A mulher que não conseguia dormir sem um abraço: a que nos agarramos de verdade numa má relação
Walter Riso conta o caso de uma mulher que não conseguia separar-se do marido (viciado em cocaína e bissexual assumido) apesar de já não ter amor, filhos nem motivos económicos para continuar com ele. O motivo real demorou semanas a aparecer, e era muito mais pequeno do que qualquer um poderia imaginar.
Em Amar ou Depender? (2003), o psicólogo colombo-argentino Walter Riso coloca uma pergunta incómoda sobre as relações que fazem mal e, ainda assim, não se rompem: o que é exatamente que a pessoa não está disposta a perder? Quase nunca é a relação inteira. Costuma ser um pormenor muito concreto.
Uma paciente sem motivos aparentes para ficar
Riso descreve uma mulher de trinta e dois anos que há muito tentava decidir se dava ao seu casamento uma última oportunidade (a nona ou a décima, segundo as suas próprias contas) ou se se ia embora de vez. Não havia filhos envolvidos. Tinha uma boa posição económica própria. Não existiam impedimentos religiosos nem morais.
O marido, além disso, apresentava dois problemas sérios e documentados: consumia cocaína e era bissexual, algo que ele próprio reconhecia abertamente. Durante várias semanas de consulta, Riso tentou localizar que prazer ou que segurança poderia essa mulher estar a retirar de uma relação com um custo tão elevado. Nada encaixava.
O pormenor que apareceu quase sem querer
A resposta chegou de forma casual, a meio de uma sessão, quando a paciente comentou que passava dias sem conseguir dormir bem à noite. Explicou que não era medo de assaltantes nem nada parecido: precisava que alguém a abraçasse por trás enquanto dormia. Rodeava-se de almofadas para simular essa sensação quando estava sozinha, como quem constrói um abrigo improvisado.
Esse pormenor, aparentemente menor, revelou-se a chave de toda a relação. O contacto físico noturno, ainda que viesse de uma pessoa com quem já mal partilhava mais nada, dava-lhe a tranquilidade suficiente para adormecer. Uma pitada de bem-estar bastava para compensar, na sua cabeça, uma vida inteira de mal-estar.
Porque é que um único gesto pode sustentar toda uma relação
Riso explica este mecanismo com uma comparação tirada da literatura, não da psicologia: a célebre frase de Ricardo III, de Shakespeare, “o meu reino por um cavalo”. Fora de contexto, trocar um reino inteiro por um simples cavalo parece um disparate. Mas no campo de batalha, a pé, cercado e sem escapatória, esse cavalo é a única coisa que separa um rei da morte. A troca, então, deixa de ser absurda.
Com o apego afetivo, segundo Riso, acontece algo parecido:
- A pessoa não avalia a relação como um todo, mas sim o vazio concreto que a sua ausência deixaria.
- Esse vazio pode ser tão específico como não ter quem nos abrace para dormir, não ter com quem não nos sentirmos sozinhos em casa, ou não ter alguém que valide uma necessidade muito pontual.
- Quanto mais desesperada é a situação de fundo (solidão, medo, baixa autoeficácia), mais pequeno pode ser o benefício que basta para justificar ficar.
O “défice” por detrás deste tipo de apego
Riso enquadra este caso dentro do que chama apego à segurança e à proteção, e resume-o com uma fórmula muito direta:
- Défice: baixa autoeficácia, ou seja, a crença de “não sou capaz de cuidar de mim próprio”.
- Medo: do desamparo e da desproteção, mais do que do desamor em si.
- Apego: não à pessoa em concreto, mas a qualquer fonte disponível dessa sensação de segurança.
Segundo o seu enquadramento, este tipo de apego não procura entusiasmo nem paixão, procura calma. Não é uma questão de excitação, mas de alívio. Por isso pode sustentar-se mesmo em relações frias, distantes ou prejudiciais: basta que a outra pessoa esteja fisicamente presente e acessível para que a necessidade fique, pelo menos parcialmente, coberta.
Uma pista, não um diagnóstico
Riso não propõe este caso como uma regra geral nem como forma de julgar quem decide ficar numa relação complicada. Apresenta-o como uma pista útil para colocar uma pergunta diferente da habitual. Em vez de perguntar “porque não me vou embora?”, sugere perguntar algo mais concreto: “o que é, exatamente, que não estou disposto ou disposta a perder?”
Às vezes a resposta é de facto o amor. Mas, segundo descreve Riso a partir da sua experiência clínica, muitas outras vezes a resposta acaba por ser muito mais pequena, mais concreta e mais fácil de conseguir por outro caminho do que parecia ao princípio, algo próximo do que Erich Fromm descreve, a partir de outra tradição teórica, na sua distinção entre cuidar de alguém e transmitir-lhe alegria de viver: nem toda a forma de bem-estar recebido dentro de uma relação equivale, na realidade, a estarmos bem acompanhados.
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Perguntas frequentes
O 'apego' de que fala Walter Riso é o mesmo que a teoria da vinculação de Bowlby?
Não, ainda que partilhem nome. Bowlby e Ainsworth estudam o vínculo biológico entre crianças e cuidadores. Riso usa 'apego afetivo' para se referir à dependência psicológica em relação a um par adulto, uma distinção que o próprio autor assinala explicitamente no livro.
Precisar de contacto físico para dormir é sempre um sinal de apego problemático?
Segundo o enquadramento de Riso, não por si só. O que descreve como problemático é quando esse único benefício concreto é a única coisa que sustenta uma relação com um custo muito maior, não a necessidade de contacto em si mesma.
De onde tira Riso este caso?
Da sua prática clínica de mais de vinte anos como psicólogo cognitivo-comportamental. Como é habitual neste tipo de literatura, os casos são apresentados de forma anonimizada.
Que relação tem isto com a frase de Shakespeare sobre um cavalo?
Riso usa-a como comparação: a frase 'o meu reino por um cavalo', de Ricardo III, só faz sentido se se entender o contexto (um rei prestes a morrer em batalha). Fora dessa desesperação, trocar tanto por tão pouco pareceria um mau negócio, tal como acontece com certos apegos afetivos.