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Relações e vida social

Leite e mel: a distinção de Erich Fromm entre cuidar de alguém e transmitir-lhe alegria de viver

Por Rafa Personaramic4 min de leitura
Ilustração minimalista de duas gotas geométricas, uma clara e outra dourada, lado a lado

Erich Fromm distinguia duas camadas dentro do amor de uma mãe: uma que mantém a criança viva e a salvo, e outra que lhe transmite que estar viva merece a alegria. A primeira é frequente. A segunda, escreveu, é muito mais rara.

Em A Arte de Amar (1956), o psicanalista Erich Fromm dedica um capítulo inteiro a diferenciar o amor materno do paterno. Dentro dessa distinção, propõe uma imagem que toma emprestada de um texto muito anterior a qualquer teoria psicológica: a Bíblia.

Uma terra onde correm leite e mel

A Terra Prometida descreve-se no Antigo Testamento como uma terra “onde corre leite e mel”. Fromm transforma essa frase numa metáfora exata do que, segundo ele, oferece (ou nem sempre oferece) o amor de uma mãe:

  • O leite simboliza o cuidado e a sobrevivência: alimento, proteção, calor físico.
  • O mel simboliza algo diferente: a doçura da vida, o prazer de existir, a mensagem de que estar vivo é bom, não só possível.

Fromm resume a diferença numa frase que continua a ler-se quase setenta anos depois com o mesmo desconforto que deve ter causado na altura: “A maioria das mães é capaz de dar leite. Mas só algumas conseguem dar também mel.”

Porque é que o mel é mais difícil de dar do que o leite

Segundo Fromm, dar leite depende sobretudo da vontade de cuidar. Dar mel depende de algo mais exigente: que quem cuida seja, além disso, uma pessoa feliz.

Uma mãe pode alimentar, proteger e zelar por uma criança de forma impecável e, ao mesmo tempo, transmitir-lhe, sem dizer uma única palavra, que a vida é um fardo, uma fonte de ansiedade ou algo que é preciso suportar. Fromm é explícito neste ponto: o amor à vida é tão contagioso, escreve, como a ansiedade. Ambas as atitudes deixam marca na personalidade da criança, e o próprio autor defende que é possível distinguir, tanto entre crianças como entre adultos, quem recebeu apenas leite de quem recebeu leite e mel.

A outra metade do quadro: porque existe também um amor paterno

Fromm não descreve o amor materno de forma isolada. Compara-o com o amor paterno, ao qual atribui uma lógica diferente:

  • O amor materno, na sua formulação, é incondicional: recebe-se pelo simples facto de existir, não é preciso merecê-lo, e por isso mesmo também não se pode forçar nem controlar se faltar.
  • O amor paterno é, para Fromm, condicional: organiza-se em torno de expectativas, princípios e conquistas. Tem um lado exigente (é preciso conquistá-lo) e um positivo (ao contrário do materno, está, pelo menos em parte, sob o próprio controlo).

Nenhum dos dois, segundo Fromm, é superior ao outro. Cada um responde a uma necessidade diferente da criança num momento diferente do seu desenvolvimento: segurança incondicional primeiro, orientação e estrutura depois.

Tornar-se o próprio pai e a própria mãe

A parte mais interessante da teoria de Fromm chega quando descreve o que acontece na idade adulta, se esse desenvolvimento avança bem. A pessoa madura, escreve, acaba por ter uma consciência materna e uma consciência paterna próprias, interiorizadas, que já não dependem de existirem uma mãe e um pai reais para as sustentar:

  • A consciência materna interior diz, em essência: nada do que faças pode privar-te do meu carinho nem do meu desejo de que sejas feliz.
  • A consciência paterna interior diz: fizeste algo mal, tens de assumir a consequência, e se quiseres a minha aprovação, algo tem de mudar.

Fromm alerta para o que acontece quando falta uma das duas. Só a consciência paterna, sem a materna, produz alguém rígido e demasiado exigente, também consigo próprio. Só a materna, sem a paterna, pode deixar uma pessoa sem critério nem capacidade de assumir os seus próprios erros.

Porque é que esta ideia continua a ser útil

A distinção de Fromm entre leite e mel não pretende avaliar ninguém como mãe, pai ou cuidador. Serve antes para entender algo que muitas vezes passa despercebido na biografia de qualquer pessoa: que receber cuidado e receber alegria de viver são duas coisas distintas, e que é perfeitamente possível ter tido muito da primeira e muito pouco da segunda, ou o contrário.

A investigação posterior sobre vinculação, que estuda com outra metodologia como a disponibilidade emocional de um cuidador molda o vínculo adulto, chega por um caminho diferente a uma conclusão parecida: o decisivo não é apenas que as necessidades básicas estivessem cobertas, mas o tom emocional com que foram cobertas. Fromm, sem esse aparato metodológico, já tinha dado nome a essa diferença usando duas palavras muito antigas: leite e mel.

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Perguntas frequentes

Fromm diz que há mães 'boas' e 'más'?

Não exatamente. Distingue entre duas capacidades diferentes dentro do amor materno (o cuidado básico e a transmissão de alegria de viver) e assinala que a segunda é mais difícil de dar, não que umas mães sejam boas e outras más de forma geral.

Esta ideia está confirmada por estudos posteriores de psicologia do desenvolvimento?

É uma formulação própria de Fromm, dentro de um ensaio filosófico e psicanalítico, não um achado de um estudo empírico. Liga-se, em todo o caso, à investigação posterior sobre vinculação, que sim estudou com metodologia própria o efeito do estado de espírito do cuidador principal na criança.

O amor paterno, tal como Fromm o descreve, é necessariamente pior do que o materno?

Não os apresenta numa hierarquia. Descreve-os como duas funções distintas e complementares, cada uma necessária num momento diferente do desenvolvimento da criança.

Esta distinção aplica-se só a mães biológicas?

Fromm fala de 'princípio materno' e 'princípio paterno' como funções psicológicas, seguindo a ideia de tipo ideal de Max Weber, não de um papel ligado em exclusivo ao sexo ou ao vínculo biológico de quem o exerce.