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Relações e vida social

O detetive que um marido ciumento contratou para vigiar a mulher, e com quem ela acabou por fugir

Por Rafa Personaramic4 min de leitura
Ilustração minimalista de um olho geométrico dentro de uma fechadura

Um homem de cinquenta e dois anos, com medo de que a mulher (quinze anos mais nova e muito atraente) lhe fosse infiel, montou em casa um sistema de vigilância com detetives, gravações e proibições. O final da história é contado pelo próprio Walter Riso, e é mais irónico do que qualquer guião se atreveria a escrever.

Em Amar ou Depender? (2003), o psicólogo Walter Riso descreve um dos esquemas mentais que, segundo o seu enquadramento, sustentam boa parte dos apegos afetivos problemáticos: a ilusão de permanência, ou seja, a crença de que uma relação se pode tornar completamente segura e estável se for suficientemente controlada.

Um casamento transformado em operação de vigilância

O caso que usa para o ilustrar é o de um homem divorciado e casado de novo, com uma mulher quinze anos mais nova. Com o passar do tempo, o seu ciúme foi derivando para o que Riso descreve, sem rodeios, como “uma KGB em miniatura, personalizada e caseira”: contratação de detetives privados, gravações, proibições de todo o tipo e, por vezes, alguma agressão.

Quando a mulher se atrevia a insinuar o mínimo desacordo, ele respondia com uma frase que resume bem o fundo do assunto: “Não vales nada”, uma forma indireta de dizer “vales menos do que eu”. O verdadeiro objetivo, segundo descreve Riso, não era tanto o amor como a certeza: queria uma garantia de que ela nunca se iria embora, independentemente de essa permanência assentar no afeto ou no medo.

A submissão que na verdade era outra coisa

Riso faz uma observação clínica interessante sobre este caso: a aparente submissão da mulher não era uma forma de vinculação, mas sim uma estratégia de sobrevivência perante alguém que ela percecionava, com razão, como perigoso. Ela queria sair da relação e esperava o momento certo para o fazer, algo muito diferente da dependência afetiva de que o marido sofria.

Esse pormenor é importante na teoria de Riso: nem toda a permanência dentro de uma relação difícil é vinculação. Às vezes é cálculo, paciência ou, simplesmente, a espera de uma oportunidade real de sair sem risco.

O desfecho que ninguém tinha previsto

Toda aquela maquinaria de controlo, escreve Riso, não passava de uma fachada sem grande fundamento real: o marido era, no fundo, muito mais frágil do que a mulher. E como costuma acontecer com este tipo de estratégias, segundo descreve o próprio autor, a vigilância constante acabou por provocar exatamente aquilo que pretendia impedir.

A mulher acabou por o deixar por outro homem. O pormenor que torna o caso memorável é quem era esse homem: o mesmo detetive privado que o marido tinha contratado para a espiar. Riso encerra o relato com uma frase que funciona quase como moral da história: “Ninguém sabe para quem trabalha”.

O que Buda tinha a dizer sobre isto, dois mil anos antes

Riso enquadra este esquema de “ilusão de permanência” citando um ensinamento atribuído a Buda, ligado ao que o budismo chama a Segunda Nobre Verdade: o apego como origem do sofrimento. A ideia central, resumida, é esta:

  • Agarrarmo-nos a algo transitório gera desgraça, porque mais tarde ou mais cedo aquilo a que nos agarramos muda ou desaparece.
  • Quanto mais se tenta fixar e controlar o que por natureza é incerto, mais sofrimento se gera na tentativa.
  • O paradoxo, segundo assinala Riso retomando esta ideia, é que o medo de perder algo costuma acelerar precisamente a sua perda, não evitá-la.

Porque é que este caso, ainda que extremo, é útil

Poucas pessoas chegam a montar em casa um sistema de vigilância como o que Riso descreve. Mas o mecanismo de fundo (querer transformar uma relação em algo absolutamente garantido e sem risco) é, segundo a sua experiência clínica, muito mais comum em versões mais pequenas e menos visíveis:

  • Rever o telemóvel ou as redes sociais do outro de forma sistemática, e não pontual.
  • Precisar de saber a todo o momento onde está o par e com quem.
  • Pedir explicações constantes perante qualquer ausência breve ou atraso.
  • Interpretar a mínima distância como um indício de que algo não está bem.

Nenhum destes comportamentos, assinala Riso, traz a segurança que promete. Pelo contrário: quanto mais se praticam, mais frágil se torna a confiança real entre ambos, porque a relação passa a assentar na vigilância e não no vínculo em si.

O caso do marido e do detetive funciona como uma versão extrema e nítida de algo que, em doses menores, aparece em muitas relações: a ideia de que controlar mais equivale a garantir mais. A história que Riso conta, com o seu desfecho final quase cómico, sugere exatamente o contrário. É o mesmo paradoxo que aparece, noutra tradição, na enumeração de Erich Fromm sobre as falsas soluções históricas para a angústia de nos sentirmos separados: nenhuma estratégia de controlo resolve, no fundo, o medo que a originou.

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Perguntas frequentes

Walter Riso apresenta este caso como algo habitual?

Apresenta-o como um exemplo extremo de um esquema que descreve como frequente na sua prática clínica: a chamada 'ilusão de permanência', não como um aviso de que todos os ciúmes acabam desta forma.

As citações de Buda que aparecem no livro são literais?

Riso apresenta-as como ensinamentos atribuídos a Buda sobre o apego e a impermanência, em linha com a Segunda Nobre Verdade do budismo (a origem do sofrimento está no apego ou no desejo). Como acontece com qualquer tradição oral com mais de dois mil anos, a formulação exata varia consoante a tradução e a fonte.

Riso sugere que nunca devemos preocupar-nos em perder um par?

Não. Distingue entre o desejo natural de que uma relação dure, que considera saudável, e a necessidade angustiada de controlar essa permanência, que descreve como a origem do comportamento problemático neste caso.

O que é a 'ilusão de permanência' na teoria de Riso?

A crença de que uma relação se pode tornar estável e segura para sempre se for suficientemente controlada, quando na realidade, segundo o seu enquadramento, nenhuma relação afetiva vem com essa garantia.