A mulher que se apagava como um motor sem combustível quando o marido viajava
Uma paciente de Walter Riso deixava de comer, de se vestir e até de se levantar da cama sempre que o marido viajava. Não por tristeza ou saudade, segundo explicava ela própria, mas por algo mais parecido a ficar sem energia.
Em Amar ou Depender? (2003), o psicólogo Walter Riso descreve um fenómeno que distingue com cuidado da simples nostalgia ou tristeza por uma ausência: a perda de autoeficácia, ou seja, a confiança na própria capacidade para funcionar sem ajuda externa.
Um caso descrito quase como uma avaria mecânica
Riso conta o caso de uma mulher que, literalmente, “se desliga” quando o marido está de viagem. O seu metabolismo, nas palavras do próprio autor, “entra em pausa”. Há dias em que nem sequer se levanta da cama. Não sai, não vê televisão, não visita a mãe, não recebe ninguém e descura por completo a alimentação e a aparência.
Riso é explícito ao esclarecer que isto não é depressão nem nostalgia pela distância: é ausência de energia, “como um carro sem gasolina”. Quando a própria paciente tentava explicá-lo, dizia algo parecido com isto: sem o marido presente, as coisas que fazia deixavam de ter sentido; podia resolver um problema, mas preferia esperar que ele telefonasse ou tratasse do assunto quando chegasse.
Porque é que isto não é simplesmente “gostar muito”
Riso separa com cuidado duas coisas que costumam confundir-se: sentir falta de alguém e perder a capacidade de funcionar sem essa pessoa. A primeira é uma experiência emocional comum em qualquer vínculo próximo. A segunda é, segundo o seu enquadramento, um sintoma de que boa parte da autoeficácia pessoal se transferiu, com o tempo, para a outra pessoa.
O mecanismo que descreve funciona como um círculo que se retroalimenta:
- Quanto mais se delega no par a resolução da vida diária, menos confiança resta na própria capacidade para a resolver.
- Essa menor confiança empurra a delegar ainda mais, até que assumir quase nada pareça possível sem supervisão.
- Tarefas simples (levar o carro à oficina, telefonar a um eletricista, reservar um bilhete) começam a sentir-se como obstáculos sérios, não pela sua dificuldade real, mas pela falta de prática em resolvê-las sem ajuda.
Sócrates no mercado, dois mil e quatrocentos anos antes
Para propor uma alternativa a este esquema, Riso recorre a uma anedota muito mais antiga do que a própria psicologia clínica. Segundo recolhe Diógenes Laércio na sua obra Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, Sócrates entrou um dia num mercado cheio de mercadorias e ficou a observar, durante bastante tempo e com atenção, cada um dos artigos expostos.
Quando lhe perguntaram porque parecia tão surpreendido, respondeu com uma frase que Riso resgata como exemplo de liberdade pessoal:
“Estou fascinado. Quantas coisas de que não preciso!”
A ideia que Riso extrai dessa anedota é clara: quantas menos necessidades indispensáveis tiver uma pessoa (materiais ou afetivas), mais livre é, não porque deixe de desfrutar do que tem, mas porque nada do que tem se torna uma condição para poder viver com normalidade.
A autonomia não é o oposto do amor
Riso é cuidadoso num ponto que convém sublinhar: a autonomia, tal como a coloca, não consiste em deixar de precisar de afeto nem em isolar-se do par. Consiste em algo mais concreto:
- Poder resolver a vida quotidiana (trabalho, tratar de assuntos, pequenas decisões) sem depender de que a outra pessoa esteja disponível para isso.
- Manter interesses, atividades e vínculos próprios que não dependam por completo da presença do outro.
- Ser capaz de estar sozinho sem que isso implique deixar de funcionar, algo parecido com o que Erich Fromm descreve, a partir de outra tradição teórica, na sua ideia de que aprender a estar sozinho é uma condição para amar bem.
Nenhuma destas três coisas, assinala Riso, entra em conflito com amar profundamente alguém. O que entra em conflito com o amor, segundo o seu enquadramento, é depender tanto da presença do outro que a própria vida, literalmente, se detenha na sua ausência. Entre “precisar muito de alguém” e “não conseguir funcionar sem essa pessoa” há, como mostra este caso, uma diferença muito mais profunda do que parece à primeira vista.
Como se recupera a autoeficácia perdida
Riso propõe que a autoeficácia não se recupera com uma decisão pontual, mas com a acumulação de pequenas provas de que a própria pessoa consegue resolver as coisas:
- Encarregar-se de assuntos do dia a dia que antes eram delegados por completo no par, ainda que ao princípio pareçam incómodos.
- Sustentar, ainda que com esforço, uma atividade, uma amizade ou um interesse próprio que não dependa da disponibilidade do outro.
- Tolerar o mal-estar inicial de uma ausência sem se apressar a preenchê-lo com uma chamada ou uma mensagem imediata.
Nenhuma destas ações resolve o problema de uma só vez. Mas cada uma, segundo o raciocínio de Riso, atua como uma pequena prova contra a crença de fundo (“não sou capaz de cuidar de mim próprio”) que sustenta este tipo de apego.
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Perguntas frequentes
É habitual que a dependência afetiva afete o funcionamento diário de uma pessoa, tal como descreve este caso?
Walter Riso apresenta-o como um caso ilustrativo da sua prática clínica, não como a norma geral de toda a dependência afetiva, que segundo o seu enquadramento tem graus e intensidades muito variáveis.
A anedota de Sócrates é historicamente exata?
Provém de Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio, escrita vários séculos depois da vida de Sócrates. Como acontece com boa parte das anedotas antigas sobre filósofos gregos, a sua literalidade histórica não pode confirmar-se, ainda que seja uma das mais citadas para ilustrar a sua forma de entender a liberdade pessoal.
Riso relaciona isto com não precisar de ninguém de todo?
Não. Distingue explicitamente entre a autonomia, que descreve como a capacidade de resolver a própria vida sem depender de outra pessoa para funcionar, e o isolamento ou a incapacidade de nos vincularmos afetivamente.
O que é a 'autoeficácia' neste contexto?
A confiança de uma pessoa na sua própria capacidade para resolver os problemas do dia a dia da sua vida. Riso relaciona-a diretamente com o grau de dependência afetiva que alguém pode chegar a desenvolver.