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Relações e vida social

A parábola de Jonas: porque é que Erich Fromm dizia que amar é um trabalho, não um sentimento

Por Rafa Personaramic4 min de leitura
Ilustração minimalista de uma planta a crescer junto de uma baleia geométrica

Para Erich Fromm, amar não é sentir algo por alguém: é ocupares-te, de forma ativa e sustentada, de que essa pessoa, essa ideia ou essa causa cresça.

O psicanalista alemão dedicou boa parte de A Arte de Amar (1956) a desmontar a ideia de que amar é algo que simplesmente “acontece”. Para explicar um dos quatro elementos que, segundo ele, sustentam qualquer forma de amor (o cuidado), escolheu um relato bíblico pouco habitual em teoria psicológica: a história de Jonas.

Jonas, o homem que fugia de amar

Deus pede a Jonas que vá a Nínive avisar os seus habitantes de que serão castigados se não mudarem de conduta. Jonas foge em direção contrária. Não por medo do fracasso, mas pelo oposto: teme que a missão resulte, que o povo de Nínive se arrependa e Deus os perdoe.

Acaba na barriga de uma baleia, um símbolo, segundo a leitura de Fromm, do isolamento a que o condena a sua própria falta de amor. Quando finalmente chega a Nínive e prega, acontece exatamente o que temia: a cidade arrepende-se e Deus perdoa-a. Jonas fica zangado. Queria justiça, não misericórdia.

Senta-se à sombra de uma planta que Deus fez crescer para o proteger do sol. Quando a planta seca, Jonas afunda-se na queixa. E é aí que chega a resposta que Fromm cita como chave de todo o relato: Deus diz-lhe que, se ele se importa com uma planta que não plantou nem cuidou, com muito mais razão se deveria importar com uma cidade de mais de cento e vinte mil pessoas.

A leitura de Fromm: a Jonas não faltava fé, faltava-lhe amor

Fromm descreve Jonas como um homem com um forte sentido da ordem e da lei, mas sem amor. Sabe o que está certo e o que está errado. O que não sabe fazer é ocupar-se de que algo ou alguém cresça, mesmo quando esse crescimento não o beneficia nem lhe dá razão.

Dessa leitura extrai uma das suas frases mais citadas sobre o amor:

Ama-se aquilo por que se trabalha, e trabalha-se por aquilo que se ama.

Não é uma frase decorativa. É, para Fromm, uma definição de trabalho: o amor e o esforço sustentado não são duas coisas distintas que às vezes coincidem, são a mesma coisa vista de dois ângulos.

O cuidado, primeiro ingrediente do amor segundo Fromm

Fromm ilustra a ideia com um exemplo doméstico, quase provocador na sua simplicidade:

  • Se uma mulher diz que ama as flores, mas se esquece de as regar, não acreditamos no seu amor pelas flores, por mais que o repita.
  • Se alguém diz que ama os animais, mas não se ocupa do seu bem-estar, acontece exatamente o mesmo.
  • Nenhuma declaração de amor de uma mãe seria credível se, ao mesmo tempo, descurasse sistematicamente a criança.
  • O cuidado, escreve Fromm, é “a preocupação ativa com a vida e o crescimento daquilo que amamos”. Quando essa preocupação ativa falta, não há amor, por intensa que seja a emoção que se sente.

A palavra-chave é ativa. Fromm distingue entre o amor como afeto passivo (algo que nos acontece, como sentir frio) e o amor como atividade (algo que fazemos, como aprender uma língua). Jonas sente muitas coisas ao longo do relato (medo, raiva, autocomiseração), mas em nenhum momento age a partir do cuidado.

Responsabilidade: a outra face do cuidado

Muito ligado ao cuidado está o que Fromm chama responsabilidade, entendida no seu sentido mais literal: a capacidade de “responder” às necessidades de outro, expressas ou não.

Fromm compara Jonas a outra figura bíblica, Caim, que pergunta: “Sou eu o guardião do meu irmão?”. Essa pergunta, assinala Fromm, já contém a resposta: quem ama não precisa de a fazer, porque sente a vida do outro como assunto próprio, não como um fardo externo e imposto.

Porque é que esta distinção continua a ser útil hoje

A ideia de Fromm ajuda a distinguir duas coisas que muitas vezes se confundem numa relação, seja de casal, de amizade ou de família:

  • Sentir carinho intenso por alguém num dado momento.
  • Sustentar esse cuidado de forma constante, também quando não há recompensa emocional imediata em troca.

A investigação sobre amizade e apoio emocional chega a um ponto parecido por outro caminho: o que se recorda de um vínculo próximo não costuma ser a intensidade de um momento pontual, mas a constância da atenção sustentada no tempo. Fromm chegou a uma conclusão semelhante por outro caminho, o de um relato com mais de dois mil anos, muito antes de essa investigação existir.

Uma ideia, não uma receita

Fromm é explícito ao dizer que o seu livro não oferece receitas de “como amar melhor” em cinco passos. O que propõe é uma mudança de olhar: deixar de perguntar a quem amo o suficiente e começar a perguntar do que me estou a ocupar ativamente neste momento. É uma distinção incómoda, porque desloca o foco da emoção (algo que nem sempre se controla) para a ação (algo que sim depende, pelo menos em parte, de nós próprios).

A história de Jonas não aparece em A Arte de Amar como uma curiosidade religiosa. Aparece porque, segundo Fromm, resume melhor do que qualquer definição técnica a diferença entre sentir algo por alguém e comprometermo-nos com que esse algo, ou esse alguém, cresça.

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Perguntas frequentes

Fromm era teólogo?

Não. Erich Fromm (1900-1980) era psicanalista e filósofo social, formado na tradição freudiana e no pensamento humanista. Em A Arte de Amar (1956) recorre muitas vezes a relatos bíblicos como material simbólico, não como doutrina religiosa.

O que significa exatamente 'cuidado' na teoria de Fromm sobre o amor?

Fromm descreve-o como a preocupação ativa com a vida e o crescimento daquilo que se ama, distinta de sentir afeto ou dizer que se ama algo sem se ocupar disso.

O cuidado é o único ingrediente do amor segundo Fromm?

Não. Fromm descreve quatro elementos interdependentes: cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. O cuidado é o que ilustra com a história de Jonas, mas os quatro precisam uns dos outros.

Esta ideia aplica-se só ao amor de casal?

Segundo a própria formulação de Fromm, não: descreve-a como um elemento comum a todas as formas de amor, desde o amor a outra pessoa até ao amor a um projeto, uma ideia ou uma comunidade.