Personaramic
Big Five

Openness: o traço da abertura à experiência

Por Elena Personaramic7 min de leitura
Ilustração minimalista de um olho aberto representando o traço da abertura à experiência

A abertura à experiência é uma das cinco dimensões do modelo Big Five, o esquema de personalidade mais usado hoje em dia pela psicologia. É a dimensão que define a originalidade, a profundidade mental e a tolerância face ao desconhecido, ou seja, o quanto uma pessoa se sente confortável perante ideias, situações ou pessoas que fogem do habitual. Este traço distingue as mentes criativas e intelectualmente curiosas, aquelas que percecionam a novidade como um estímulo gratificante e não como algo a evitar.

Poder-se-ia dizer que a abertura à experiência constitui uma espécie de necessidade estrutural da mente para explorar ideias abstratas, apreciar a estética (a beleza da arte, da música, de uma paisagem) e questionar as normas estabelecidas pela sociedade. Este traço define indivíduos que processam a realidade a partir da inovação e da flexibilidade, e é um foco de estudo central tanto para a psicologia clínica como para a social.

Funciona, em termos simples, através de um mecanismo que os investigadores chamam de plasticidade cognitiva: a capacidade da mente de assimilar informação nova ou até contraditória sem ativar de imediato uma resposta de ameaça ou de defesa, como aconteceria numa mente mais fechada a novidades. Isto explica em boa parte por que certos ambientes dinâmicos, cheios de mudança e estímulo, potenciam o bem-estar de algumas pessoas, enquanto contextos monótonos e repetitivos travam o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Vale a pena notar que, ao contrário da responsabilidade (ou conscienciosidade), a abertura não é dos traços que melhor preveem o desempenho profissional em geral, ainda que o faça de forma clara em papéis que exigem criatividade ou adaptação constante à mudança.

Este artigo tem carácter divulgativo e formativo. A sua leitura orienta sobre conceitos psicológicos, mas não substitui em caso algum a avaliação individualizada que deve ser feita por profissionais qualificados.

A origem dos Cinco Grandes e a medição do traço

O estudo científico da personalidade conseguiu unificar critérios graças àquilo que se chama a abordagem lexical, a ideia de que os traços de personalidade mais importantes ficaram, ao longo do tempo, gravados na própria linguagem que usamos. Investigadores como Gordon Allport iniciaram, já no início do século XX, a procura de termos descritivos na linguagem natural, assumindo que os traços mais relevantes para a vida social estariam codificados no dicionário, nos adjetivos que usamos para descrever pessoas. Décadas depois, os psicólogos Paul Costa e Robert McCrae consolidaram o Modelo dos Cinco Fatores a partir desse trabalho inicial, integrando a abertura à experiência como um dos pilares fundamentais para compreender a natureza humana.

Para avaliar esta dimensão surgiram, com o tempo, ferramentas cada vez mais precisas. Oliver John, Eileen Donahue e Richard Kentle desenvolveram o Inventário dos Cinco Grandes (conhecido pela sigla em inglês, BFI), um teste concebido para medir estes traços através de frases curtas e contextualizadas, em vez de simples adjetivos soltos. Esta metodologia superou as limitações anteriores de usar apenas palavras isoladas, permitindo uma avaliação mais eficiente e mais válida da personalidade de cada pessoa.

Os domínios que constroem a mente aberta

A abertura não se limita a uma única atitude perante a vida. Ramifica-se, pelo contrário, em várias facetas específicas que juntas determinam a riqueza da experiência mental e emocional de uma pessoa.

A primeira é a curiosidade intelectual: o desejo constante de compreender mecanismos complexos, de brincar com teorias novas e de procurar conhecimento de forma ativa, e não apenas quando é exigido. A segunda é a sensibilidade estética: a capacidade de se comover genuinamente perante a arte, a música ou a poesia, integrando a beleza como um aspeto importante da própria existência, e não como um luxo dispensável. A terceira é a fantasia e a imaginação: a predisposição para visualizar cenários alternativos, imaginar “e se”, e manter um mundo interior rico e elaborado, quase como uma segunda vida vivida na mente. A quarta é a flexibilidade de valores: uma tolerância elevada face ao que é pouco convencional, o que facilita o questionamento profundo de tradições impostas pela sociedade, em vez de as aceitar automaticamente só porque “sempre foi assim”.

Plasticidade cognitiva face a estabilidade

A análise estatística da personalidade demonstrou, ao longo de décadas de investigação, que os cinco grandes traços se agrupam ainda em fatores de ordem superior, isto é, categorias mais amplas que englobam vários traços ao mesmo tempo. A abertura à experiência, juntamente com a extroversão, forma o fator conhecido como plasticidade.

A plasticidade reflete a tendência, com uma base biológica identificável, para interagir de forma contínua com estímulos novos, impulsionando o crescimento pessoal e aquilo que os psicólogos chamam de realização de si mesmo, ou seja, a sensação de estar a desenvolver plenamente o próprio potencial.

Este mecanismo permite que a pessoa assimile a mudança de forma natural, quase sem esforço consciente. Quem pontua alto em plasticidade procura aventuras, desenvolve a criatividade com mais facilidade e sente-se confortável na ambiguidade, isto é, em situações onde não há uma resposta clara e definida. Processa os imprevistos como desafios intelectuais interessantes, em vez de os percecionar como alterações perigosas à sua rotina, o que muda bastante a forma como se vive uma mudança inesperada.

Variações da abertura consoante a idade

O desenvolvimento da personalidade não é um bloco estático, fixo desde o nascimento até à morte. A investigação mostra, pelo contrário, padrões claros na evolução deste traço ao longo do tempo, demonstrando que interage ativamente com a maturação biológica da pessoa e com o meio em que vive.

Durante a adolescência, as pessoas costumam experimentar um aumento notável na sua abertura à experiência, à medida que exploram novas ideias, novos grupos sociais e novas formas de pensar sobre o mundo. Esta tendência de crescimento intelectual e social atinge o seu ponto máximo por volta dos 25 anos. A partir dessa idade, a curva de desenvolvimento tende a estabilizar-se, e a necessidade extrema de estímulos novos começa a desacelerar gradualmente ao chegar-se à meia-idade, sem que isso signifique perder a curiosidade por completo.

O impacto direto no autoconceito

A forma como processamos a novidade influencia fortemente a valorização que fazemos de nós próprios. A evidência empírica confirma uma associação direta entre a plasticidade cognitiva, de que já falámos, e os níveis de autoestima.

As pessoas com uma abertura alta costumam sentir-se mais à vontade consigo próprias. Ao procurarem ativamente novas experiências e ao adaptarem-se bem às mudanças, recebem uma retroalimentação favorável do seu meio social e académico, ou seja, feedback positivo por parte de quem as rodeia. Este reforço externo constante aumenta a sua segurança interna e fomenta um juízo muito positivo sobre as suas próprias capacidades, criando uma espécie de círculo virtuoso entre curiosidade e autoestima.

Duas vertentes: cultura e experiência

No âmbito da avaliação aplicada, alguns instrumentos de medição desdobram a abertura em duas subdimensões práticas que facilitam a sua compreensão em processos de seleção ou de desenvolvimento profissional.

A abertura à cultura mede o grau de interesse pela leitura, pela informação global e pela aprendizagem contínua ao longo da vida. Define pessoas instruídas que gostam de operar em ambientes intelectualmente estimulantes, onde há sempre algo novo para aprender.

A abertura à experiência, por sua vez, avalia a disposição direta para inovar na prática. Mede a facilidade com que uma pessoa aceita mudanças na sua rotina diária, adota soluções alternativas quando a habitual não funciona, e se envolve em contextos profissionais desconhecidos sem mostrar grande resistência.

Respaldo científico: o fator mais difícil de traduzir

A abertura é, segundo o seu próprio impulsionador académico Robert McCrae, o fator do Big Five que pior é captado pelo vocabulário quotidiano. O inglês, por exemplo, mal tem adjetivos de uso comum para descrever a sensibilidade estética (a palavra mais próxima, “artístico”, descreve quem produz arte, não quem a aprecia, o que é uma diferença importante), e o mesmo problema de vocabulário aparece noutras línguas. Isto explica em parte por que custou mais identificar este fator do que os outros quatro durante a fase inicial da investigação lexical, décadas atrás. Ainda assim, tal como os restantes quatro fatores, tem uma base hereditária demonstrada em estudos feitos com gémeos, e replica-se de forma consistente num estudo que abrangeu 50 culturas diferentes em todo o mundo (McCrae, Terracciano e colaboradores, 2005).

Um dos seus correlatos mais citados na literatura científica é a relação entre abertura e liberalismo social e político: as pessoas com pontuações altas neste traço tendem a mostrar-se mais recetivas à mudança social, independentemente da sua ideologia política concreta. Existe ainda um cruzamento interessante com outro teste do site: a preferência “Intuição” do MBTI corresponde, empiricamente, a este mesmo fator do Big Five (McCrae e Costa, 1989), o que mostra como diferentes modelos de personalidade acabam por descrever, com palavras diferentes, ideias semelhantes.

Queres saber mais sobre ti?

Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.

Perguntas frequentes

O que é a abertura à experiência (Openness)?

O traço de personalidade que mede a curiosidade intelectual, a imaginação e a tolerância face ao desconhecido ou pouco convencional.

Que facetas inclui a abertura à experiência?

Curiosidade intelectual, sensibilidade estética, fantasia e imaginação, e flexibilidade de valores.

Como muda a abertura com a idade?

Aumenta durante a adolescência, atinge o seu ponto máximo por volta dos 25 anos e estabiliza-se a partir daí.

Aviso legal: Os testes deste site têm uma finalidade puramente orientativa e de entretenimento. Não substituem, em caso algum, avaliações oficiais. O MBTI® é uma marca registada da The Myers & Briggs Foundation, Inc. Este site é totalmente independente e não tem qualquer afiliação, patrocínio, aprovação ou direitos sobre essa propriedade intelectual. Se quiseres realizar a avaliação oficial e validada, visita o site da The Myers & Briggs Company.