Medo do compromisso: porque é que toda a relação moderna traz uma saída de emergência incorporada
Toda a relação moderna, mesmo que ninguém o diga em voz alta, vem com uma saída de emergência incorporada. O sociólogo Anthony Giddens chamou a isto a “relação pura”: um vínculo que dura só enquanto ambas as partes sintam que lhes compensa continuar nele. Zygmunt Bauman explica, em ‘Amor Líquido’ (2003), o que se ganha e o que se perde com esse desenho.
Durante séculos, o casamento entendeu-se no Ocidente como uma “condição natural”: algo cuja durabilidade se dava como garantida, salvo em circunstâncias extremas. Bauman recorda que a fórmula “até que a morte nos separe” foi, durante gerações, a definição romântica por defeito do amor. Hoje, escreve, essa fórmula está “decididamente fora de moda”: ficou desligada das estruturas de parentesco e de vida material de que dependia a sua validade. O que ocupou o seu lugar é um modelo diferente, com regras próprias não escritas.
O que é exatamente a “relação pura”
O termo pertence ao sociólogo britânico Anthony Giddens, citado extensamente por Bauman. Segundo a sua descrição, a relação pura é hoje “a forma predominante de união humana”, uma relação que se estabelece “pelo que cada pessoa pode obter” dela e que se mantém “só enquanto ambas as partes pensarem que produz satisfação suficiente para que cada indivíduo nela permaneça”. A diferença com o casamento tradicional pode resumir-se em três pontos:
- Origem. O casamento tradicional assumia-se como algo dado pela comunidade, pela família ou pela religião. A relação pura escolhe-se ativamente, e essa escolha deve renovar-se, ainda que de forma tácita, de vez em quando.
- Duração esperada. O casamento tradicional presumia-se permanente salvo prova em contrário. A relação pura presume-se revisável a qualquer momento, sem necessidade de uma “prova” que justifique terminá-la.
- Quem decide continuar. O casamento tradicional dependia de instituições externas (a Igreja, a lei, a pressão social) para se sustentar. A relação pura depende exclusivamente de que ambas as pessoas, separadamente, continuem a considerar que lhes convém.
A metáfora do acionista
Bauman leva a ideia para um terreno deliberadamente incómodo: compara comprometer-se numa relação pura com comprar ações na bolsa. A ninguém ocorreria exigir a um acionista um juramento de lealdade às ações que acabou de adquirir, nem esperar que as guarde “nos bons e nos maus momentos, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe”. Um bom detentor de ações vigia constantemente se convém conservá-las ou vendê-las assim que surge uma oportunidade melhor. Bauman sugere que boa parte das relações atuais, sem o dizer abertamente, começam a reger-se por uma lógica parecida: revê-se, compara-se, decide-se se “continua a compensar” ficar.
Um exemplo de como isto se nota na vida diária
Pensemos num casal que vive junto há algum tempo, não um caso real mas uma ilustração do padrão que Bauman descreve. Nenhum dos dois falou alguma vez do futuro a longo prazo: nem se vão casar, nem se vão ter filhos, nem o que aconteceria se a um deles oferecessem um trabalho noutra cidade. Não é que evitem o tema por medo de discutir. É que, sem o dizer, ambos entendem que nomear um compromisso a longo prazo mudaria as regras do jogo: deixaria de ser uma relação que “funciona enquanto funciona” para se tornar numa que exige explicações se deixar de funcionar. Manter essa ambiguidade, paradoxalmente, sente-se mais seguro do que a resolver.
Uma ideia que a uma geração parece óbvia
Bauman observa algo revelador sobre como mudou a perceção deste modelo em pouco tempo: enquanto para gerações anteriores a “relação pura” de Giddens podia soar a novidade sociológica, para quem nasceu, cresceu ou chegou à idade adulta com a mudança de século a descrição parece-lhe, nas suas próprias palavras, “familiar, e até óbvia”. O que uma geração descrevia como uma transformação em curso, a seguinte já vive simplesmente como o funcionamento normal de qualquer vínculo.
Porque é que tantos vínculos trazem hoje uma cláusula de “até novo aviso”
Esta lógica não se limita ao casal. Bauman assinala que até o vínculo com a própria família alargada se tornou, para muitas pessoas, uma questão de escolha revogável “até novo aviso”, mais do que um facto dado como garantido: pertencer a uma linhagem concreta, escreve, tornou-se um dos “indefiníveis” da vida líquida moderna. Há, no entanto, uma exceção notável na sua análise: ter filhos implica um compromisso irrevogável e de final aberto, sem cláusula de saída, algo que Bauman descreve como uma obrigação que vai diretamente contra a lógica dominante no resto dos vínculos modernos, e que por isso mesmo pode ser uma experiência especialmente desestabilizadora para quem a assume.
Bauman usa uma imagem para descrever o que resta do velho significado de ter filhos: uma “ponte” para algo mais duradouro do que a própria vida, lançada sobre uma margem que hoje fica coberta por uma névoa que ninguém espera que se dissipe de todo. A pergunta que deixa no ar é incómoda: se essa névoa se dissipasse, que tipo de costa ficaria à vista, e seria suficientemente firme para sustentar algo permanente?
O preço de eliminar o risco
Investir sentimentos profundos numa relação e comprometer-se implica, segundo assinala Bauman, tornarmo-nos dependentes de outra pessoa, com tudo o que isso acarreta se a relação terminar. A relação pura promete reduzir esse risco: enquanto ninguém jurar nada “até que a morte os separe”, ninguém fica exposto a uma rutura que sinta como uma traição a um pacto incumprido. Mas Bauman aponta um desequilíbrio que costuma passar despercebido: dentro de uma relação pensada para ser revogável a qualquer momento, a dependência emocional de uma pessoa em relação à outra nem sempre é correspondida na mesma medida, e essa assimetria não é garantida por nenhum acordo, precisamente porque o acordo evita comprometer-se com nada a longo prazo.
Será a dependência o problema, ou a falta de garantias?
Bauman recorda, citando o filósofo Knud Løgstrup, que a dependência de outra pessoa não tem de entender-se como algo negativo: para Løgstrup, e também para Emmanuel Levinas, essa mesma dependência é a base da responsabilidade moral perante o outro. O medo do compromisso que Bauman descreve não seria então medo de depender de alguém, mas medo de depender de alguém sem nenhuma garantia de que essa dependência vá ser sustentada do outro lado. É uma distinção que se liga ao que a investigação sobre vinculação descreve na vinculação evitante: não tanto a ausência de necessidade de vínculo, mas a prioridade colocada em proteger-se de uma possível deceção.
Conclusão: a tensão não se resolve, gere-se
Nada no enquadramento de Bauman sugere que exista uma fórmula para eliminar a tensão entre o desejo de compromisso e o medo das consequências de se comprometer sem garantias. Descreve-a, antes, como uma das condições estruturais da vida afetiva contemporânea: não um problema pessoal a resolver, mas um traço do ambiente com que cada pessoa negoceia à sua maneira. Essa negociação depende, em boa medida, da própria história e do próprio estilo de vinculação de cada um: de quanto pesa, na balança pessoal de cada um, o impulso de construir algo duradouro face à prudência de não investir mais do que se está disposto a perder.
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Perguntas frequentes
O que é a 'relação pura' de Anthony Giddens?
Um conceito que descreve a forma predominante de vínculo na sociedade contemporânea: uma relação que se sustenta 'pelo que cada pessoa pode obter' dela e que continua apenas enquanto ambas as partes sintam que produz satisfação suficiente.
Bauman concorda com o enquadramento de Giddens?
Retoma-o para assinalar um custo que Giddens não enfatiza tanto: se a relação só se sustenta enquanto compensa, investir sentimentos profundos e depender emocionalmente de outra pessoa torna-se um risco que nem toda a gente está disposta a assumir.
O medo do compromisso é um traço de personalidade ou algo do contexto social?
Bauman descreve-o principalmente como uma resposta racional a um ambiente onde poucos vínculos oferecem garantias de continuidade, ainda que a investigação sobre vinculação assinale que a história pessoal também influencia quanto risco cada um tolera ao comprometer-se.
Comprometer-se implica sempre renunciar à própria liberdade?
Segundo o enquadramento que Bauman recolhe, o compromisso implica aceitar uma dependência mútua, não necessariamente uma perda de liberdade; o próprio Bauman assinala que autores como Løgstrup consideram essa dependência a base da responsabilidade moral perante o outro, não o seu contrário.