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Big Five

Quais são as críticas ao teste de personalidade dos Cinco Grandes?

Pela redação do Personaramic7 min de leitura
Ilustração minimalista de um pentagrama geométrico representando as cinco dimensões do Big Five

O modelo dos Cinco Grandes é o quadro de personalidade com mais apoio empírico na psicologia atual. Isso não o livra de críticas, e algumas são sérias. Conhecê-las não invalida o modelo, mas ajuda a ler qualquer resultado com mais critério.

As objeções repartem-se por cinco frentes: a validade fora das culturas ocidentais, a falta de teoria explicativa, o número de fatores, a medição (versões breves e falseamento) e a interpretação das pontuações extremas.

Este artigo tem um fim informativo e não substitui a avaliação de um profissional qualificado.

O viés cultural a favor de populações ocidentais e industrializadas

Boa parte da psicologia foi construída com amostras ocidentais, escolarizadas, industrializadas, ricas e democráticas, aquilo que Henrich, Heine e Norenzayan (2010) resumiram com o acrónimo inglês WEIRD. O Big Five não é exceção. O facto de a sua estrutura aparecer em dezenas de países não prova que seja universal, se esses países partilham estudantes universitários, escolarização e familiaridade com questionários.

O caso tsimane

A prova mais citada é o estudo de Gurven e colaboradores (2013) com os tsimane, um povo de horticultores e recoletores da Amazónia boliviana. Com uma amostra ampla e avaliação feita tanto pelos próprios como por outros, a estrutura de cinco fatores não se replicou. Surgiram dois fatores principais: um de prossocialidade, a tendência para cooperar, e outro de laboriosidade, a disposição para o trabalho. Os autores propõem que, em sociedades pequenas onde a vida depende de poucos papéis, os traços se organizam em torno do que essas tarefas exigem.

O problema de medir longe de casa

Laajaj e colaboradores (2019) deram mais um passo com dados de 94.751 pessoas em 23 países de rendimento baixo e médio, inquiridas presencialmente. Os itens habituais do Big Five mediram mal os traços que pretendiam medir: validade baixa e estruturas que não se pareciam com a esperada. Em contrapartida, em inquéritos online com pessoas autosselecionadas desses mesmos países, a validade foi muito maior.

Entre as causas apontadas: a aquiescência (a tendência para dizer “sim” a quase tudo, mais frequente com menos escolarização), a influência de quem faz a entrevista e a pouca familiaridade com este tipo de perguntas. A crítica, portanto, não é só que os traços sejam diferentes noutras culturas; é que por vezes o instrumento não consegue medi-los.

A abertura, o fator mais instável

Dos cinco, a abertura à experiência é o que pior viaja entre línguas. Em alguns estudos lexicais europeus o quinto fator aparece como intelecto, noutros como imaginação e noutros como falta de convencionalismo. Essa variação de conteúdo explica porque por vezes se lhe chama Intelecto e por vezes Abertura, um debate que tratamos em se o modelo dos cinco grandes e o Big Five são a mesma coisa.

A falta de uma teoria explicativa

A objeção teórica clássica foi formulada por Jack Block (1995) e Dan McAdams (1992). Block defendia que o modelo dos cinco fatores tem problemas metodológicos e concetuais e que, em rigor, não é uma teoria. McAdams aceitava que serve para ordenar descrições de traços, mas observava que diz pouco sobre as causas da personalidade, sobre o modo como se organiza dentro de cada indivíduo e sobre o seu desenvolvimento ao longo da vida.

A origem do problema está no método. O modelo saiu da hipótese lexical: analisou-se que palavras da língua tendem a aplicar-se em conjunto às mesmas pessoas. Isso produz uma boa classificação, mas uma classificação, por si só, não explica nada. O facto de “arrumado” e “pontual” andarem juntos não diz porquê.

A crítica continua a ser útil, embora já não seja tão exata como nos anos noventa. Costa e McCrae responderam a Block nesse mesmo ano e, desde então, foram propostas teorias explicativas construídas sobre o modelo, como a teoria dos cinco fatores de McCrae e Costa ou a teoria cibernética de DeYoung (2015), que revemos em qual é a teoria dos 5 grandes traços. Nenhuma está fechada, mas já não é correto dizer que o Big Five não tem qualquer tentativa de explicação.

Cinco fatores ou seis? O modelo HEXACO

Outra linha de crítica não discute o método, mas o resultado. Michael Ashton e Kibeom Lee, ao analisarem estudos lexicais em várias línguas, encontraram com frequência seis fatores, não cinco. O seu modelo HEXACO (Ashton e Lee, 2007) inclui:

  • Honestidade-Humildade, um fator novo: sinceridade, justiça, modéstia e evitamento da cobiça.
  • Emocionalidade, parecida com o neuroticismo, mas com mais peso do medo e da sentimentalidade, e sem a irritabilidade.
  • Extroversão, Amabilidade (que absorve a irritabilidade e a paciência), Responsabilidade e Abertura.

A diferença tem consequências práticas. A Honestidade-Humildade prevê comportamentos como a manipulação, a exploração dos outros ou o comportamento contraproducente no trabalho melhor do que qualquer um dos cinco fatores clássicos, que só a captam parcialmente através da amabilidade.

Outros autores, em sentido contrário, defendem que cinco fatores são poucos para captar matizes relevantes e que a informação útil está nas facetas, os trinta componentes mais finos que o NEO-PI-R mede. É um debate parecido com o de outros modelos de personalidade, cada um com os seus próprios limites.

Limitações das ferramentas de medição

As versões breves

Muitos testes online, incluindo o modo rápido do nosso, usam muito poucos itens por traço. As objeções metodológicas a estas versões são conhecidas:

  • Menor fiabilidade do que os inventários completos, que usam muitas mais perguntas por traço.
  • Nenhuma informação sobre facetas: com dois itens não é possível distinguir, por exemplo, a assertividade da procura de emoções dentro da extroversão.
  • Pior controlo dos enviesamentos de resposta, como a aquiescência, quando não há itens invertidos suficientes para a compensar.
  • Estimativas menos precisas do traço latente, que não se mede diretamente e tem de ser inferido a partir de várias respostas.

O falseamento em contextos de seleção

Os questionários de autorrelato são transparentes: é fácil adivinhar que resposta fica melhor. Num processo de seleção, isso pesa. A meta-análise de Birkeland e colaboradores (2006), com 33 estudos, comparou candidatos a um emprego com pessoas que respondiam sem nada em jogo. Os candidatos pontuaram mais alto em responsabilidade (d = 0,45) e estabilidade emocional (d = 0,44), e bastante menos em extroversão e abertura. Em algumas funções, como vendas, o padrão deslocava-se para os traços mais valorizados nesse trabalho. É por isso que os inventários profissionais incluem escalas de desejabilidade ou distorção, e é por isso que um perfil obtido num processo de seleção se interpreta com mais cautela do que um obtido em investigação.

Mais nem sempre é melhor: os extremos

Uma leitura ingénua do Big Five supõe que, nos traços “desejáveis”, quanto mais, melhor. Os dados não o confirmam por inteiro. Le e colaboradores (2011) encontraram relações curvilíneas entre alguns traços e o desempenho profissional: na responsabilidade e na estabilidade emocional, o rendimento aumentava com o traço até certo ponto e depois deixava de melhorar ou piorava, sobretudo em funções de baixa complexidade.

Um exemplo concreto: alguém com uma responsabilidade muito alta pode dedicar tanto tempo a rever um relatório que o entrega tarde, ou ter dificuldades quando o trabalho exige improvisar. Não é o mesmo que o perfeccionismo, que é um constructo distinto com investigação própria, mas ilustra a ideia de que cada polo tem custos e benefícios consoante o contexto.

Com estas limitações em mente, podes fazer o nosso teste Big Five e tirar as tuas próprias conclusões sobre o que o teu resultado reflete.

Fontes

  • Ashton, M. C. e Lee, K. (2007). Empirical, theoretical, and practical advantages of the HEXACO model of personality structure. Personality and Social Psychology Review, 11(2), 150-166.
  • Birkeland, S. A., Manson, T. M., Kisamore, J. L., Brannick, M. T. e Smith, M. A. (2006). A meta-analytic investigation of job applicant faking on personality measures. International Journal of Selection and Assessment, 14(4), 317-335. doi:10.1111/j.1468-2389.2006.00354.x
  • Block, J. (1995). A contrarian view of the five-factor approach to personality description. Psychological Bulletin, 117(2), 187-215.
  • DeYoung, C. G. (2015). Cybernetic Big Five Theory. Journal of Research in Personality, 56, 33-58.
  • Gurven, M., von Rueden, C., Massenkoff, M., Kaplan, H. e Lero Vie, M. (2013). How universal is the Big Five? Testing the five-factor model of personality variation among forager-farmers in the Bolivian Amazon. Journal of Personality and Social Psychology, 104(2), 354-370.
  • Henrich, J., Heine, S. J. e Norenzayan, A. (2010). The weirdest people in the world? Behavioral and Brain Sciences, 33(2-3), 61-83.
  • Laajaj, R., Macours, K., Pinzon Hernandez, D. A., Arias, O., Gosling, S. D., Potter, J., Rubio-Codina, M. e Vakis, R. (2019). Challenges to capture the big five personality traits in non-WEIRD populations. Science Advances, 5(7), eaaw5226. doi:10.1126/sciadv.aaw5226
  • Le, H., Oh, I.-S., Robbins, S. B., Ilies, R., Holland, E. e Westrick, P. (2011). Too much of a good thing: Curvilinear relationships between personality traits and job performance. Journal of Applied Psychology, 96(1), 113-133.
  • McAdams, D. P. (1992). The five-factor model in personality: A critical appraisal. Journal of Personality, 60(2), 329-361.

Queres saber mais sobre ti?

Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.

Perguntas frequentes

Qual é a principal crítica cultural ao Big Five?

Que foi validado sobretudo em populações ocidentais e industrializadas. Entre os tsimane da Bolívia, a estrutura de cinco fatores não se replicou, e em inquéritos presenciais em 23 países de rendimento baixo e médio os itens habituais mediram mal os traços que pretendiam medir.

O Big Five explica porque existem os traços de personalidade?

O modelo em si é descritivo: organiza os traços estatisticamente. Foi essa a crítica de Block e McAdams nos anos noventa. Desde então surgiram teorias explicativas construídas sobre ele, como a de McCrae e Costa ou a Cibernética de DeYoung, embora continuem em discussão.

Que problema têm as versões abreviadas do teste?

Costumam ser menos fiáveis, não avaliam facetas específicas de cada dimensão e controlam pior os enviesamentos de resposta.

É possível falsear um teste Big Five num processo de seleção?

Sim, em parte. Uma meta-análise de 33 estudos (Birkeland et al., 2006) verificou que os candidatos pontuam bastante mais alto do que os não candidatos em responsabilidade e estabilidade emocional, precisamente os traços mais valorizados num emprego.

O que é o modelo HEXACO?

Uma alternativa de seis fatores proposta por Ashton e Lee a partir de estudos lexicais em várias línguas. Acrescenta a Honestidade-Humildade e reorganiza o conteúdo da amabilidade e do neuroticismo.