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Estilo de aprendizagem

O que revelou a experiência do cérebro dividido de Roger Sperry?

Por Elena Personaramic4 min de leitura
Ilustração minimalista de dois semicírculos separados por uma linha vertical, representando os dois hemisférios do cérebro

Em meados da década de 1950, o neurocientista Roger Sperry, então na Universidade de Chicago, fez uma descoberta que mudaria para sempre a forma de entender o cérebro. A trabalhar com gatos, seccionou tanto o corpo caloso (a ponte de fibras que liga os dois hemisférios) como o quiasma ótico, de modo a que a informação visual de cada olho chegasse apenas ao hemisfério do mesmo lado. O resultado foi surpreendente: cada hemisfério funcionava de forma completamente independente, como se fosse um cérebro inteiro por si mesmo. Um gato podia aprender a resolver um problema com um olho, mas se depois se lhe tapasse esse olho e se lhe apresentasse o mesmo problema com o outro, não o reconhecia: tinha de o aprender do zero. Cada metade do cérebro ignorava por completo o que a outra tinha aprendido.

Dos gatos aos doentes humanos

Na década de 1960, um pequeno grupo de pessoas com epilepsia grave, que não respondia a outros tratamentos, foi submetido à secção cirúrgica do corpo caloso para reduzir a frequência e a intensidade das suas crises. Sperry e a sua equipa desenharam então uma série de testes psicológicos para estudar estes doentes, e uma das primeiras observações foi, em si mesma, notável: a operação não produzia nenhuma mudança percetível no temperamento, na personalidade ou na inteligência geral de quem a tinha recebido. No dia a dia, tudo parecia normal.

As diferenças só vieram à luz com testes de laboratório muito específicos. Projetavam-se palavras a um olho, de modo a que a informação chegasse unicamente ao hemisfério oposto. Quando a palavra era dirigida ao hemisfério esquerdo, o doente conseguia lê-la e dizê-la em voz alta sem qualquer problema. Quando a mesma palavra era dirigida ao hemisfério direito, o doente era incapaz de a nomear em voz alta, embora em muitos casos conseguisse apontar para o objeto correto com a mão esquerda (controlada, precisamente, pelo hemisfério direito). Literalmente, uma metade do seu cérebro sabia algo que a outra metade não conseguia pôr em palavras.

Dois cérebros sob o mesmo crânio

As descobertas de Sperry, que lhe valeram o Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1981, confirmaram algo que até então era apenas uma hipótese: na maioria das pessoas, o hemisfério esquerdo controla mecanismos ligados à fala, à linguagem e à capacidade de nomear as coisas, enquanto o direito, mais «mudo» nesse sentido, se revela especialmente hábil a processar informação visuoespacial, capacidades musicais e pensamento abstrato. Com os anos, a ideia original de um hemisfério «dominante» sobre o outro deu lugar a um conceito mais matizado, o de especialização hemisférica: cada hemisfério pode processar e armazenar informação por si mesmo, sem precisar do outro para o fazer, quase como se tivéssemos dois cérebros distintos a conviver sob o mesmo crânio.

Um pormenor que se notava mesmo fora do laboratório

Embora a operação não mudasse de forma evidente o comportamento diário dos doentes, as observações mais minuciosas detetaram algo curioso: ao moverem-se ou responderem a estímulos sensoriais, favoreciam o lado direito do seu corpo, controlado pelo hemisfério dominante na maioria das pessoas, o esquerdo. Era mais uma pista de que, embora os dois hemisférios funcionassem agora de forma independente, continuavam a conservar as suas especializações de sempre, só que já não as podiam partilhar entre si.

Antes de Sperry, já se sabia que seccionar o corpo caloso não produzia mudanças evidentes no comportamento, um dado que nos anos trinta levou o neurocientista Karl Lashley a brincar, meio a sério, dizendo que talvez a única função dessa estrutura fosse «impedir que os dois hemisférios flutuassem separadamente no líquido cefalorraquidiano». O mérito de Sperry foi desenhar os testes de laboratório precisos que demonstraram que tinha sim uma função real, e muito concreta: manter os dois hemisférios a trabalhar como uma equipa coordenada, não como dois cérebros que simplesmente partilham crânio sem comunicar.

Porque é que esta descoberta mudou a forma de estudar o cérebro

Antes destas experiências, boa parte da neurociência tratava o cérebro como uma unidade relativamente homogénea. O trabalho de Sperry abriu a porta a estudar cada hemisfério separadamente e a perguntar, de forma muito mais precisa, que função depende de qual. Essa pergunta continua a ser o ponto de partida de boa parte do que hoje sabemos sobre como aprendemos: que canal de entrada (visual, auditivo, verbal) tende a apoiar-se mais num lado do cérebro do que no outro, e porque é que integrar ambos os lados, em vez de deixar que um domine, costuma produzir uma aprendizagem mais completa do que confiar apenas num dos dois.

Esta base biológica é a que anos depois inspiraria o consultor Ned Herrmann a desenhar o seu modelo de dominância cerebral, cruzando a especialização hemisférica de Sperry com o chamado «cérebro trino» para descrever diferentes estilos de pensar e aprender. E explica também porque é que um canal sensorial concreto, como o visual ou o auditivo, pode apoiar-se com mais força num hemisfério do que noutro: não são preferências arbitrárias, são formas diferentes de aproveitar uma arquitetura cerebral que, em condições normais, funciona integrada, não dividida em duas.

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Perguntas frequentes

O que é o corpo caloso?

O feixe de fibras nervosas que liga os dois hemisférios do cérebro e permite que comuniquem entre si. Na década de 1930 já se sabia que seccioná-lo não produzia mudanças evidentes no comportamento, o que levou o neurocientista Karl Lashley a brincar dizendo que talvez a sua única função fosse impedir que os dois hemisférios «flutuassem separadamente».

Porque é que o corpo caloso era seccionado nalguns doentes?

Como tratamento cirúrgico para reduzir a frequência e a gravidade das crises num pequeno grupo de pessoas com epilepsia grave que não respondia a outros tratamentos, já na década de 1960.

Os doentes de Sperry notavam algo diferente depois da operação?

Na vida diária, praticamente nada: nem o seu temperamento, nem a sua personalidade nem a sua inteligência geral mudavam de forma percetível. As diferenças só apareciam em testes de laboratório muito específicos, desenhados para enviar informação a um único hemisfério de cada vez.

O que é a especialização hemisférica?

A ideia, hoje mais aceite do que a antiga noção de um hemisfério 'dominante', de que os dois lados do cérebro têm funções relativamente especializadas (o esquerdo mais ligado à linguagem e à sequência, o direito ao visuoespacial e ao pensamento abstrato) mas trabalham de forma coordenada, não isolada, no cérebro saudável.