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Estilo de aprendizagem

A curva do esquecimento: em 24 horas parece que esqueces quase 70% do que aprendes, e ainda bem

Pela redação do Personaramic7 min de leitura
Ilustração orgânica minimalista de uma curva descendente suave sobre uma grelha, com barras que se vão desvanecendo

Em 1885, um psicólogo alemão publicou o resultado de mais de dois anos a decorar listas de sílabas sem sentido. Queria medir algo que ninguém tinha medido: a que velocidade nos escapa o que aprendemos. A resposta foi desconfortável. E, para a ciência da memória, também é uma boa notícia.

Esse psicólogo era Hermann Ebbinghaus, e o seu gráfico é hoje conhecido como a curva do esquecimento.

William James incluiu-o em 1890 nos seus Princípios de Psicologia, como uma das primeiras medições exatas da memória.

E juntou aos números uma ideia que soa surpreendentemente atual: esquecer não é um defeito do sistema.

O que é a curva do esquecimento de Ebbinghaus?

Ebbinghaus foi ao mesmo tempo investigador e sujeito do estudo. Usava sílabas sem sentido para que nenhum significado prévio o ajudasse a recordar.

James resume assim os primeiros dados:

  • Depois de uma só leitura, não conseguia recordar mais de sete sílabas.
  • Para recordar 12, precisava de 16 leituras.
  • Para 24, 44 leituras.
  • Para 36, 55.

Depois mediu o esquecimento. Aprendia uma lista, esperava e voltava a aprendê-la. Na passagem de Ebbinghaus que James cita:

  • Ao fim de uma hora, era preciso repetir mais de metade do trabalho original.
  • Ao fim de oito horas, dois terços.
  • Ao fim de 24 horas, conservava-se cerca de um terço do efeito.
  • Ao fim de seis dias, um quarto.
  • Ao fim de um mês, um quinto.

A forma é sempre a mesma: uma queda brusca no início e uma descida cada vez mais suave depois, como um escorrega que vai achatando.

Esquecer não é apagar: a armadilha dos “70%”

O número “quase 70% num dia” circula muito. Tem fundamento, mas convém lê-lo bem.

Ebbinghaus não perguntava “de quanto te lembras?”. Media quanto tempo poupava ao reaprender uma lista em comparação com a primeira vez. É o chamado método da poupança.

Isso muda o sentido do número:

  • Perder dois terços da poupança não significa que dois terços da matéria se tenham evaporado.
  • Fica um rasto que torna a segunda aprendizagem mais rápida do que a primeira.
  • E tratava-se de sílabas sem sentido, escolhidas precisamente por serem difíceis de reter.

A metáfora que melhor encaixa é um carreiro num prado. Se ninguém passa, a erva cobre-o, mas da segunda vez que alguém atravessa, o caminho reaparece mais depressa.

Mais de um século depois, a curva mantém-se?

Em 2015, Jaap Murre e Joeri Dros, da Universidade de Amesterdão, publicaram na PLOS ONE uma réplica com o mesmo método.

Uma pessoa dedicou 70 horas a aprender listas e a reaprendê-las ao fim de 20 minutos, 1 hora, 9 horas, 1 dia, 2 dias ou 31 dias.

  • Os resultados foram semelhantes aos de Ebbinghaus.
  • A curva não era totalmente lisa: mostrava uma subida a partir das 24 horas.

Não é a única explicação possível, mas essa subida encaixa num vasto conjunto de estudos sobre o sono. Segundo a revisão de Björn Rasch e Jan Born (2013) na Physiological Reviews, o sono participa na consolidação do que se aprendeu durante o dia.

Porque é que esquecemos tão depressa?

William James escreve, em essência, que no uso prático do nosso intelecto o esquecimento é uma função tão importante como a recordação.

E justifica-o com um argumento quase matemático: se nos lembrássemos de tudo em pormenor, recordar um período de tempo demoraria tanto como o próprio período. Quem se lembrasse de tudo, conclui, estaria na maior parte dos casos tão mal como quem não se lembrasse de nada.

Para ele, essa seleção é a própria quilha sobre a qual está construído o nosso barco mental.

Cita também o psicólogo francês Théodule Ribot: o esquecimento, salvo em certos casos, não é uma doença da memória, mas uma condição da sua saúde e da sua vitalidade.

A neurociência atual chegou a um lugar muito parecido. Em 2017, Blake Richards e Paul Frankland publicaram na Neuron uma revisão intitulada “The Persistence and Transience of Memory”. Segundo eles, o esquecimento:

  • Aumenta a flexibilidade, porque reduz o peso da informação desatualizada nas decisões.
  • Evita o sobreajuste a episódios concretos e favorece a generalização.
  • É, para os sistemas de memória, tão importante como a persistência.

O objetivo da memória, propõem, não é transportar informação através do tempo por si só, mas decidir melhor.

A experiência de James consigo próprio

James quis saber se a memória se treina como um músculo. Numa nota de rodapé, conta a sua própria experiência:

  • Decorou 158 versos do “Sátiro” de Victor Hugo em 131 minutos e 5/6, repartidos por oito dias.
  • Depois treinou uns vinte minutos por dia durante 38 dias, decorando o primeiro livro do Paraíso Perdido de Milton.
  • Os 158 versos seguintes de Hugo custaram-lhe 151 minutos e meio. Mais, não menos.

Ele próprio admitiu que estava esgotado por outros trabalhos, um enviesamento evidente. Colegas como Burnham, Drown e Baldwin repetiram o teste e, no conjunto, quase não encontraram ganhos.

A conclusão dele foi taxativa: a retentiva inata de cada pessoa é imutável. O que melhora, defendia, é o método: pensar sobre os factos e ligá-los a outros conhecimentos.

Por isso considerava o estudo intensivo de última hora antes de um exame um péssimo método de estudo. O que se aprende assim cria poucas associações e esquece-se depressa.

O exemplo preferido de James era o jornalista e político Thurlow Weed, que descrevia a sua memória como um coador. Durante quase cinquenta anos, contou todas as noites à mulher, Catherine, o que tinha feito durante o dia. Segundo James, não reforçou a retentiva: construiu um sistema de revisão diária.

O que a investigação moderna acrescentou

A intuição de James sobre o método foi estudada em pormenor:

  • Efeito de espaçamento: a meta-análise de Nicholas Cepeda e colegas (2006, Psychological Bulletin) reuniu 839 comparações de 317 experiências. O intervalo entre sessões que dava melhor retenção crescia à medida que aumentava o tempo durante o qual algo tinha de ser recordado.
  • Prática de recuperação: Henry Roediger e Jeffrey Karpicke (2006, Psychological Science) observaram que tentar recordar um texto produzia melhor retenção ao fim de dois dias e de uma semana do que relê-lo, embora reler desse mais sensação de segurança.

Ambos os resultados encaixam no que James escreveu sobre as associações. A memória também responde ao estado emocional, como se explica em porque é que o stress bloqueia a memória.

O que James acertou e onde exagerou

  • Acertou ao tratar o esquecimento como uma função e não como uma falha, algo que a neurociência hoje defende.
  • Acertou em que o estudo de última hora deixa marcas frágeis, em linha com o efeito de espaçamento.
  • Acertou em que o método conta mais do que a força bruta da memória.
  • Exagerou ao declarar imutável a retentiva com base na experiência de uma só pessoa, cansada e sem controlos.

O teste sobre se aprendes de forma profunda ou superficial permite ver o teu próprio padrão. E o esquecimento tem um parente próximo nos falsos reconhecimentos, tema do artigo sobre o déjà vu.

Fontes

Queres saber mais sobre ti?

Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.

Perguntas frequentes

O que é a curva do esquecimento?

É a representação de como aquilo que se aprende se vai perdendo com o tempo, medida pela primeira vez por Hermann Ebbinghaus e publicada em 1885. O esquecimento é muito rápido nas primeiras horas e cada vez mais lento depois: ao fim de um dia restava cerca de um terço da aprendizagem original e, ao fim de um mês, cerca de um quinto.

É verdade que esquecemos 70% do que aprendemos em 24 horas?

Aproximadamente, mas com uma ressalva importante. Ebbinghaus não mediu quanto se apaga, mas quanto esforço se poupa ao reaprender. Às 24 horas essa poupança era de cerca de um terço, o que significa refazer cerca de dois terços do trabalho. Além disso, usou sílabas sem sentido, muito mais difíceis de reter do que material com significado.

Porque é que me esqueço das coisas com tanta facilidade?

O esquecimento não é apenas uma falha. Uma revisão de Richards e Frankland (2017) na revista Neuron descreve-o como um processo ativo que descarta informação desatualizada e ajuda o cérebro a generalizar. William James já escrevera em 1890 que o esquecimento é uma função tão importante como a recordação.

A curva do esquecimento de Ebbinghaus foi replicada?

Sim. Murre e Dros publicaram em 2015 na PLOS ONE uma réplica com o mesmo método de poupança. Uma pessoa dedicou 70 horas a aprender e reaprender listas, e os resultados foram semelhantes aos originais, com uma pequena subida às 24 horas.

Este artigo substitui uma avaliação profissional se eu me esquecer de muitas coisas?

Não. Resume investigação sobre memória e esquecimento com fins informativos e educativos. Se os esquecimentos interferirem de forma notória na vida diária ou tiverem mudado de forma evidente, o indicado é falar com um profissional de saúde ou de psicologia.