Perfil otimista: esperar que as coisas corram bem, sem ingenuidade
A expectativa estável de que vais dar conta do recado
O otimismo deste perfil não consiste em negar os problemas. É a expectativa estável de que, em geral, vais encontrar maneira de os resolver.
O perfil otimista descreve aquilo a que a psicologia chama otimismo disposicional: uma tendência relativamente estável para esperar bons resultados, não um estado de espírito passageiro.
O que é o otimismo disposicional
Os psicólogos Michael Scheier e Charles Carver (1985) definiram-no como uma expectativa generalizada de resultados favoráveis. Para o medir, criaram o Life Orientation Test, revisto em 1994 como LOT-R (Scheier, Carver e Bridges, 1994), uma escala breve com afirmações do tipo “em tempos de incerteza, costumo esperar o melhor”. A revisão foi feita, em parte, para mostrar que o otimismo não é apenas a face simpática de um neuroticismo baixo, mas um constructo com peso próprio.
O seu modelo explica o efeito pela motivação: quem espera alcançar uma meta continua a esforçar-se quando surgem obstáculos, e quem espera falhar tende a desistir mais cedo.
O que diz a investigação
Os dados acumulados sustentam essa lógica, com efeitos modestos mas constantes:
- Confronto com as dificuldades. Uma meta-análise de 50 estudos e 11 629 pessoas (Nes e Segerstrom, 2006) concluiu que o otimismo se associa a estratégias de aproximação, as que procuram resolver ou gerir o problema (r = 0,17), e em sentido inverso às de evitamento (r = -0,21). Observou também que as pessoas otimistas ajustam a sua estratégia ao que cada situação pede.
- Saúde física. Outra meta-análise, com 83 estudos (Rasmussen, Scheier e Greenhouse, 2009), encontrou uma relação média de 0,17 entre otimismo e diversos indicadores de saúde, um pouco maior quando a saúde era medida por autorrelato do que com medidas objetivas.
Uma correlação de 0,17 não faz do otimismo um escudo, mas indica uma vantagem real e repetida em muitos contextos.
Otimismo disposicional e estilo explicativo
É frequente misturar duas linhas de investigação diferentes. Martin Seligman, em Learned Optimism (1990), não fala de expectativas sobre o futuro, mas do estilo explicativo: a forma como cada pessoa explica porque lhe aconteceu algo de mau. Peterson e Seligman (1984) descreveram-no com três dimensões. Um estilo pessimista atribui os fracassos a causas internas (“a culpa é minha”), estáveis (“acontece sempre”) e globais (“acontece-me em tudo”); um estilo otimista atribui-os a causas externas, passageiras e concretas.
As duas ideias parecem-se e costumam andar juntas, mas medem-se com instrumentos diferentes e não são a mesma coisa. O teste do sítio reflete essa mistura: a maioria das afirmações do bloco otimista são expectativas (“espero que as coisas me corram bem”), enquanto uma, a de pensar que um fracasso “foi algo pontual”, está mais próxima do estilo explicativo de Seligman.
Como se nota no dia a dia
- Perante um problema, confias que vais encontrar maneira de o resolver, em vez de ficares paralisado/a pela incerteza.
- Interpretas os fracassos como algo pontual, não como um padrão que se vai repetir indefinidamente.
- Raramente imaginas os piores cenários antes de um evento importante.
- Confias que, a longo prazo, as coisas tendem a correr razoavelmente bem, mesmo quando o presente é difícil.
Um exemplo: uma pessoa otimista fica de fora de um processo de recrutamento na última entrevista. Custa-lhe, mas nessa mesma semana pede à empresa uma apreciação da sua candidatura e usa-a para preparar a seguinte. Não nega o revés; trata-o como um episódio do qual se pode tirar alguma coisa.
Onde pode falhar: o otimismo irrealista
O psicólogo Neil Weinstein (1980) pediu a 258 estudantes universitários que comparassem as suas probabilidades de viver 42 acontecimentos com as dos colegas. Em média, viam-se mais expostos do que os outros ao que é bom e menos ao que é mau. Weinstein chamou-lhe otimismo irrealista: um enviesamento comparativo que surge até em pessoas que não se descreveriam como otimistas.
É esse o risco deste perfil. Uma expectativa geral positiva ajuda a perseverar, mas, aplicada a riscos concretos (um investimento, um prazo, um exame médico), pode fazer com que se ignore informação relevante. Daí a utilidade de distinguir dois planos: a confiança de fundo em que as coisas vão correr bem e a avaliação pontual de uma decisão específica, onde o olhar de um perfil mais realista ou cauteloso traz dados que o otimismo tende a deixar de fora.
Este resultado descreve uma tendência de autorrelato, não um diagnóstico. Queres ver onde te situas exatamente entre o otimismo, o realismo e a cautela estratégica? Faz o teste sobre o teu estilo de expectativas.
Fontes
- Scheier, M. F., e Carver, C. S. (1985). Optimism, coping, and health: Assessment and implications of generalized outcome expectancies. Health Psychology, 4(3), 219-247.
- Scheier, M. F., Carver, C. S., e Bridges, M. W. (1994). Distinguishing optimism from neuroticism (and trait anxiety, self-mastery, and self-esteem): A reevaluation of the Life Orientation Test. Journal of Personality and Social Psychology, 67(6), 1063-1078. doi:10.1037/0022-3514.67.6.1063
- Nes, L. S., e Segerstrom, S. C. (2006). Dispositional optimism and coping: A meta-analytic review. Personality and Social Psychology Review, 10(3), 235-251. doi:10.1207/s15327957pspr1003_3
- Rasmussen, H. N., Scheier, M. F., e Greenhouse, J. B. (2009). Optimism and physical health: A meta-analytic review. Annals of Behavioral Medicine, 37(3), 239-256. doi:10.1007/s12160-009-9111-x
- Peterson, C., e Seligman, M. E. P. (1984). Causal explanations as a risk factor for depression: Theory and evidence. Psychological Review, 91(3), 347-374. doi:10.1037/0033-295X.91.3.347
- Seligman, M. E. P. (1990). Learned Optimism. Knopf.
- Weinstein, N. D. (1980). Unrealistic optimism about future life events. Journal of Personality and Social Psychology, 39(5), 806-820. doi:10.1037/0022-3514.39.5.806
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
O otimismo é o mesmo que a ingenuidade?
Não. O otimismo disposicional é a expectativa estável de que, em geral, as coisas te vão correr bem, não a negação dos problemas reais. Na meta-análise de Nes e Segerstrom (2006), as pessoas otimistas tendiam a enfrentar os problemas mais do que a evitá-los.
Porque não imagino os piores cenários antes de um evento importante?
Porque a tua expectativa de fundo é positiva: confias que vais conseguir lidar com o que vier, por isso antecipar catástrofes não faz parte da tua forma habitual de te preparares. Quem se prepara assim encaixa no perfil cauteloso, a que a investigação chama pessimismo defensivo.
O otimismo é sempre benéfico?
Associa-se de forma consistente a um melhor confronto com as dificuldades e a melhores indicadores de saúde, embora as correlações sejam modestas (cerca de 0,17 nas meta-análises). Sem contacto com os dados, pode levar a subestimar riscos concretos, aquilo a que Weinstein (1980) chamou otimismo irrealista.
Posso combinar o otimismo com mais prudência?
Sim. Uma expectativa geral positiva é compatível com a revisão dos riscos concretos de uma decisão importante: são dois níveis diferentes, o da atitude de fundo e o da avaliação pontual.
Otimismo disposicional e otimismo aprendido são a mesma coisa?
Não. O primeiro (Scheier e Carver) é uma expectativa sobre o futuro e mede-se com o LOT-R. O segundo (Seligman) é um estilo explicativo, a forma de explicar porque aconteceu algo de mau, e mede-se com o Questionário de Estilo Atribucional. Estão relacionados, mas não são intercambiáveis.