Perceção do tempo: porque é que o tempo passa mais rápido à medida que envelheces
Um verão de infância durava uma eternidade. Um ano aos quarenta passa num instante. Quase toda a gente o nota, e a psicologia anda há mais de um século a tentar explicar porque é que o tempo passa mais rápido com a idade.
A perceção do tempo não funciona como um relógio.
Funciona, sobretudo, como uma memória.
E essa diferença explica boa parte do que acontece à medida que fazes anos.
O que William James escreveu em 1890
No capítulo sobre a perceção do tempo dos seus Princípios de Psicologia, James escreveu, em essência, que o mesmo intervalo de tempo parece mais curto à medida que envelhecemos.
E precisou: os dias, os meses e os anos encolhem; as horas, é duvidoso; os minutos e os segundos parecem ficar iguais.
Registou também a explicação em voga na época, a do filósofo francês Paul Janet:
- A duração aparente de um ano seria proporcional à vida já vivida.
- Aos 10 anos, um ano é um décimo da tua existência.
- Aos 50, apenas um quinquagésimo.
James não ficou convencido. Para ele, a regra de Janet descrevia o efeito, mas não o explicava.
Porque é que o tempo passa mais rápido: a explicação da memória
A proposta de James foi outra, e continua a ser a mais citada.
Na juventude, quase tudo é uma primeira vez: a primeira viagem, o primeiro emprego, a primeira mudança de casa. Cada experiência deixa a sua marca.
Com os anos, cada vez mais coisas passam a rotina automática. Então, escreveu James (em tradução livre), os dias e as semanas alisam-se na recordação em unidades sem conteúdo, e os anos tornam-se ocos e desabam.
Uma imagem possível: um ano sem novidades é uma mala vazia. Quando a memória a levanta, quase não pesa.
O tempo recordado não se mede em horas. Mede-se por quantas coisas distintas ficaram guardadas.
O paradoxo das férias
Daí nasce uma das observações mais finas de James, um paradoxo retrospetivo:
- Um tempo cheio de experiências variadas parece curto enquanto passa, mas longo quando se recorda.
- Um tempo vazio faz o contrário: arrasta-se enquanto se vive e encolhe na memória.
Os exemplos dele:
- Uma semana de viagem ocupa na memória o espaço de três semanas.
- Um mês de doença mal deixa mais recordações do que um único dia.
- Anton, personagem do romance Die Vagabunden, de Karl von Holtei, regressa à sua aldeia depois de sete anos que lhe parecem setenta, tanto foi o que viveu. E, ao olhar para a torre da igreja, sente que mal esteve fora uma semana.
Em 2012, a divulgadora britânica Claudia Hammond popularizou em Time Warped um nome para isto: o paradoxo das férias. Os dias livres voam enquanto duram e esticam-se quando os recordamos.
O tédio: quando o tempo se observa a si próprio
A outra face é o tédio, que James também analisou.
Surge quando um período está tão vazio que a atenção pousa sobre a própria passagem do tempo.
Esperar um minuto de olhos fechados parece interminável. E um dia cheio de espera e de desejo insatisfeito de mudança, escreveu James, parece uma pequena eternidade.
Enquanto se vive, o tempo aborrecido pesa. Na memória, desaparece.
O presente dura segundos, não um instante
James acrescentou uma ideia que continua viva na investigação: o presente especioso, termo que foi buscar a E. R. Clay.
O “agora” que vivemos não é um ponto sem espessura. É uma pequena janela de alguns segundos.
James comparou esse presente não ao fio de uma faca, mas a uma sela: um assento com alguma largura, de onde olhamos para trás e para a frente no tempo.
Alguns números que recolheu nos laboratórios do seu tempo:
- Wundt: cerca de 12 impressões podiam ser captadas como uma só unidade.
- Dietze: até cerca de 12 segundos de duração preenchida apreendidos de uma vez.
- Exner: dois estalidos ouvem-se como dois, mesmo separados por cerca de 1/500 de segundo.
E se percebêssemos mais depressa? A experiência mental de von Baer
James recorda ainda um cálculo do naturalista Karl Ernst von Baer.
Von Baer imaginou duas criaturas opostas:
- Uma que captasse mil vezes mais acontecimentos por segundo do que nós: para ela, o Sol pareceria parado no céu e o movimento dos seres vivos seria tão lento que teria de ser deduzido, não visto.
- Outra que captasse mil vezes menos: invernos e verões durariam o que dura um quarto de hora, os cogumelos brotariam como criações instantâneas e o Sol atravessaria o céu como um meteoro.
Herbert Spencer acrescentava que as asas de um mosquito batem milhares de vezes por segundo. Para um mosquito, talvez um segundo seja longo.
A ideia tem um eco moderno. Em 2019, o engenheiro Adrian Bejan defendeu na European Review que, com a idade, o cérebro processa menos “imagens” por unidade de tempo, e por isso os dias parecem mais curtos. É uma hipótese especulativa, assente em argumentos físicos e não em experiências psicológicas diretas.
Mais sólido é o chamado efeito oddball: Tse e colegas (2004) mostraram que um estímulo raro numa sequência parece durar mais do que os habituais, mesmo com a mesma duração, e atribuíram o efeito à atenção.
É verdade que o tempo passa mais rápido com a idade? O que a perceção do tempo mostra hoje
Aqui a ciência atual matiza bastante a intuição popular.
- Wittmann e Lehnhoff (2005) inquiriram 499 pessoas entre os 14 e os 94 anos. A sensação de aceleração aumentava com a idade, mas os efeitos eram pequenos a moderados: no máximo 10% da variância.
- Friedman e Janssen (2010), com 1865 adultos de dois países, encontraram diferenças por idade muito pequenas, exceto quando se perguntava pela rapidez dos últimos dez anos.
- No mesmo trabalho, sentir-se com pressa pesava mais do que a idade: quem vivia sob mais pressão sentia o tempo a passar mais depressa, fosse qual fosse a idade.
O que James acertou: o tempo recordado depende da quantidade de recordações distintas, e essa continua a ser a peça central.
O que não pôde ver: que pessoas de todas as idades dizem que o tempo voa, e que o ritmo de vida conta tanto como o calendário. A forma como cada pessoa se situa entre passado, presente e futuro, tratada na perspetiva nostálgica, também colore essa sensação.
O teste a minha relação com o tempo permite ver o teu próprio padrão. E se tens curiosidade sobre como a mudança de estação mexe com o relógio interno, o fim do verão tem a sua própria história.
Fontes
- Bejan, A. (2019). Why the days seem shorter as we get older. European Review, 27(2), 187-194. https://doi.org/10.1017/S1062798718000741
- Friedman, W. J., e Janssen, S. M. J. (2010). Aging and the speed of time. Acta Psychologica, 134(2), 130-141. https://doi.org/10.1016/j.actpsy.2010.01.004
- Hammond, C. (2012). Time Warped: Unlocking the Mysteries of Time Perception. Canongate.
- James, W. (1890). The Principles of Psychology. Henry Holt and Company.
- Tse, P. U., Intriligator, J., Rivest, J., e Cavanagh, P. (2004). Attention and the subjective expansion of time. Perception & Psychophysics, 66(7), 1171-1189. https://doi.org/10.3758/BF03196844
- Wittmann, M., e Lehnhoff, S. (2005). Age effects in perception of time. Psychological Reports, 97(3), 921-935. https://doi.org/10.2466/pr0.97.3.921-935
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Perguntas frequentes
Porque é que o tempo passa mais rápido quando envelhecemos?
Uma das explicações mais citadas, já proposta por William James em 1890, tem a ver com a memória: quando a vida se enche de rotina, os dias deixam poucas recordações distintas e, olhando para trás, os anos parecem mais curtos. A investigação atual acrescenta que o efeito da idade é pequeno e surge sobretudo ao avaliar períodos longos, como a última década.
É verdade que o tempo passa mais rápido para as pessoas mais velhas?
Só em parte. Wittmann e Lehnhoff (2005), com 499 pessoas entre os 14 e os 94 anos, verificaram que a sensação de aceleração aumenta com a idade, mas o efeito explicava no máximo 10% das diferenças. Friedman e Janssen (2010), com 1865 adultos, só encontraram diferenças claras por idade na pergunta sobre os últimos dez anos.
O que é o paradoxo das férias?
É o nome que a psicóloga e divulgadora britânica Claudia Hammond popularizou no livro Time Warped (2012) para algo que William James já descrevia em 1890: umas férias cheias de novidades passam a voar enquanto se vivem, mas parecem longas quando se recordam, porque deixam muitas recordações distintas.
O que é o presente especioso?
É o termo que William James foi buscar a E. R. Clay para o 'agora' que realmente vivemos: não um instante sem duração, mas uma pequena janela de poucos segundos. James comparou-o a uma sela, e não ao fio de uma faca.
Este artigo substitui uma avaliação profissional?
Não. Resume investigação histórica e científica sobre a perceção do tempo com fins informativos e educativos. Se a sensação de que o tempo foge vier acompanhada de um mal-estar persistente, o indicado é consultar um profissional de saúde mental.