha-se tornado parte do espetáculo.

Por que a mentira não lhe tirava fama, dava-lha

Mata Hari estreou-se em público em agosto de 1905. Nessa noite formaram-se tumultos entre quem tentava entrar para a ver.

Não era especialmente bonita para os padrões da época, nem especialmente boa bailarina. O que a distinguia dos milhares de jovens que chegavam a Paris todos os anos à procura da mesma coisa era, segundo explica Greene, algo mais difícil de imitar: uma atmosfera. Nunca se podia dizer nada com certeza sobre ela. Estava sempre a mudar, sempre a surpreender com um figurino, uma história ou uma origem diferente.

Essa incerteza constante gerava um efeito muito concreto: as pessoas nunca se cansavam de tentar decifrá-la. Quanto mais impossível se tornava fixá-la numa única versão, mais atenção reclamava.

Rapidamente foi convidada para Berlim, Viena, Milão. Ganhou dinheiro e independência como poucas mulheres da sua época, sem precisar de depender de nenhum homem.

Um mundo já explicado tem fome de enigmas

Greene situa este caso dentro de uma ideia mais ampla. Durante séculos, sustenta, a humanidade viveu rodeada pelo desconhecido: doenças sem causa aparente, desastres atribuídos aos deuses, a morte como o mistério final. A ciência foi iluminando essa escuridão, até tornar o mundo um lugar muito mais explicado e, por isso mesmo, mais previsível.

A sua ideia é que essa mesma clareza gerou uma carência nova: um mundo demasiado explicado deixa pouco espaço para o espanto, e as pessoas acabam por sentir falta daquilo que não pode ser resolvido num relance. Quem consegue envolver-se em algo não totalmente decifrável, sugere Greene, ocupa esse vazio.

Não é preciso ser uma figura grandiosa para o conseguir. Basta guardar silêncio no momento em que outros falariam, deixar uma frase por terminar de explicar, ou comportar-se de um modo que não encaixa totalmente no esperado. Mata Hari levou essa ideia à sua versão mais extrema: transformou a sua biografia inteira em matéria moldável.

Um conde que aplicava o mesmo princípio com telegramas falsos

No mesmo capítulo, Greene acrescenta um segundo exemplo, bem menor, para reforçar a ideia: o vigarista Victor Lustig, que se hospedava nos melhores hotéis com um motorista japonês (algo que ninguém tinha visto antes nesses círculos) e recebia telegramas a todas as horas diante de outros hóspedes, para depois os rasgar com total indiferença.

Eram telegramas em branco. O próprio Lustig os fabricava só para que o hotel inteiro falasse do homem estranho e inapreensível do quarto principal.

A lógica é a mesma da de Mata Hari, reduzida à sua forma mais simples: o previsível não gera curiosidade, e aquilo que não se consegue interpretar num relance obriga os outros a continuar a olhar.

O que o livro celebra sem contar como terminou

Aqui convém parar, porque Greene fecha o capítulo com a fama e a independência de Mata Hari como se essa fosse toda a história.

Não é. Em fevereiro de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, a França prendeu-a acusada de espiar para a Alemanha. O julgamento decorreu em segredo e os documentos foram selados durante cem anos. As provas contra ela eram, em grande parte, circunstanciais: cartas, suspeitas, o facto de ter tido amantes de vários países em guerra entre si.

Acusaram-na de ter fornecido à Alemanha detalhes sobre o tanque, a nova arma dos aliados, e de ter assim contribuído para a morte de milhares de soldados. Os serviços de informação alemães, contudo, já a consideravam nessa altura uma agente de escasso valor, que mal tinha produzido informação útil.

Grande parte dos historiadores que reviram o caso concordam hoje num ponto incómodo: é provável que a França precisasse de uma espiã célebre a quem culpar pelas enormes perdas na frente ocidental, e que Mata Hari, já transformada num mito público graças à sua própria lenda, fosse um alvo perfeito para isso. A sua fama, a mesma que Greene celebra como uma conquista de poder, é o que a tornou visível perante um tribunal que precisava de um nome sonante.

A 15 de outubro de 1917 levaram-na para o bosque de Vincennes. Recusou a venda. Morreu fuzilada, aos 41 anos.

Só então, durante o julgamento, veio a público aquilo que já foi contado aqui: não tinha nascido em Java, não tinha uma gota de sangue asiático, e a sua verdadeira história era a de uma mulher nascida na Frísia, no norte dos Países Baixos, sem nada de sagrado nem de misterioso na sua origem real.

Um livro que escolhe onde termina cada história

Nenhum destes factos aparece em As 48 Leis do Poder. O capítulo termina com Mata Hari no auge da sua fama, como prova de que o mistério gera poder, e passa diretamente a outro exemplo.

É um padrão que vale a pena notar num livro construído inteiramente a partir de anedotas históricas: escolhe o fragmento de cada vida que melhor ilustra a lei, e corta a história mesmo antes de deixar de convir ao argumento. O mecanismo psicológico que descreve, o de que o imprevisível atrai mais atenção sustentada do que o transparente, é real e observável. O que não é verdade é que esse mecanismo termine sempre bem para quem o pratica.

A história completa de Mata Hari não desmente o mecanismo que Greene descreve. Complica-o. O mesmo mistério que a tornou irresistível num palco parisiense, doze anos depois, tornou-a indefensável numa sala de tribunal militar. Nenhuma versão da sua lenda, nem sequer a real, lhe serviu para se explicar perante quem já tinha decidido o que precisava que ela fosse.

Fontes

  • Greene, R. (2000). As 48 Leis do Poder. Editora Rocco.
  • Britannica. Mata Hari: Dutch dancer and spy.

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Perguntas frequentes

Quem foi realmente Mata Hari?

Chamava-se Margaretha Zelle, tinha nascido na Frísia, no norte dos Países Baixos, e não tinha nenhuma origem oriental. Construiu a personagem de Mata Hari, bailarina sagrada nascida em Java, do zero, ao chegar a Paris.

Mata Hari foi mesmo uma espiã?

É algo que os historiadores ainda discutem hoje. Foi julgada e executada em França em 1917, acusada de espiar para a Alemanha, mas o julgamento foi secreto, as provas contra ela eram sobretudo circunstanciais, e muitos historiadores defendem hoje que foi, acima de tudo, um bode expiatório conveniente para um exército francês que precisava de explicar as suas perdas.

Que relação tem Victor Lustig com esta história?

Robert Greene cita-os juntos, no mesmo capítulo, como dois exemplos da mesma lei: cultivar deliberadamente o mistério e a imprevisibilidade como forma de atrair e manter a atenção dos outros.

Este artigo defende que cultivar o mistério sobre si próprio é boa ideia?

Não. O artigo conta o que aconteceu e o que o livro de Greene celebra sem mencionar, incluindo como terminou realmente a história de Mata Hari. Não é uma recomendação sobre como te deves comportar socialmente.