O amigo aventureiro: quem tira o grupo da rotina
O amigo aventureiro traz o que a rotina não dá por si só: a sensação de que ainda há coisas novas para descobrir juntos.
Este artigo faz parte de uma série de divulgação sobre estilo social. Tem fins informativos e não substitui a orientação de um profissional de psicologia.
A função que cumpres sem dares por isso
A investigação sobre amizade não reduz o vínculo à estabilidade ou ao apoio emocional. A novidade partilhada (experimentar algo diferente em conjunto, sair do conhecido) é também uma função própria da amizade, e o teste de que tipo de amigo ou amiga sou mede-a com quatro afirmações: propor experiências que o grupo ainda não experimentou, aborrecer-se se se faz sempre o mesmo, animar os outros a alinhar num plano improvisado e trazer gente ou ideias novas para o círculo.
Se te reconheces nessas quatro, esta é a tua função predominante.
É um papel diferente do de manter o contacto vivo no dia a dia, que costuma recair mais sobre o amigo organizador.
Como se nota no dia a dia
- Propões planos em que o grupo não teria pensado sozinho.
- Alinhas facilmente em algo improvisado ou pouco habitual, mesmo sem muita planificação prévia.
- Costumas ser quem liga o teu círculo de amigos a gente ou ambientes novos.
- Animas os outros a alinhar num plano diferente, mesmo quando hesitam.
Uma cena reconhecível: o grupo janta há três anos no mesmo tasco na primeira sexta-feira de cada mês. Um dia propões trocar o jantar por uma aula de cozinha coreana num sítio que ninguém conhece. Dois hesitam, um protesta e no fim vão todos. Meses depois, essa é a noite de que mais se fala nesse ano.
Porque a novidade une: o modelo de autoexpansão
Os psicólogos Arthur e Elaine Aron propuseram o modelo de autoexpansão: procuramos relações, em parte, porque alargam quem somos, dão-nos acesso a experiências, perspetivas e recursos que sozinhos não teríamos. As relações sentem-se mais vivas quando continuam a trazer essa expansão, e a rotina tende a apagá-la.
A prova mais citada é um trabalho de Aron, Norman, Aron, McKenna e Heyman (2000). Em dois inquéritos, os casais que diziam partilhar mais atividades “emocionantes” estavam mais satisfeitos com a sua relação, e essa ligação passava por um menor tédio. Depois, em três experiências de laboratório, os casais que faziam juntos uma tarefa de sete minutos nova e algo exigente avaliavam melhor a relação no fim do que os que faziam uma tarefa rotineira.
Dois matizes para o ler bem:
- São estudos com casais, não com amigos. A extensão à amizade é razoável, porque o mecanismo (tédio contra expansão) não é exclusivo do amor romântico, mas tem menos apoio direto.
- O efeito é da atividade partilhada, não da novidade em si. O que une é viver algo novo juntos, não que uma pessoa do grupo o faça e o conte.
Lido assim, o aventureiro não é só quem se aborrece primeiro: é quem traz para o grupo a matéria-prima dessa expansão.
Uma pergunta que Sócrates já fazia: unimo-nos por sermos parecidos ou por nos completarmos?
No diálogo Lísis, um dos primeiros textos de Platão sobre a amizade, Sócrates pergunta a vários jovens o que faz com que duas pessoas se tornem amigas: a semelhança, o parecido atrai o parecido, ou a diferença, cada um procura no outro o que lhe falta?
O diálogo é célebre precisamente por não chegar a uma resposta fechada, e mostra que definir a amizade é mais difícil do que parece.
O amigo aventureiro encaixa bem na segunda possibilidade: costuma trazer ao grupo exatamente o que este não tinha por si só, uma ideia diferente, um plano inesperado, uma perspetiva que mais ninguém teria proposto. Quase 2500 anos depois, a pergunta sobre se nos unimos por sermos parecidos ou por nos completarmos continua sem resposta única, e este estilo é um bom exemplo do porquê.
O teu desafio de crescimento
A procura constante de novidade pode fazer com que os rituais pequenos e repetidos (o encontro de sempre, o mesmo sítio todos os anos) te pareçam menos naturais ou até aborrecidos.
Esses rituais cumprem uma função própria: dão ao vínculo uma base estável sobre a qual a novidade se aproveita melhor. E nem toda a gente vive o novo da mesma maneira: para algumas pessoas do grupo, o plano de sempre é exatamente o que faz com que a amizade pareça segura. Cuidar também do repetido, e não só do novo, costuma dar amizades mais completas.
Identificas-te com este estilo? Confirma com o teste de que tipo de amigo ou amiga sou.
Fontes
- Aron, A., Norman, C. C., Aron, E. N., McKenna, C. e Heyman, R. E. (2000). Couples’ shared participation in novel and arousing activities and experienced relationship quality. Journal of Personality and Social Psychology, 78(2), 273-284. https://doi.org/10.1037/0022-3514.78.2.273
- Platão. Lísis.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
O amigo aventureiro é o mesmo que o organizador?
Não. O organizador mantém o contacto vivo e coordena; o aventureiro traz especificamente a novidade, o plano diferente que ninguém tinha proposto. Podem combinar-se, mas são funções distintas.
Porque me aborreço com a rotina mais do que outras pessoas?
Tem relação com a necessidade de novidade e estimulação, um traço bem documentado na psicologia da personalidade; aqui abordamo-lo aplicado especificamente ao terreno da amizade.
É um estilo menos 'sério' do que os outros?
Não. A novidade partilhada é uma função tão legítima do vínculo como a estabilidade ou o apoio emocional.
Posso perder amizades por ser demasiado aventureiro?
O risco aparece se a procura de novidade deixar de lado os rituais e a constância; cuidar de ambas costuma dar o melhor resultado.
Há estudos sobre o efeito de fazer coisas novas em conjunto?
Sim, embora a maioria tenha sido feita com casais. Arthur Aron e os seus colaboradores (2000) verificaram que os casais que partilhavam uma tarefa breve, nova e estimulante avaliavam depois melhor a sua relação do que os que faziam uma tarefa rotineira. Com amizades há menos dados experimentais.