Quem criou o teste das 16 personalidades?
O indicador tipológico hoje conhecido popularmente como o “teste das 16 personalidades” ou MBTI (Myers-Briggs Type Indicator) foi criado por duas mulheres sem formação académica em psicologia: uma mãe e a sua filha, que trabalharam nele a partir de casa durante mais de duas décadas.
A sua história está bem documentada em duas biografias: a de Frances Wright Saunders (1991), escrita com acesso aos papéis da família, e a de Merve Emre (2018), mais crítica, que reconstrói também como o questionário se tornou um negócio.
Uma mãe que catalogava personalidades antes de conhecer Jung
Katharine Cook Briggs (1875-1968) começou a observar e a classificar as diferenças de temperamento antes de ler Jung.
Segundo as suas biógrafas, o ponto de partida foi Clarence “Chief” Myers, o namorado e depois marido da sua filha Isabel: a sua forma de ser era tão diferente da da família Briggs que Katharine decidiu perceber de onde vinham essas diferenças. Começou a reunir biografias e a esboçar a sua própria classificação de carateres.
Quando, em 1923, foi publicada a tradução inglesa de Tipos Psicológicos de Carl Jung (1921), Briggs encontrou no livro um quadro teórico que encaixava em anos de observação caseira e abandonou o seu sistema para adotar o de Jung. Em 1926 publicou na revista The New Republic um artigo de divulgação em que convidava os leitores a identificar o seu próprio tipo.
Isabel Briggs Myers: de autora de romances a autora de um teste
A filha, Isabel Briggs Myers (1897-1980), estudou ciência política no Swarthmore College e não tinha formação em psicologia nem em estatística. Antes de se dedicar ao questionário, tinha ganho um concurso literário com o seu romance policial Murder Yet to Come (1930), a que se seguiu um segundo, Give Me Death (1934).
No início dos anos quarenta começou a conceber perguntas, a testá-las com conhecidos e a afinar o questionário à mão, aprendendo por conta própria as bases da construção de testes.
Durante a Segunda Guerra Mundial, com boa parte da população ativa mobilizada e a necessidade de atribuir a cada pessoa um posto na indústria, mãe e filha viram uma aplicação prática para o seu instrumento. As primeiras versões em papel circularam por volta de 1943.
De projeto caseiro a instrumento publicado
O indicador continuou durante anos a ser um projeto sustentado quase apenas por Isabel, que o aplicou a milhares de estudantes de medicina e enfermagem para acumular dados.
O salto chegou em 1962, quando o Educational Testing Service (ETS), a organização que gere grandes exames estandardizados nos Estados Unidos, publicou uma versão de investigação do indicador com o seu primeiro manual. A relação não foi simples: Emre (2018) documenta as reservas de vários psicometristas da casa sobre as bases do questionário.
As décadas seguintes consolidaram o instrumento:
- 1969: Isabel começa a colaborar com a psicóloga Mary McCaulley num laboratório de tipologia na Universidade da Florida.
- 1975: a Consulting Psychologists Press (hoje The Myers-Briggs Company) passa a ser a editora do MBTI, e Myers e McCaulley fundam o Center for Applications of Psychological Type (CAPT), dedicado à investigação e à formação.
- 1980: morre Isabel Briggs Myers, no mesmo ano em que é publicado o seu livro Gifts Differing.
- 1985 e 1998: surgem a segunda e a terceira edição do manual (Myers e McCaulley, 1985; Myers, McCaulley, Quenk e Hammer, 1998), com dados de fiabilidade e uma amostra nacional de referência.
O mecanismo das quatro dimensões
O indicador foi estruturado sobre quatro escalas bipolares, combinando as ideias de Jung com os contributos de Briggs e Myers:
- Orientação da energia: Extroversão (E) versus Introversão (I). Se o foco se dirige ao mundo exterior ou ao mundo interior das ideias.
- Aquisição de informação: Sensação (S) versus Intuição (N). O registo literal através dos sentidos versus a captação de padrões e possibilidades.
- Tomada de decisões: Pensamento (T) versus Sentimento (F). A análise lógica e impessoal versus a avaliação baseada em valores.
- Estilo face ao exterior: Julgamento (J) versus Perceção (P). A preferência por um ambiente estruturado ou por uma abordagem flexível.
A quarta escala é o grande contributo próprio de Briggs e Myers: Jung não a formulou como dimensão separada. Servia-lhes para deduzir qual das funções é a dominante em cada tipo.
Ao cruzar estas variáveis obtém-se um código de quatro letras (como INFJ ou ESTP) que descreve um dos 16 tipos, embora nem todos surjam com a mesma frequência na população.
E o 16personalities.com?
O site que hoje aparece em primeiro lugar quando se procura “teste das 16 personalidades” não é obra de Briggs e Myers. O 16personalities.com pertence à empresa NERIS Analytics e nasceu na década de 2010. Pede emprestado o formato de quatro letras, mas o seu modelo baseia-se em traços ao estilo do Big Five, acrescenta uma quinta letra (Assertivo, -A, ou Turbulento, -T) e, segundo explica o próprio site, não usa as funções de Jung. São também suas as alcunhas de cada tipo, como “Arquiteto” ou “Mediador”.
Por isso, à pergunta sobre quem criou “o teste das 16 personalidades” há duas respostas: Briggs e Myers criaram o MBTI e os 16 tipos; a NERIS Analytics criou o teste online que hoje tem esse nome.
Evolução e impacto
O que começou como um projeto de observação familiar tornou-se um instrumento publicado a partir de 1962 e um dos questionários de personalidade mais usados do mundo em orientação profissional e formação de equipas.
A sua popularidade não equivale a suporte científico: a investigação pôs em causa a estabilidade dos tipos quando o teste é repetido e o seu caráter de categorias fechadas, como se explica em o que é a teoria de Myers-Briggs. O seu valor atual é sobretudo pedagógico: traduz ideias complexas sobre as diferenças individuais num mapa claro e fácil de lembrar.
Podes experimentar a versão digital de um questionário inspirado nesse modelo no nosso teste das 16 personalidades.
Nota: esta tipologia de autorrelato é um material de divulgação para o autoconhecimento. Não mede patologias nem aptidões intelectuais e não substitui a avaliação de um profissional qualificado.
Fontes
- Emre, M. (2018). The Personality Brokers: The Strange History of Myers-Briggs and the Birth of Personality Testing. Doubleday.
- Jung, C. G. (1921). Psychologische Typen. Rascher.
- Myers, I. B. e McCaulley, M. H. (1985). Manual: A guide to the development and use of the Myers-Briggs Type Indicator. Consulting Psychologists Press.
- Myers, I. B., McCaulley, M. H., Quenk, N. L. e Hammer, A. L. (1998). MBTI Manual: A guide to the development and use of the Myers-Briggs Type Indicator (3.ª ed.). Consulting Psychologists Press.
- NERIS Analytics (s. d.). Our Theory. 16Personalities. Página do modelo
- Saunders, F. W. (1991). Katharine and Isabel: Mother’s Light, Daughter’s Journey. Consulting Psychologists Press.
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Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Quem criou o teste das 16 personalidades?
Katharine Cook Briggs e a sua filha Isabel Briggs Myers, partindo da teoria dos tipos psicológicos de Carl Jung publicada em 1921. Atenção: o site 16personalities.com é outro teste, criado pela empresa NERIS Analytics na década de 2010.
Quando foi criado o primeiro questionário?
As primeiras versões em papel foram elaboradas durante a Segunda Guerra Mundial, por volta de 1943; o Educational Testing Service publicou uma versão de investigação do indicador, com o seu primeiro manual, em 1962.
Porque foi criado este teste?
Para ajudar as pessoas a identificar as suas inclinações naturais e a encontrar trabalhos adequados ao seu perfil, sobretudo num contexto de crise bélica que exigia atribuir tarefas com rapidez.