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Relações e vida social

Relações de bolso: o vínculo que se guarda e se tira quando é preciso

Por Rafa Personaramic7 min de leitura
Ilustração minimalista de um bolso geométrico com um pequeno vínculo guardado dentro

Uma relação de bolso é um vínculo desenhado, desde o primeiro dia, para não crescer: guarda-se no bolso quando não faz falta e tira-se quando faz. Zygmunt Bauman descreve este termo, retirado de um guia matrimonial britânico, para explicar porque é que cada vez mais pessoas preferem um vínculo que possam controlar por completo em vez de um que possam perder.

Em Amor Líquido (2003), o sociólogo Zygmunt Bauman recolhe um termo que circulava entre conselheiros matrimoniais britânicos da época: a relação de bolso. A expressão surge atribuída a Catherine Jarvie, que comentava as opiniões de Gillian Walton, da organização London Marriage Guidance. Chama-se assim, explica Bauman, porque se guarda no bolso para se poder tirar quando faz falta e voltar a guardar quando deixa de fazer. Não é uma metáfora casual: descreve com precisão um tipo de vínculo que milhões de pessoas vivem hoje sem terem um nome claro para o nomear.

A origem: uma resposta a um problema muito concreto

Bauman situa este termo dentro de um fenómeno mais amplo: a ascensão do aconselhamento sentimental na imprensa britânica dos anos noventa e dois mil. As pessoas procuravam estas colunas com um problema que Bauman resume com crueza: queriam desfrutar dos benefícios de uma relação (companhia, proximidade, sexo, afeto) sem carregar com o seu peso (dependência, obrigação, o risco de sofrer se a outra pessoa desiludir). Os conselheiros especializados, dispostos a aconselhar sabendo que a procura de conselhos nunca se esgota, começaram a propor fórmulas para resolver essa contradição. A relação de bolso foi uma das mais populares.

Como reconhecer uma relação de bolso: duas condições e um hábito

Bauman resume, com alguma ironia, o manual de instruções que o próprio guia matrimonial propunha para que uma relação de bolso cumprisse a sua promessa. Não é uma lista de sugestões soltas: funciona como um processo com passos concretos.

  • Passo 1. Começar com total consciência e clareza. Nada de “amor à primeira vista” nem de arrebatamentos repentinos. A relação inicia-se como uma decisão, não como algo que “acontece” a alguém.
  • Passo 2. Manter o controlo em todo o momento. Vigiar para que a relação não “escape à supervisão da cabeça” nem desenvolva a sua própria lógica, e muito menos que ocupe territórios que não lhe correspondem, saindo do bolso a que pertence.
  • Passo 3. Guardá-la de novo quando já não faz falta. O objetivo final, diz Bauman retomando a mesma fonte, é manter sempre “o bolso vazio e disponível”: pronto para a próxima relação de bolso, não para uma que ocupe o seu lugar de forma permanente.

O resultado, quando o processo funciona como previsto, é o que Jarvie descrevia como uma relação “agradável e breve”: agradável, em parte, precisamente por ser breve, já que quem a sustenta sabe que não terá de se esforçar para a manter viva durante muito tempo.

Um exemplo do dia a dia de como isto se vê

Para entender o mecanismo na prática, imaginemos uma situação habitual, não um caso real mas uma ilustração do padrão que Bauman descreve: duas pessoas conhecem-se, gostam uma da outra, começam a ver-se com regularidade. Nenhuma das duas usa a palavra “namorado” ou “namorada”. Nenhuma apresenta a outra como tal. Quando surge uma oportunidade de viagem, trabalho ou mudança que complicaria as coisas, ambas agem como se a relação não existisse como um fator a ter em conta, mesmo que já se vejam há meses todas as semanas. O vínculo continua a ser, na prática, do tamanho exato de um bolso: cabe confortavelmente, não estorva, e ninguém tem de decidir formalmente terminá-lo, porque nunca se decidiu formalmente começá-lo.

As outras metáforas da mesma cultura do conselho

Bauman situa a relação de bolso dentro de um repertório mais amplo de imagens que circulavam na mesma imprensa e nos mesmos consultórios de orientação matrimonial da época, todas empenhadas em resolver a mesma quadratura do círculo: como obter os benefícios de uma relação sem carregar com o seu peso.

  • As relações como a Ribena. Esse concentrado de groselha que no Reino Unido se vende para diluir em água: bebida sem diluir resulta nauseabunda, por isso é preciso rebaixá-la para que seja tolerável, tal como uma relação precisaria de se “diluir” para poder ser consumida sem incómodo.
  • Os “casais abertos”. Apresentados nesses mesmos consultórios como “relações revolucionárias que conseguiram fazer explodir a asfixiante bolha do casal”, uma linguagem que transforma a falta de exclusividade numa conquista, não numa carência.
  • As relações como um carro. Que deve passar revisões periódicas para verificar se ainda vale a pena continuar a usá-lo, em vez de se dar como garantido que continuará a funcionar.

Bauman não cita estas imagens para se rir delas: apresenta-as como sintoma de uma época que precisa de metáforas novas porque o vocabulário antigo do compromisso já não lhe serve para nomear o que realmente quer.

Porque é que o controlo é, na realidade, a parte mais frágil do desenho

O que torna atrativa uma relação de bolso, segundo a leitura de Bauman, é que o seu sucesso depende de uma só pessoa: quem a guarda no bolso. Mais ninguém tem de concordar com os termos para que, desse lado, a relação “funcione”. Mas essa mesma característica é também o seu ponto mais fraco: uma relação de bolso só continua a ser uma relação de bolso enquanto as duas pessoas envolvidas aceitarem, ainda que de forma tácita, jogar exatamente com as mesmas regras e com a mesma intensidade de envolvimento. No momento em que uma das duas começa a sentir algo que não cabe no bolso, todo o desenho deixa de funcionar como previsto, e o que se anunciava como controlo absoluto torna-se numa fonte de conflito que ninguém negociou de antemão, precisamente porque nunca houve uma negociação formal que pudesse ser revista.

O paralelismo com as “situationships” de hoje

O livro de Bauman é de 2003, mais de uma década antes de o termo inglês “situationship” começar a popularizar-se para descrever vínculos afetivos ativos, por vezes com toda a carga emocional e sexual de um casal, mas sem a etiqueta nem o compromisso formal de um. Bauman não usa essa palavra, mas a lógica que descreve é praticamente a mesma: um vínculo pensado para dar alguma proximidade sem obrigar a nada, que ambas as partes podem sustentar exatamente enquanto lhes convier e dar por terminado sem necessidade de uma conversa formal de rutura. O mesmo padrão reaparecer duas décadas depois, sob um nome diferente e num contexto tecnológico completamente diferente (apps em vez de colunas de conselhos num jornal), sugere que não se trata de uma moda passageira, mas sim de uma resposta recorrente a uma mesma tensão estrutural.

O que tem isto a ver com a vinculação

A preferência por vínculos que se possam controlar, delimitar e manter a certa distância emocional liga-se ao que a investigação sobre vinculação descreve como a vinculação evitante: o relativo à-vontade face à independência e o relativo desconforto face à dependência mútua. Nem toda a pessoa que atravessa uma fase de relações breves e sem etiqueta encaixa nesse padrão, mas quando esse formato se torna a única forma possível de se vincular, pode valer a pena perguntar que função cumpre manter sempre o bolso pronto para se esvaziar.

O reverso também aparece descrito, de forma indireta, no próprio texto de Bauman: alguém com um padrão mais próximo da vinculação ansiosa é precisamente quem pode passá-lo pior dentro de uma relação de bolso, ao desejar que o vínculo cresça precisamente no momento em que as regras não escritas dizem que não deve fazê-lo. Quando as duas pessoas envolvidas partem de necessidades tão diferentes, o “bolso” deixa de ser um espaço neutro e torna-se no terreno onde uma pessoa exerce, sem se propor a isso de todo, o controlo que a outra não tem.

Conclusão: um desenho que promete segurança e entrega ambiguidade

A relação de bolso resolve, no papel, um problema real: como ter proximidade sem se expor ao risco de uma relação tradicional. Mas fá-lo transferindo esse risco para outro lugar, não o eliminando. Bauman não oferece uma fórmula para saber quando uma relação de bolso é simplesmente uma fase cómoda e quando se torna numa forma de evitar sistematicamente qualquer vínculo que exija algo mais. O que fica claro é que o tamanho de uma relação não é decidido apenas pelo desenho inicial, mas sim pelo que ambas as pessoas sintam e precisem à medida que o tempo passa, e que nenhum bolso, por bem desenhado que esteja, pode controlar isso indefinidamente.

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Perguntas frequentes

O que é uma 'relação de bolso' segundo Zygmunt Bauman?

Um termo que Bauman recolhe de Catherine Jarvie, comentando a conselheira matrimonial Gillian Walton: um vínculo que se guarda e se tira consoante é preciso, pensado para ser breve, agradável e sem exigências de continuidade.

É o mesmo que uma 'situationship'?

O termo inglês 'situationship' é posterior ao livro de Bauman (2003) e não aparece nele. Descreve, no entanto, uma lógica de vínculo muito parecida: uma relação ativa sem a etiqueta nem o compromisso de uma relação formal.

Bauman apresenta as relações de bolso como algo positivo ou negativo?

Descreve-as com ironia, mostrando tanto o seu atrativo (controlo, baixo esforço, nenhum risco de sofrer por depender de outra pessoa) como o vazio que assinala: uma relação que só se sustenta enquanto ninguém se apegar de verdade a ela.

Preferir vínculos breves e de baixo compromisso relaciona-se com algum estilo de vinculação concreto?

A investigação sobre vinculação associa a preferência pela distância e o baixo compromisso ao estilo evitante, ainda que um padrão de encontros breves e sem etiquetas possa ter motivos muito diferentes consoante a pessoa e o momento de vida.