Perspetiva futura: organizas o teu presente em função das tuas metas
O que fazes hoje olha em frente
Quase nada do que fazes hoje deixa de ter uma razão que aponta mais adiante.
A perspetiva futura descreve pessoas cujo presente está organizado em função de metas, consequências e planos a médio ou longo prazo.
O modelo de Zimbardo e Boyd
Philip Zimbardo e John Boyd (1999) propuseram que cada pessoa reparte a sua atenção psicológica entre passado, presente e futuro de uma forma relativamente estável, e que essa repartição influencia as suas decisões. Para a medir, criaram o Inventário de Perspetiva Temporal de Zimbardo (ZTPI), com 56 itens e cinco fatores:
- Passado negativo: memórias centradas no que correu mal.
- Passado positivo: olhar caloroso e nostálgico sobre o que se viveu.
- Presente hedonista: procura de prazer e estímulo imediatos.
- Presente fatalista: sensação de que o que acontece não depende de nós.
- Futuro: orientação para metas, planeamento e consequências.
O teste do sítio pega em quatro dessas orientações numa versão breve. O fator futuro é o deste perfil, e as suas afirmações refletem-no bem: planear com antecedência, abdicar de algo agora se isso aproximar uma meta, pensar onde se quer estar daqui a uns anos.
O que diz a investigação sobre olhar para o futuro
A orientação para o futuro é provavelmente a dimensão temporal mais bem estudada. Uma meta-análise de 212 estudos (Kooij, Kanfer, Betts e Rudolph, 2018) relacionou-a com cinco tipos de resultado:
- Realização escolar e profissional.
- Bem-estar.
- Comportamentos de saúde, como o exercício ou a prevenção.
- Menos comportamentos de risco.
- Planeamento da reforma.
O dado mais interessante é que a perspetiva futura previa esses resultados para lá dos cinco grandes traços de personalidade, e explicava em parte a forma como influem traços como a conscienciosidade. Olhar para o futuro não é apenas ser uma pessoa organizada: acrescenta algo próprio.
Como se nota no dia a dia
- Pensas com frequência onde queres estar daqui a vários anos, não só no passo imediato.
- Poupas tempo, dinheiro ou esforço a pensar no futuro, mesmo que isso implique abdicar de algo agora.
- Avalias as consequências das tuas decisões para lá do curto prazo, quase de forma automática.
- Organizas o teu presente em torno de objetivos concretos, mais do que em torno de como te sentes no momento.
Um exemplo: uma pessoa com perspetiva futura recebe o subsídio de Natal. Antes de pensar num mimo para si, já pôs de lado uma parte para o curso de línguas que quer fazer na primavera, porque encaixa no trabalho a que aspira daqui a dois anos.
O custo de um futuro que ocupa tudo
Zimbardo e Boyd não apresentam nenhuma orientação como ideal por si só. Ilona Boniwell e Zimbardo (2004) descrevem o perfil mais associado ao bem-estar como uma perspetiva temporal equilibrada: passado positivo alto, presente hedonista e futuro moderadamente altos, e pontuações baixas em passado negativo e presente fatalista. Um estudo com quatro amostras e 1739 pessoas (Zhang, Howell e Stolarski, 2013) confirmou que, quanto mais alguém se aproxima desse perfil, maiores são a sua satisfação com a vida e o seu afeto positivo.
Numa orientação para o futuro muito marcada, o risco é que o presente perca valor próprio: cada decisão é julgada pela sua utilidade posterior e sobra pouco espaço para o descanso, o improviso ou as relações que não “servem” para nada. Distinguir entre planear, que impulsiona o avanço, e controlar, que gera ansiedade quando o previsto não sai exatamente assim, separa a força do excesso. O olhar de alguém com perspetiva presente lembra que nem tudo precisa de se justificar pelo que vem a seguir.
Criar o futuro duas vezes
Stephen Covey, no seu livro de divulgação Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes (1989), dedica o segundo hábito, “comece com o fim em mente”, a uma ideia que descreve bem este perfil: todas as coisas são criadas duas vezes, primeiro na mente e depois na realidade. Um projeto, uma carreira ou uma etapa de vida existem antes como imagem de referência para as decisões do presente.
O próprio Covey insiste em que essa imagem se revê e se atualiza. É essa a diferença entre uma orientação para o futuro flexível e uma rígida.
Este resultado descreve uma tendência de autorrelato, não um diagnóstico. Queres ver como se reparte a tua perspetiva temporal entre passado, presente e futuro? Faz o teste sobre a tua relação com o tempo.
Fontes
- Zimbardo, P. G., e Boyd, J. N. (1999). Putting time in perspective: A valid, reliable individual-differences metric. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1271-1288.
- Kooij, D. T. A. M., Kanfer, R., Betts, M., e Rudolph, C. W. (2018). Future time perspective: A systematic review and meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 103(8), 867-893. doi:10.1037/apl0000306
- Boniwell, I., e Zimbardo, P. G. (2004). Balancing time perspective in pursuit of optimal functioning. Em P. A. Linley e S. Joseph (Eds.), Positive Psychology in Practice (pp. 165-178). Wiley.
- Zhang, J. W., Howell, R. T., e Stolarski, M. (2013). Comparing three methods to measure a balanced time perspective: The relationship between a balanced time perspective and subjective well-being. Journal of Happiness Studies, 14(1), 169-184. doi:10.1007/s10902-012-9322-x
- Covey, S. R. (1989). The 7 Habits of Highly Effective People. Free Press.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
A orientação para o futuro prevê melhores resultados?
No conjunto, sim. Uma meta-análise de 212 estudos (Kooij et al., 2018) relaciona-a com melhores resultados escolares e profissionais, mais comportamentos de saúde, menos comportamentos de risco e mais planeamento da reforma, mesmo descontando o efeito dos cinco grandes traços de personalidade. Não garante bem-estar se se tornar excessiva ou rígida.
Porque me custa aproveitar o presente sem pensar no que vem a seguir?
Porque a tua vida está organizada em função de metas e consequências futuras: é a tua forma natural de dar sentido às decisões do dia a dia. Boniwell e Zimbardo (2004) apontam precisamente esse custo quando a orientação para o futuro domina sobre as outras.
É um problema planear tanto?
Só se gerar ansiedade ou deixar sem espaço o prazer do momento. Na medida certa, é um recurso real para alcançar objetivos a longo prazo.
Posso combinar esta perspetiva com mais presença no momento?
Sim. É aquilo a que Boniwell e Zimbardo chamam perspetiva temporal equilibrada: não exige renunciar ao planeamento, mas sim que várias orientações convivam conforme o que cada situação pede.
Que relação tem este teste com o inventário de Zimbardo?
O teste do sítio é uma versão de divulgação com 16 afirmações inspirada no Inventário de Perspetiva Temporal de Zimbardo (ZTPI), que tem 56 itens e cinco fatores. Usa quatro blocos e dá como resultado a orientação com mais pontos; não substitui o instrumento académico.