Perspetiva presente: viver o agora com intensidade
Onde a vida acontece
Para muitas pessoas, o presente é só a passagem obrigatória para outra coisa: a meta, o resultado, o depois. Para ti, não.
A perspetiva presente descreve quem vive o momento atual com uma intensidade que outros perfis têm mais dificuldade em sustentar. Na investigação académica chama-se presente hedonista.
O presente hedonista, segundo Zimbardo e Boyd
Philip Zimbardo e John Boyd (1999) propuseram que cada pessoa reparte a sua atenção entre passado, presente e futuro de forma relativamente estável, e mediram-no com um inventário de cinco fatores (descritos no artigo sobre a perspetiva futura). Dois desses fatores referem-se ao presente, e convém não os confundir:
- Presente hedonista: orientação para o prazer, a novidade e a experiência imediata. É o fator deste perfil.
- Presente fatalista: sensação de que o futuro está decidido e de que o esforço serve de pouco. Tem um perfil psicológico muito diferente, mais associado à desesperança, e o teste do sítio não o mede.
As afirmações do teste que definem este resultado falam de aproveitar plenamente o momento, decidir conforme algo faz sentir agora e viver o aqui e agora mesmo que depois seja preciso improvisar.
Uma dimensão própria, não apenas impulsividade
Uma das primeiras provas de que a orientação para o presente é uma dimensão com peso próprio veio da estrada. Em três amostras com 2863 participantes, Zimbardo, Keough e Boyd (1997) verificaram que a orientação para o presente se associava a mais condução arriscada declarada, e que esse efeito se mantinha quando comparada com outras nove medidas, como a procura de sensações, a impulsividade ou a agressividade.
O dado não descreve as pessoas com esta perspetiva como imprudentes; indica que a forma de nos situarmos no tempo influencia as decisões por si mesma, para lá do carácter.
A outra face é igualmente real. Ilona Boniwell e Zimbardo (2004) incluem um presente hedonista moderadamente alto no perfil temporal mais associado ao bem-estar, e um estudo com 1739 pessoas (Zhang, Howell e Stolarski, 2013) confirmou que aproximar-se desse perfil equilibrado anda a par de mais satisfação com a vida e mais emoções positivas. Sem capacidade de aproveitar o presente, o equilíbrio temporal não fica completo.
Saborear: a competência deste perfil
Fred Bryant e Joseph Veroff (2007) chamam saborear (savoring) à capacidade de prestar atenção às experiências positivas e prolongar ou intensificar o prazer que elas trazem. No seu modelo, pode saborear-se olhando para trás (recordar), olhando em frente (antecipar) e, sobretudo, no próprio momento, que é onde este perfil se destaca.
Um exemplo: num almoço com amigos que se prolonga, a pessoa com perspetiva presente é a que propõe pedir mais uma sobremesa, repara na luz da tarde e comenta em voz alta como se estão a divertir. Esse comentário, que parece banal, é um dos comportamentos que Bryant e Veroff descrevem como formas de amplificar uma experiência partilhada.
Como se nota no dia a dia
- Aproveitas plenamente o que estás a fazer, sem te adiantares constantemente ao que vem a seguir.
- Custa-te adiar uma satisfação imediata em troca de um benefício futuro incerto, mais do que a outros perfis.
- Improvisas com à-vontade, mesmo quando isso implica resolver o futuro pelo caminho.
- O teu ânimo e as tuas decisões estão muito ligados à forma como te sentes no momento presente.
O custo de viver muito centrado/a no presente
O desafio desta perspetiva é que pode dificultar o planeamento a longo prazo e a poupança de esforço, tempo ou recursos para metas futuras.
Não é que não se consiga planear. Quando o presente pede uma coisa e o futuro outra, a balança tende a pender para o agora, e isso tem um custo nas metas que exigem esforço sustentado durante muito tempo. A combinação que a investigação descreve como mais favorável não exige abdicar do prazer: consiste em reservar a projeção para as poucas metas em que o longo prazo importa de facto. Aí, o olhar de alguém com perspetiva futura complementa bem este perfil.
Este resultado descreve uma tendência de autorrelato, não um diagnóstico. Queres ver como se reparte a tua perspetiva temporal entre passado, presente e futuro? Faz o teste sobre a tua relação com o tempo.
Fontes
- Zimbardo, P. G., e Boyd, J. N. (1999). Putting time in perspective: A valid, reliable individual-differences metric. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1271-1288.
- Zimbardo, P. G., Keough, K. A., e Boyd, J. N. (1997). Present time perspective as a predictor of risky driving. Personality and Individual Differences, 23(6), 1007-1023. doi:10.1016/S0191-8869(97)00113-X
- Boniwell, I., e Zimbardo, P. G. (2004). Balancing time perspective in pursuit of optimal functioning. Em P. A. Linley e S. Joseph (Eds.), Positive Psychology in Practice (pp. 165-178). Wiley.
- Zhang, J. W., Howell, R. T., e Stolarski, M. (2013). Comparing three methods to measure a balanced time perspective: The relationship between a balanced time perspective and subjective well-being. Journal of Happiness Studies, 14(1), 169-184. doi:10.1007/s10902-012-9322-x
- Bryant, F. B., e Veroff, J. (2007). Savoring: A New Model of Positive Experience. Lawrence Erlbaum Associates.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Viver o presente significa não pensar no futuro?
Não totalmente. Significa que as tuas decisões se guiam mais pela forma como te sentes agora do que por um cálculo a longo prazo, não que sejas incapaz de pensar no futuro quando é preciso.
Porque me custa adiar uma satisfação imediata?
Porque a tua vida emocional dá prioridade ao bem-estar do momento presente. Não é simples impulsividade: Zimbardo, Keough e Boyd (1997) mostraram que a orientação para o presente prevê comportamentos como a condução arriscada mesmo descontando a impulsividade e a procura de sensações, ou seja, é uma dimensão própria.
É um problema não planear demasiado?
Só se impedir alcançar metas importantes a médio ou longo prazo. Nos restantes contextos, aproveitar o presente com intensidade é um recurso real para o bem-estar, e o perfil temporal mais associado à satisfação com a vida inclui um presente hedonista moderadamente alto.
Posso desenvolver mais orientação para o futuro sem perder esta capacidade?
Sim. A investigação sobre perspetiva temporal equilibrada (Boniwell e Zimbardo, 2004) descreve precisamente pessoas que combinam o prazer do presente e a orientação para o futuro conforme o que cada situação pede.
Presente hedonista e presente fatalista são a mesma coisa?
Não. O inventário de Zimbardo distingue duas formas de viver no presente: a hedonista, que procura prazer e estímulo, e a fatalista, que sente que o que acontece não depende de nós. Este perfil corresponde à primeira; o teste do sítio não mede a segunda.