Mentalidade mais fixa: como começar a mudá-la sem te culpabilizares
Mentalidade mais fixa: uma forma de pensar, não um veredito
Antes de mais, algo importante: isto não é um diagnóstico sobre o teu potencial real.
É uma forma de pensar sobre o potencial, documentada pela investigação em psicologia educativa, e as formas de pensar podem ser treinadas. A mentalidade mais fixa descreve pessoas que tendem a perceber as suas capacidades como traços bastante estáveis.
De onde vem esta tendência
A psicóloga Carol Dweck identificou duas crenças possíveis sobre o talento: que se pode desenvolver com esforço, ou que é um traço fixo com que se nasce.
Quando predomina a segunda, costumas interpretar um resultado fraco como um sinal do teu limite real, mais do que como parte natural do processo de aprender algo novo.
Esta crença tem uma consequência prática muito estudada: leva a evitar desafios onde o resultado inicial possa não ser bom, precisamente as situações onde mais se aprende.
Poucas pessoas a têm assim em todos os terrenos por igual. Dweck tem insistido em que somos misturas das duas crenças, e o nosso teste recolhe essa distribuição num resultado próprio, a mentalidade mista.
Como se manifesta no dia a dia
- Preferes tarefas que já dominas a desafios onde possas ficar mal visto/a perante os outros ou perante ti mesmo/a.
- As críticas parecem um julgamento sobre o teu valor, e não apenas sobre o resultado concreto de uma tarefa pontual.
- Se o esforço não dá fruto rapidamente, tendes a concluir que “não é para ti” antes de dar mais tempo ao processo.
- Admiras mais o talento natural do que a capacidade de melhorar com esforço continuado, ainda que ambos os caminhos levem a resultados semelhantes.
O que custa este padrão
O custo real desta mentalidade não é o fracasso em si, mas a evitação que provoca: ao não te expores a situações onde possas falhar, também perdes as que mais te fariam melhorar.
Não é que o esforço não funcione para ti; é que a interpretação que fazes do fracasso te trava antes de o comprovares.
A mudança não consiste em fingir que todo o esforço garante o resultado
Isso seria tão pouco realista como a crença contrária.
Consiste, antes, em separar o resultado de uma tentativa concreta do teu valor como pessoa: um resultado fraco diz algo sobre essa tarefa nesse momento, não sobre aquilo que és capaz de vir a fazer com tempo e estratégia.
Um exercício concreto para começar
Dweck propõe um gesto simples: acrescentar a palavra “ainda” às frases limitantes. Passar de “não tenho jeito para isto” para “não tenho jeito para isto, ainda” é uma pequena mudança na linguagem que, mantida no tempo, pode ir mudando também a crença de fundo. Não é magia: é uma forma de manter aberta uma possibilidade que, de outro modo, se fecharia sem dares por isso.
A mesma situação, uma resposta muito diferente
Em Mindset (2006), Dweck propõe uma experiência mental: um dia mau em que tiras uma nota fraca num exame que te importava, levas uma multa de estacionamento e, quando ligas ao teu melhor amigo para lhe contar, ele não te liga nenhuma.
As pessoas com mentalidade de crescimento respondiam com frustração, mas em chave de ajuste: “tenho de estudar mais para essa disciplina”, “devia ter mais cuidado ao estacionar”, “se calhar o meu amigo estava num mau dia”. As de mentalidade mais fixa, pelo contrário, falavam de si mesmas:
- “sinto-me rejeitado”,
- “sou um fracasso total”,
- “sou parvo”,
- “todos os outros são melhores do que eu”.
O mesmo facto, sem nada de irreversível por trás, transforma-se num veredito sobre o próprio valor.
Um efeito menos conhecido: a autoavaliação
Há um dado que convém ter em conta antes de te julgares com dureza. Ehrlinger, Mitchum e Dweck (2016) pediram a estudantes que resolvessem uma prova e estimassem depois o seu desempenho. Quem via a inteligência como algo fixo mostrou-se mais confiante do que devia, e a razão estava na atenção: dedicava menos tempo aos problemas difíceis, precisamente os que lhe teriam dado uma ideia mais realista de como estava a correr. Quando os investigadores dirigiam a atenção para a parte difícil da tarefa, o excesso de confiança diminuía.
A leitura é simples: estar aberto a aprender exige estar aberto à informação sobre si mesmo, incluindo a que não agrada. A mentalidade fixa tende a desviar o olhar dessa informação, e com isso perde-se de vista como algo está de facto a correr.
Queres ver como se distribui a tua mentalidade entre diferentes áreas? Faz o teste sobre mentalidade fixa ou de crescimento.
Fontes
- Dweck, C. S. (2006). Mindset: The New Psychology of Success. Random House.
- Ehrlinger, J., Mitchum, A. L. e Dweck, C. S. (2016). Understanding overconfidence: Theories of intelligence, preferential attention, and distorted self-assessment. Journal of Experimental Social Psychology, 63, 94-100. doi:10.1016/j.jesp.2015.11.001
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Ter mentalidade fixa significa que não posso melhorar de verdade?
Não. É uma crença sobre a aprendizagem, não uma medida real da tua capacidade. E essa crença, segundo a investigação, pode ser treinada e modificada ao longo do tempo.
Porque evito desafios onde posso ficar mal visto/a?
Porque costumas interpretar um resultado fraco como um sinal sobre o teu limite real, e evitar a situação parece uma forma de te protegeres dessa conclusão.
As críticas vão sempre parecer um ataque?
Não necessariamente. Separar o resultado de uma tentativa concreta do teu valor como pessoa é precisamente a mudança que permite receber as críticas como informação útil, e não como julgamento.
Que exercício concreto propõe Carol Dweck para começar a mudar isto?
Acrescentar a palavra «ainda» às frases limitantes: passar de «não tenho jeito para isto» para «não tenho jeito para isto, ainda». É uma mudança pequena que, mantida, começa também a modificar a crença de fundo.