O exercício de vinte minutos que Erich Fromm propunha antes de tentar amar melhor
Erich Fromm não acreditava que o amor fosse um talento com que se nasce ou não se nasce. Considerava-o uma arte, e como qualquer arte, defendia que exige treino prévio, não apenas boa intenção.
No último capítulo de A Arte de Amar (1956), o psicanalista Erich Fromm muda de registo. Depois de dedicar quase todo o livro à teoria, pergunta a si mesmo algo mais incómodo: o que se pode praticar, no dia a dia, para nos aproximarmos de um amor mais maduro? A sua resposta começa longe do amor em si.
Três condições que, segundo Fromm, todas as artes partilham
Fromm argumenta que qualquer arte (a carpintaria, a medicina, a música, o amor) exige três condições ainda antes de começarmos a praticá-la:
- Disciplina. Não a disciplina imposta de fora, mas a que se torna parte da própria rotina diária, sem depender de estarmos “com vontade”.
- Concentração. A capacidade de dedicar a atenção completa a uma única coisa de cada vez, numa cultura que Fromm descreve como especialmente dispersa: lê-se, ouve-se, fala-se e come-se ao mesmo tempo.
- Paciência. Aceitar que dominar algo leva tempo, num mundo que, segundo Fromm, valoriza a rapidez acima de quase tudo o resto.
Nenhuma das três, assinala, tem que ver diretamente com o amor. São condições gerais, prévias, comuns a qualquer disciplina que se queira dominar de verdade.
Aprender a estar sozinho, antes de acompanhar alguém
O passo que Fromm mais detalha, e o que mais pode surpreender num livro sobre o amor, é este: aprender a estar sozinho consigo mesmo, sem fazer mais nada. Sem ler, sem ouvir rádio, sem fumar, sem qualquer distração com que preencher o silêncio.
Fromm defende que essa capacidade é, de forma paradoxal, uma condição para amar bem. Se alguém não conseguir sustentar-se sozinho, argumenta, tenderá a agarrar-se a outra pessoa como quem se agarra a um salva-vidas, e isso, segundo a sua definição, não é amor: é dependência disfarçada de amor.
O exercício concreto que descreve no livro
Fromm não fica pela teoria. Descreve um exercício de concentração muito específico, inspirado em técnicas de meditação oriental, que recomenda praticar cerca de vinte minutos de manhã e outros vinte à noite:
- Sentar-se numa posição descontraída, nem completamente rígida nem completamente relaxada.
- Fechar os olhos e imaginar um ecrã em branco à frente da vista, afastando qualquer imagem ou pensamento que interrompa.
- Seguir a própria respiração sem a forçar nem pensar ativamente nela, apenas percebendo-a.
- Tentar sentir o próprio “eu” como centro das próprias forças e como criador do próprio mundo, não como espetador passivo do que acontece à volta.
Fromm avisa que o exercício, ao princípio, é incómodo. É habitual, escreve, sentir inquietação, tédio ou a tentação de o abandonar por parecer inútil. Compara-o à paciência de uma criança que aprende a andar: cai vezes sem conta, e continua a tentar sem dramatizar a queda, até que um dia anda sem sequer pensar nisso.
Escutar de verdade, e evitar a companhia de “zombis”
A concentração, para Fromm, não termina no exercício da manhã. Estende-se à forma como se fala com os outros. Distingue entre dois tipos de conversa:
- A conversa genuína, em que duas pessoas falam de algo (importante ou trivial) sentindo realmente o que dizem.
- A conversa trivial, em que se repetem lugares-comuns e clichés, mesmo que o tema tratado seja, na aparência, sério ou transcendente.
Fromm chega a recomendar evitar o que chama, com uma expressão marcante para 1956, a companhia de “zombis”: pessoas cuja alma parece apagada mesmo que o corpo continue ativo, que falam por falar em vez de pensar no que dizem. E aponta algo interessante sobre escutar: a maioria das pessoas ouve os outros sem escutar de verdade, e por isso as conversas lhes resultam esgotantes. Escutar com atenção completa, sustenta, cansa menos a longo prazo do que fingir que se escuta.
O arqueiro zen que começa a respirar, não a disparar
Para explicar porque é preciso treinar algo que parece não ter relação direta com a arte final, Fromm recorre a um exemplo que retira do livro Zen na Arte do Tiro com Arco, do alemão Eugen Herrigel. Um aprendiz dessa disciplina não começa a disparar flechas: começa com exercícios de respiração, muito antes de tocar num arco.
Da mesma forma, argumenta Fromm, quem quiser aproximar-se da arte de amar não deveria começar por procurar diretamente a pessoa “certa”. Deveria começar por algo mais básico e menos vistoso: treinar a capacidade de estar presente, com atenção completa, em qualquer coisa que faça, incluindo estar sozinho consigo mesmo.
Uma base, não um atalho
Fromm é claro ao dizer que este exercício não ensina a amar por si só, tal como respirar de certa forma não transforma ninguém em arqueiro. Descreve-o como uma base: a disciplina, a concentração e a paciência treinadas no dia a dia, segundo a sua teoria, acabam por se notar depois em como alguém escuta, como acompanha e como sustenta um vínculo, da mesma forma que se nota na história de Jonas que amar e ocupar-se ativamente de algo são, para Fromm, a mesma coisa.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Fromm era mestre de meditação?
Não. Era psicanalista e filósofo. Apoiou-se em práticas orientais de concentração, e em particular no livro Zen na Arte do Tiro com Arco, de Eugen Herrigel, como referência para ilustrar a sua própria teoria sobre a disciplina e a concentração.
Este exercício substitui a meditação com base científica atual?
Não. É uma proposta formulada em 1956, dentro de um ensaio filosófico e psicanalítico, não um protocolo clínico. Quem procurar uma prática de meditação com apoio de investigação atual encontrará abordagens diferentes e mais estudadas, como o mindfulness clínico.
Porque é que Fromm relaciona a concentração com a capacidade de amar?
Porque, segundo a sua teoria, a capacidade de estar sozinho consigo mesmo sem ansiedade é, paradoxalmente, uma condição prévia para poder acompanhar outra pessoa sem dela depender como se fosse um salva-vidas.
Fromm dizia que falar de temas do dia a dia é sempre uma conversa trivial?
Não. Distinguia a trivialidade não pelo tema, mas por a conversa ser vivida de verdade ou repetida de forma mecânica e em lugares-comuns, mesmo que o tema tratado fosse, na aparência, profundo.