A parábola de Jonas: porque é que Erich Fromm dizia que amar é um trabalho, não um sentimento
Para Erich Fromm, amar não é sentir algo por alguém: é ocupares-te, de forma ativa e sustentada, de que essa pessoa, essa ideia ou essa causa cresça.
O psicanalista alemão dedicou boa parte de A Arte de Amar (1956) a desmontar a ideia de que amar é algo que simplesmente “acontece”.
Para explicar um dos quatro elementos que, segundo ele, sustentam qualquer forma de amor (o cuidado), escolheu um relato bíblico pouco habitual em teoria psicológica: a história de Jonas.
Jonas, o homem que fugia de amar
Deus pede a Jonas que vá a Nínive avisar os seus habitantes de que serão castigados se não mudarem de conduta.
Jonas foge em direção contrária. Não por medo do fracasso, mas pelo oposto: teme que a missão resulte, que o povo de Nínive se arrependa e Deus os perdoe.
Acaba no ventre de um grande peixe (a tradição transformou-o em baleia), um símbolo, segundo a leitura de Fromm, do isolamento a que o condena a sua própria falta de amor.
Quando finalmente chega a Nínive e prega, acontece exatamente o que temia: a cidade arrepende-se e Deus perdoa-a. Jonas fica zangado. Queria justiça, não misericórdia.
Senta-se à sombra de uma planta que Deus fez crescer para o proteger do sol (a aboboreira). Quando a planta seca, Jonas afunda-se na queixa.
E é aí que chega a resposta que Fromm cita como chave de todo o relato: Deus diz-lhe que, se ele se importa com uma planta que não plantou nem cuidou, com muito mais razão se deveria importar com uma cidade de mais de cento e vinte mil pessoas.
A leitura de Fromm: a Jonas não faltava fé, faltava-lhe amor
Fromm descreve Jonas como um homem com um forte sentido da ordem e da lei, mas sem amor.
Sabe o que está certo e o que está errado. O que não sabe fazer é ocupar-se de que algo ou alguém cresça, mesmo quando esse crescimento não o beneficia nem lhe dá razão.
Dessa leitura extrai uma das suas frases mais citadas sobre o amor:
Ama-se aquilo por que se trabalha, e trabalha-se por aquilo que se ama.
Erich Fromm, A Arte de Amar
Não é uma frase decorativa. É, para Fromm, uma definição de trabalho: o amor e o esforço sustentado não são duas coisas distintas que às vezes coincidem, são a mesma coisa vista de dois ângulos.
O cuidado, primeiro ingrediente do amor segundo Fromm
Fromm ilustra a ideia com um exemplo doméstico, quase provocador na sua simplicidade:
- Se uma mulher diz que ama as flores, mas se esquece de as regar, não acreditamos no seu amor pelas flores, por mais que o repita.
- Se alguém diz que ama os animais, mas não se ocupa do seu bem-estar, acontece exatamente o mesmo.
- Nenhuma declaração de amor de uma mãe seria credível se, ao mesmo tempo, descurasse sistematicamente a criança.
Daí vem a sua definição: o cuidado é “a preocupação ativa com a vida e o crescimento daquilo que amamos”. Quando essa preocupação ativa falta, não há amor, por intensa que seja a emoção que se sente.
A palavra-chave é ativa. Fromm distingue entre o amor como afeto passivo (algo que nos acontece, como sentir frio) e o amor como atividade (algo que fazemos, como aprender uma língua).
Jonas sente muitas coisas ao longo do relato (medo, raiva, autocomiseração), mas em nenhum momento age a partir do cuidado.
Responsabilidade: a outra face do cuidado
Muito ligado ao cuidado está o que Fromm chama responsabilidade, entendida no seu sentido mais literal: a capacidade de “responder” às necessidades de outro, expressas ou não.
Para a explicar, Fromm recorre a outra figura bíblica, Caim, que pergunta: “Sou eu o guardião do meu irmão?”.
Essa pergunta, assinala Fromm, já contém a resposta: quem ama não precisa de a fazer, porque sente a vida do outro como assunto próprio, não como um fardo externo e imposto.
Porque é que esta distinção continua a ser útil hoje
A ideia de Fromm ajuda a distinguir duas coisas que muitas vezes se confundem numa relação, seja de casal, de amizade ou de família:
- Sentir carinho intenso por alguém num dado momento.
- Sustentar esse cuidado de forma constante, também quando não há recompensa emocional imediata em troca.
A psicologia das relações chegou a algo parecido por outro caminho. O seu conceito central é a responsividade percebida: a sensação de que a outra pessoa compreende, valoriza e atende àquilo de que precisamos. Num estudo de diário com 67 casais que viviam juntos, Maisel e Gable (2009) observaram que o apoio recebido só se associava a menos tristeza, menos ansiedade e melhor qualidade da relação quando era responsivo, ou seja, ajustado àquilo de que a pessoa precisava. Ajudar sem atender ao que o outro precisa não produzia esses benefícios.
É quase uma tradução empírica da “responsabilidade” de Fromm: não basta sentir carinho nem fazer coisas por alguém; o que importa é responder àquela pessoa concreta. Fromm chegou à ideia a partir de um relato com mais de dois mil anos, muito antes de essa investigação existir, e o seu livro é um ensaio, não um estudo: a coincidência é de fundo, não uma confirmação ponto por ponto.
Uma ideia, não uma receita
Fromm é explícito ao dizer que o seu livro não oferece receitas de “como amar melhor” em cinco passos.
O que propõe é uma mudança de olhar: deixar de perguntar a quem amo o suficiente e começar a perguntar do que me estou a ocupar ativamente neste momento.
É uma distinção incómoda, porque desloca o foco da emoção (algo que nem sempre se controla) para a ação (algo que depende, pelo menos em parte, de nós próprios).
A história de Jonas não aparece em A Arte de Amar como uma curiosidade religiosa. Aparece porque, segundo Fromm, resume melhor do que qualquer definição técnica a diferença entre sentir algo por alguém e comprometermo-nos com que esse algo, ou esse alguém, cresça.
Fontes
- Fromm, E. (1956). The Art of Loving. Harper & Brothers.
- Maisel, N. C. e Gable, S. L. (2009). The paradox of received social support: The importance of responsiveness. Psychological Science, 20(8), 928-932. https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2009.02388.x
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Fromm era teólogo?
Não. Erich Fromm (1900-1980) era psicanalista e filósofo social, formado na tradição freudiana e no pensamento humanista. Em A Arte de Amar (1956) recorre muitas vezes a relatos bíblicos como material simbólico, não como doutrina religiosa.
O que significa exatamente 'cuidado' na teoria de Fromm sobre o amor?
Fromm descreve-o como a preocupação ativa com a vida e o crescimento daquilo que se ama, distinta de sentir afeto ou dizer que se ama algo sem se ocupar disso.
O cuidado é o único ingrediente do amor segundo Fromm?
Não. Fromm descreve quatro elementos interdependentes: cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. O cuidado é o que ilustra com a história de Jonas, mas os quatro precisam uns dos outros.
Esta ideia aplica-se só ao amor de casal?
Segundo a própria formulação de Fromm, não: descreve-a como um elemento comum a todas as formas de amor, desde o amor a outra pessoa até ao amor a um projeto, uma ideia ou uma comunidade.