O problema que um mercador fenício, um monge medieval e tu têm em comum, segundo Erich Fromm
Segundo Erich Fromm, um homem das cavernas primitivo, um pastor egípcio, um mercador fenício, um soldado romano, um monge medieval, um samurai japonês e um empregado de escritório moderno têm, no fundo, exatamente o mesmo problema.
Em A Arte de Amar (1956), o psicanalista Erich Fromm defende que a história humana inteira pode ler-se como uma longa série de tentativas de resolver uma única pergunta. Não uma pergunta política, nem económica, mas existencial: como deixar de nos sentirmos separados do resto do mundo.
Um problema que não mudou em milhares de anos
Fromm é literal na sua enumeração. Escreve que o problema é “o mesmo para o homem primitivo que habita em cavernas, o nómada que cuida dos seus rebanhos, o pastor egípcio, o mercador fenício, o soldado romano, o monge medieval, o samurai japonês e o empregado e o operário modernos”.
A razão por que agrupa figuras tão distintas entre si (separadas por milhares de quilómetros e milhares de anos) é que, para Fromm, todas partilham a mesma condição de partida: a consciência de si próprio como um ser separado, consciente da sua solidão, da sua fragilidade e de que um dia vai morrer. Essa consciência, escreve, gera uma angústia tão intensa que nenhuma cultura humana conseguiu ignorá-la de todo.
Três formas históricas de acalmar essa angústia
Fromm descreve várias respostas que a humanidade foi ensaiando ao longo da sua história. Nenhuma, segundo a sua teoria, resolve o problema por completo, mas todas aliviam, durante algum tempo, a sensação de estar sozinho:
- Os estados orgiásticos. Rituais de transe, por vezes com ajuda de drogas, praticados em comum por muitas culturas primitivas. Enquanto se praticam de forma coletiva e aceite, escreve Fromm, não geram culpa; quando um indivíduo isolado procura o mesmo por sua conta, numa cultura que já não pratica esses rituais (através do álcool ou das drogas, por exemplo), o resultado costuma ser culpa e uma sensação de separação ainda maior quando o efeito termina.
- A conformidade com o grupo. Adaptar-se aos costumes, ideias e aparência de um coletivo maior, até sentir que se pertence a algo que transcende a própria pessoa.
- O trabalho criador. Um carpinteiro que faz uma mesa, um pintor que pinta um quadro ou um agricultor que semeia um campo fundem-se, durante esse processo, com o material sobre o qual trabalham.
”Civis romanus sum”: o orgulho de pertencer
Para ilustrar a segunda solução, a conformidade com o grupo, Fromm recorre a um dado histórico concreto. Até o romano com menos recursos, escreve, se sentia orgulhoso de poder dizer civis romanus sum (“sou cidadão romano”). Roma inteira (o seu exército, a sua lei, o seu território) tornava-se numa espécie de família alargada, um lar muito maior do que a própria casa.
Fromm traça uma linha direta entre esse orgulho romano e fenómenos muito mais recentes: a identificação com uma nação, com uma religião organizada ou, na sociedade de consumo que ele próprio observava em meados do século XX, com a moda e as tendências do momento. Cita, como exemplo quase irónico, um slogan publicitário da sua época, “é diferente”, como prova de quanto se precisa de sentir diferente quando, no fundo, quase ninguém o é assim tanto.
Porque é que nenhuma destas soluções é, para Fromm, suficiente
As três estratégias partilham um limite, segundo a sua análise:
- A união orgiástica é intensa mas transitória: dura enquanto durar o ritual, a substância ou o transe.
- A conformidade de grupo é duradoura mas superficial: acalma a angústia sem exigir demasiado, mas também sem oferecer demasiado.
- O trabalho criador une a pessoa ao seu material, não a outra pessoa.
Nenhuma das três, assinala Fromm, alcança a união interpessoal completa: a fusão com outro ser humano que, ao mesmo tempo, respeita a individualidade de ambos. Essa união completa é, na sua teoria, a única coisa a que chama propriamente amor maduro. Tudo o resto são, nas suas próprias palavras, “respostas parciais ao problema da existência”.
O que muda e o que não muda
O que chama a atenção na enumeração de Fromm (o homem das cavernas, o pastor, o mercador, o soldado, o monge, o samurai, o empregado de escritório) é que nenhum deles resolveu o problema melhor do que os outros só por viver numa época mais “avançada”. Mudaram as ferramentas: o ritual tribal transformou-se em fim de semana de festa, a cidadania romana transformou-se em identidade nacional ou de marca, a oficina do artesão transformou-se no escritório moderno. O que não mudou, segundo Fromm, foi a pergunta de fundo.
Essa continuidade é talvez a parte mais incómoda da sua teoria: não promete que o problema vá desaparecer com o progresso material. O que sustenta é que, de todas as respostas que a humanidade ensaiou ao longo da sua história, só uma (o amor entendido como cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento por outra pessoa, tratado também na parábola de Jonas) aponta diretamente para o centro do problema, em vez de o rodear.
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Perguntas frequentes
'Civis romanus sum' é uma citação real da Roma Antiga?
Sim, é uma fórmula histórica documentada ("sou cidadão romano"), usada como garantia legal e como fonte de orgulho mesmo entre os romanos com menos recursos. Fromm cita-a como exemplo de identidade coletiva.
Fromm dizia que pertencer a um grupo é negativo?
Não de forma absoluta. Descreve-o como uma solução parcial e real para o mal-estar de nos sentirmos separados do resto do mundo, distinta da união que, segundo a sua teoria, só o amor maduro oferece.
Porque é que Fromm menciona rituais com drogas ou estados de transe a par da vida moderna?
Agrupa-os como exemplos históricos de uma mesma estratégia (procurar uma fusão intensa e transitória com algo externo) para os poder comparar com a conformidade social, que considera uma versão mais calma e duradoura da mesma estratégia.
Esta teoria de Fromm relaciona-se com a psicologia social atual?
Partilha terreno com a investigação posterior sobre pertença e conformidade de grupo, ainda que Fromm a formule a partir da psicanálise e da filosofia, não do desenho experimental próprio da psicologia social do século XX.