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Relações e vida social

'Amo-te porque preciso de ti' ou 'Preciso de ti porque te amo': a frase de Erich Fromm sobre o amor maduro

Por Rafa Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista de duas figuras geométricas, uma pequena dentro de outra maior, a separarem-se

Erich Fromm resumiu a diferença entre o amor infantil e o amor maduro em quatro frases muito curtas. Cabe cada uma numa linha, e entre a primeira e a última há, segundo a sua teoria, toda uma vida de desenvolvimento emocional.

Em The Art of Loving (1956), o psicanalista Erich Fromm defende que amar não é uma capacidade que se tem ou não se tem desde o início. É algo que se desenvolve por etapas, da mesma forma que se desenvolve a linguagem ou o pensamento abstrato. E propôs uma forma muito concreta de reconhecer em que ponto desse desenvolvimento alguém se encontra.

As quatro frases

Fromm apresenta-as em pares, uma infantil e o seu equivalente maduro:

  • Amor infantil: “Amo porque me amam.”
  • Amor maduro: “Amam-me porque amo.”
  • Amor erótico imaturo: “Amo-te porque preciso de ti.”
  • Amor erótico maduro: “Preciso de ti porque te amo.”

A diferença parece subtil, quase um jogo de palavras. Não é. Cada frase descreve uma relação de causa e efeito completamente distinta.

Porque é que a ordem das palavras muda tudo

Na versão infantil, o amor é uma resposta. A criança não ama primeiro: recebe amor, e a partir dessa experiência aprende a corresponder com gratidão e alegria. O amor dos outros chega antes; o seu é apenas um reflexo.

Na versão madura, o amor torna-se uma origem, não uma resposta. A pessoa não precisa de ser amada primeiro para começar a amar. E, segundo Fromm, é precisamente essa capacidade de dar sem ter recebido antes que faz com que, com o tempo, acabe por ser correspondida: “amam-me porque amo”, não ao contrário.

O mesmo acontece com o amor erótico. “Amo-te porque preciso de ti” coloca a carência no centro: amo porque me falta algo e tu preenches-lo. “Preciso de ti porque te amo” inverte a lógica: a necessidade nasce do amor, não o substitui nem o antecede.

O momento exato em que isto começa a mudar

Fromm situa a primeira viragem, apoiando-se no psiquiatra Harry Stack Sullivan, entre os oito anos e meio e os dez. Até essa idade, a criança vive o amor quase exclusivamente como algo que recebe: sente-se amada pelo que é, não pelo que faz.

A partir daí, acontece algo novo. Pela primeira vez, a criança começa a pensar em dar algo aos pais, não só em receber deles. Um desenho. Um poema desajeitado. Uma flor apanhada a caminho de casa. Fromm descreve-o como o instante em que a ideia de amor se transforma: de “ser amado” para “amar”, de receber para criar amor com a própria atividade.

Esse primeiro gesto, diz Fromm, costuma ser modesto e pouco hábil. O importante não é o resultado, mas a mudança de direção: é a primeira vez que a criança experimenta o amor como algo que produz, não apenas como algo que consome.

Da criança ao adulto: o que muda de facto

Com os anos, se esse desenvolvimento continuar, a pessoa adulta chega a um ponto que Fromm descreve com uma frase que resume todo o processo: “Dar é mais satisfatório, mais feliz do que receber; amar, ainda mais importante do que ser amado.”

Isto não significa que deixar de precisar de alguém seja o objetivo. Fromm não descreve a maturidade como independência total nem como frieza emocional. Descreve algo mais concreto:

  • Passar de esperar amor a ser capaz de o gerar com a própria conduta.
  • Passar de precisar de alguém para se sentir completo a escolher alguém a partir de uma vida já sustentada por si próprio.
  • Passar de um vínculo que depende de receber constantemente provas de afeto a um que também as oferece sem levar a conta.

Aquilo a que Fromm chama impotência afetiva

Fromm acrescenta uma ideia incómoda a esta escada de maturidade: se o amor de alguém nunca desperta amor de volta, ou seja, se essa pessoa não consegue gerar nos outros nem um mínimo do que ela própria dá, não fala de azar, mas daquilo a que chama “impotência” no amor. Retira a palavra de Karl Marx, que escreveu que amar sem produzir amor, sem se tornar alguém amado pelo simples facto de amar, transforma esse amor numa desgraça.

Não é um juízo moral sobre quem não recebe afeto num momento pontual. É uma observação diferente: para Fromm, o amor maduro não é só uma emoção interior, é também uma força com efeito sobre o outro. Amar de verdade, sustenta, quase sempre desperta algo parecido na pessoa que o recebe, ainda que só com o tempo. Quando isso nunca acontece, em nenhum vínculo, pode ser um sinal de que o amor que se está a dar responde mais ao primeiro par de frases (o infantil) do que ao segundo.

Um enquadramento, não uma etiqueta

Fromm não propõe estas quatro frases como um teste para classificar ninguém de forma definitiva. Apresenta-as como um mapa de desenvolvimento: a maioria das pessoas move-se entre as duas versões consoante o vínculo, o momento de vida ou até o dia. O interessante da sua proposta não é decidir em que frase alguém encaixa, mas reparar em qual das duas predomina, o que diz algo real sobre como se está a viver um vínculo concreto.

A psiquiatria do desenvolvimento infantil que Fromm cita, a de Sullivan, e a investigação posterior sobre vinculação, que estuda como a segurança recebida na infância influencia a forma adulta de se ligar, coincidem em algo parecido: aquilo que se aprende em criança sobre o amor não desaparece, transforma-se. A pergunta que Fromm deixa em aberto é em que direção se transformou, e se continua em movimento.

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Perguntas frequentes

A idade dos 8 aos 10 anos que Fromm menciona é uma cifra exata?

Fromm retira-a, com essa aproximação, de Harry Stack Sullivan e da sua obra The Interpersonal Theory of Psychiatry (1953). Descreve-a como uma etapa orientadora do desenvolvimento infantil, não como um limiar fixo idêntico para qualquer criança.

Um adulto que diz 'preciso de ti porque te amo' nunca sente também a necessidade do outro tipo?

Fromm não nega que existam ambos os componentes na maioria dos vínculos. A distinção que propõe é sobre qual dos dois predomina e sustenta a relação ao longo do tempo.

Isto tem relação com as teorias da vinculação?

São enquadramentos distintos, com origens académicas separadas: Fromm parte da psicanálise e da filosofia humanista, a teoria da vinculação de Bowlby e Ainsworth parte da observação etológica infantil. Ambos coincidem em que a segurança recebida na infância influencia a forma adulta de amar.

'Amor infantil' significa que há algo de errado em precisar de alguém?

Não segundo Fromm: a necessidade de vínculo é universal e não desaparece com a maturidade. O que distingue, na sua teoria, é se essa necessidade substitui a capacidade de dar, ou convive com ela.