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Déjà vu: o que acontece realmente ao teu cérebro quando sentes que já viveste este momento

Pela redação do Personaramic7 min de leitura
Ilustração orgânica minimalista de duas formas quase idênticas sobrepostas com um ligeiro desfasamento, como um eco visual

Entras pela primeira vez num café e, de repente, tudo te parece conhecido: a luz, a frase que alguém acabou de dizer, o tilintar da colher. Sabes que é impossível já teres estado ali. E, mesmo assim, o teu cérebro insiste.

Essa mistura de familiaridade e estranheza tem nome: déjà vu, “já visto” em francês.

A psicologia tem para ele uma explicação muito menos mística do que a sua fama. E o curioso é que William James a deixou quase escrita em 1890.

O que é o déjà vu, exatamente?

O psicólogo Alan S. Brown, da Southern Methodist University, publicou em 2003, na Psychological Bulletin, a revisão mais citada sobre o tema. Reuniu mais de um século de inquéritos e estudos de caso.

As conclusões desenham um fenómeno quotidiano, não raro:

  • Cerca de 60% da população diz já o ter vivido.
  • Torna-se menos frequente com a idade.
  • Aparece mais em períodos de stress e cansaço.
  • Associa-se, curiosamente, a níveis mais altos de escolaridade e de estatuto socioeconómico.

A investigação define-o com dois ingredientes: uma sensação forte de “isto já me aconteceu” e, ao mesmo tempo, a certeza de que não pode ser.

A teoria dos dois hemisférios desfasados

James trata o assunto no capítulo sobre a memória dos seus Princípios de Psicologia. Chama-lhe “sentimento de preexistência” e diz, em essência, que todos parecemos já o ter experimentado.

Depois recolhe a teoria mais popular do seu tempo, a do médico britânico Arthur L. Wigan, autor de The Duality of the Mind (1844).

Para Wigan, os dois hemisférios do cérebro funcionariam como dois relógios ligeiramente dessincronizados:

  • Um deles toma consciência da cena uma fração de segundo antes do outro.
  • Quando o segundo a regista, a cena parece uma repetição.

É uma imagem elegante, quase de engenharia. Mais de um século depois, Brown arruma este tipo de ideia nas explicações de “processamento dual”.

James não se convenceu. O ar de mistério, escreveu em termos parecidos, pareceu-lhe um pouco forçado.

A explicação de James: uma recordação que só chega a meias

A alternativa de James era simples. No seu próprio caso, disse, conseguia resolver a experiência como um caso de memória: uma recordação tão confusa que algumas circunstâncias passadas voltam a apresentar-se e outras não.

Por outras palavras:

  • A cena de hoje parece-se em parte com uma do passado.
  • Essa parte comum desperta familiaridade.
  • O resto da recordação não chega, e não é possível datá-la nem situá-la.

O que fica, segundo James, é a cena presente com uma vaga impressão de passado.

Cita o filósofo e psicólogo Moritz Lazarus, que o interpretava da mesma forma, e acrescenta uma observação decisiva: assim que o contexto passado fica completo, a estranheza desvanece-se.

Umas páginas antes, descreve este processo em câmara lenta. Em casa de um amigo, vê um quadro na parede e reconhece-o a meias, sem saber de onde. Durante algum tempo fica numa espécie de penumbra de familiaridade. De repente, situa-o: é a cópia de um Fra Angélico que vira na Academia de Florença.

O déjà vu seria essa penumbra, mas sem o desfecho.

Porque é que acontece o déjà vu, segundo a ciência atual?

Mais de um século depois, a psicóloga cognitiva Anne M. Cleary, da Colorado State University, levou essa intuição para o laboratório.

Num estudo de 2012 publicado na Consciousness and Cognition (com Alan S. Brown entre os coautores), os participantes percorreram cenários de realidade virtual imersiva construídos com o videojogo The Sims.

O truque estava na estrutura:

  • Algumas cenas novas tinham a mesma disposição espacial de outras vistas antes, mas com objetos diferentes.
  • Quando a pessoa não se lembrava da cena original, avaliava a nova como mais familiar e relatava déjà vu com mais frequência.
  • Quanto mais parecida a configuração, mais forte a sensação.

É como ouvir uma canção nova com a melodia de outra que esqueceste: a letra não te diz nada, mas a forma soa-te a qualquer coisa.

Cleary chama-lhe hipótese da familiaridade gestáltica. No essencial, é a ideia de James com óculos de realidade virtual.

A falsa sensação de saber o que vem a seguir

Muita gente descreve o déjà vu com um pormenor inquietante: a impressão de saber o que vai acontecer.

Cleary e Alexander Claxton puseram isso à prova em 2018, na Psychological Science. Os participantes percorriam caminhos virtuais parecidos com outros já feitos e, em cada cruzamento, tinham de adivinhar a curva seguinte.

O resultado teve duas faces:

  • Durante o déjà vu, a sensação de saber para onde o caminho viraria aumentava.
  • Mas os acertos ficavam ao nível do acaso.

A premonição do déjà vu é real como sensação. Como capacidade, não existe.

O que James não podia saber: o lobo temporal

A James faltava uma peça hoje central: onde tudo isto acontece no cérebro.

A pista mais clara vem da neurologia. O déjà vu está historicamente associado à epilepsia do lobo temporal, em que pode surgir como aura antes de uma crise, como resumiram N. A. Illman, Chris Moulin e colegas em 2012.

Em 2004, a equipa de Fabrice Bartolomei, em Marselha, publicou na Neurology um estudo com 24 doentes com epilepsia cujo cérebro foi estimulado com elétrodos durante a avaliação pré-cirúrgica:

  • A estimulação do córtex entorrinal, na face interna do lobo temporal, provocava déjà vu com mais frequência do que a da amígdala ou do hipocampo.
  • A do córtex perirrinal, ali ao lado, tendia a evocar reminiscências de cenas.

O grupo de Moulin distinguiu ainda o déjà vu do déjà vécu, “já vivido”. Em 2005, na Neuropsychologia, descreveram duas pessoas com demência que sentiam de forma persistente estar a reviver cada momento, e que justificavam essas falsas memórias com explicações aparentemente razoáveis.

Estes casos extremos iluminam o quotidiano: há um sistema que gera o sinal “isto é familiar” e, por vezes, dispara sem a autorização do resto da memória. O teu cérebro faz muitas destas verificações rápidas, como se explica em o que o teu cérebro decide num quinto de segundo.

O que James acertou e o que não

À luz da investigação atual:

  • Acertou ao tratar o déjà vu como um fenómeno de memória e não como um mistério.
  • Acertou no mecanismo: uma semelhança parcial com algo que não chega a ser recordado, muito perto da hipótese de Cleary.
  • Acertou em que a estranheza desaparece quando a recordação se completa.
  • Não podia conhecer o papel do lobo temporal medial nem os estudos com elétrodos na epilepsia.

O déjà vu não é um eco do futuro. É um eco do passado que chega sem remetente.

O seu reverso também existe: o jamais vu, quando algo muito familiar, como uma palavra repetida muitas vezes, de repente parece novo. E o efeito Mandela leva a mesma lógica um passo mais longe: milhares de pessoas recordam com certeza um pormenor que nunca existiu.

Como o stress e o cansaço surgem associados à sua frequência, o teste sobre como lidas com o stress permite ver o teu próprio padrão. E se tens curiosidade sobre o outro lado da memória, o artigo sobre a curva do esquecimento conta o que Ebbinghaus mediu.

Fontes

  • Bartolomei, F., Barbeau, E., Gavaret, M., Guye, M., McGonigal, A., Régis, J. e Chauvel, P. (2004). Cortical stimulation study of the role of rhinal cortex in déjà vu and reminiscence of memories. Neurology, 63(5), 858-864. https://doi.org/10.1212/01.wnl.0000137037.56916.3f
  • Brown, A. S. (2003). A review of the déjà vu experience. Psychological Bulletin, 129(3), 394-413. https://doi.org/10.1037/0033-2909.129.3.394
  • Cleary, A. M., Brown, A. S., Sawyer, B. D., Nomi, J. S., Ajoku, A. C. e Ryals, A. J. (2012). Familiarity from the configuration of objects in 3-dimensional space and its relation to déjà vu: A virtual reality investigation. Consciousness and Cognition, 21(2), 969-975. https://doi.org/10.1016/j.concog.2011.12.010
  • Cleary, A. M. e Claxton, A. B. (2018). Déjà vu: An illusion of prediction. Psychological Science, 29(4), 635-644. https://doi.org/10.1177/0956797617743018
  • Illman, N. A., Butler, C. R., Souchay, C. e Moulin, C. J. A. (2012). Déjà experiences in temporal lobe epilepsy. Epilepsy Research and Treatment, 2012, 539567. https://doi.org/10.1155/2012/539567
  • James, W. (1890). The Principles of Psychology. Henry Holt and Company.
  • Moulin, C. J. A., Conway, M. A., Thompson, R. G., James, N. e Jones, R. W. (2005). Disordered memory awareness: Recollective confabulation in two cases of persistent déjà vecu. Neuropsychologia, 43(9), 1362-1378. https://doi.org/10.1016/j.neuropsychologia.2004.12.008
  • Wigan, A. L. (1844). A new view of insanity: The duality of the mind. Longman, Brown, Green, and Longmans.

Queres saber mais sobre ti?

Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.

Perguntas frequentes

O que é o déjà vu?

É a sensação intensa de que o momento presente já foi vivido, acompanhada da certeza de que, na verdade, é novo. A investigação atual entende-o como um fenómeno de memória: um sinal de familiaridade que surge sem que a recordação que o provoca chegue a ser recuperada.

Porque é que acontece o déjà vu?

Segundo a hipótese de familiaridade testada por Anne M. Cleary e colegas em 2012 com cenários de realidade virtual, o déjà vu surge quando a disposição de uma cena nova se parece com a de outra já vista de que não nos lembramos. William James descreveu algo muito semelhante em 1890: uma recordação tão vaga que só voltam algumas das suas circunstâncias.

É verdade que o déjà vu permite adivinhar o que vai acontecer?

Não. No estudo de Cleary e Claxton (2018), publicado na Psychological Science, as pessoas em pleno déjà vu sentiam com mais força que sabiam o que vinha a seguir, mas não acertavam mais do que por acaso. A sensação de premonição existe; a capacidade de prever, não.

É normal ter déjà vu com frequência?

É uma experiência muito comum. Segundo a revisão de Alan S. Brown (2003), cerca de 60% da população já a viveu, com mais frequência nas pessoas jovens e em fases de stress ou cansaço.

Este artigo substitui uma avaliação profissional se eu tiver déjà vu muito frequentes?

Não. Resume investigação sobre o déjà vu com fins informativos e educativos. Se os episódios forem muito frequentes, mudarem de forma evidente ou vierem acompanhados de ausências, perda de consciência ou outros sintomas, o indicado é falar com um profissional de saúde.