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Linguagens do amor

O que são os 'quatro cavaleiros do apocalipse' nas relações de casal?

Pela redação do Personaramic7 min de leitura
Ilustração minimalista com quatro linhas divergentes representando os quatro cavaleiros do apocalipse

John Gottman, depois de analisar milhares de horas de interação de casais reais na sua investigação na Universidade de Washington, identificou quatro padrões de comunicação concretos que, quando aparecem com frequência, se associam à deterioração de uma relação.

Chamou-lhes os “quatro cavaleiros do apocalipse”, indo buscar a imagem bíblica de quatro figuras cuja chegada anuncia o fim de alguma coisa.

Segundo a sua investigação, costumam surgir por uma ordem bastante previsível:

  • A crítica: uma queixa pontual que se generaliza num ataque ao carácter.
  • O desprezo: sarcasmo, troça ou superioridade moral, aquele que Gottman aponta como “o pior”.
  • A atitude defensiva: devolver a acusação em vez de ouvir o que a queixa tem de real.
  • A evasão (stonewalling): desligar-se por completo da conversa.

O primeiro cavaleiro: a crítica

Todas as relações têm queixas, e isso, segundo Gottman, não é um problema em si.

O problema começa quando uma queixa concreta se transforma numa crítica generalizada ao carácter do outro.

Uma queixa aponta um comportamento pontual: “não lavaste a loiça ontem à noite”. Uma crítica transforma esse mesmo comportamento numa acusação sobre quem a outra pessoa é: “nunca pensas em mais ninguém senão em ti, és um egoísta”.

A diferença parece subtil, mas é decisiva: a primeira formulação deixa espaço para corrigir algo concreto, a segunda ataca a identidade inteira do outro, e por isso é muito mais difícil de ouvir sem ficar na defensiva.

O segundo cavaleiro: o desprezo

Dos quatro, o desprezo é o que Gottman identifica explicitamente como “o pior”.

Inclui o sarcasmo, o cinismo, a troça, revirar os olhos ou qualquer gesto que comunique que se olha para o outro de uma posição de superioridade moral ou intelectual.

O que distingue o desprezo da simples crítica é a mensagem de fundo: não se aponta só um defeito, transmite-se repulsa ou rejeição pela pessoa que o tem.

Gottman verificou que o desprezo é, dos quatro cavaleiros, o que com mais força prevê tanto a deterioração da relação como problemas de saúde física em quem o recebe de forma continuada, um dado que sublinha até que ponto o considera o mais nocivo dos quatro.

O terceiro cavaleiro: a atitude defensiva

Quando uma pessoa se sente atacada, injustamente acusada, a reação natural é defender-se.

Gottman documenta que esta atitude defensiva, embora pareça uma resposta razoável à crítica ou ao desprezo, na realidade agrava o conflito em vez de o resolver: em vez de ouvir o que há de real na queixa do outro, quem está na defensiva concentra-se em demonstrar que não tem culpa, muitas vezes devolvendo a acusação (“eu não fazia isto se tu não fizesses aquilo primeiro”).

O resultado é que nenhum dos dois se sente ouvido, e a conversa fica presa numa troca de censuras em vez de avançar para algum lado.

O quarto cavaleiro: a evasão (stonewalling)

O último cavaleiro a aparecer, segundo a ordem que Gottman descreve, é a evasão total do contacto, aquilo a que ele chama “stonewalling”: um dos dois deixa de responder, evita o olhar, retira-se fisicamente ou fecha-se num silêncio que corta qualquer possibilidade de diálogo.

Ao contrário dos três cavaleiros anteriores, que são formas de comunicação ativa (ainda que nociva), a evasão é a ausência de comunicação: quem a pratica deixa de participar por completo na troca, muitas vezes como forma de se proteger de um nível de tensão que sente como insustentável, num estado de ativação fisiológica tão alto que, segundo Gottman, deixa a pessoa apenas com as respostas mais reflexas do seu repertório (atacar ou fugir), sem margem real para resolver nada.

Um dado que Gottman aponta especificamente sobre este quarto cavaleiro: em 85 % dos casamentos da sua investigação, quem pratica a evasão é o marido, não a mulher.

Atribui-o, a título de hipótese, não a uma falha pessoal mas a uma possível herança evolutiva: segundo o seu raciocínio, ao longo da história da espécie as mulheres teriam desenvolvido mais facilidade para se acalmarem depressa depois do stress (uma vantagem ligada à criação dos filhos), enquanto os homens, no papel historicamente associado à caça e à vigilância do meio, teriam conservado uma ativação fisiológica mais prolongada perante a ameaça percebida.

Gottman apresenta esta explicação como uma hipótese, não como um facto biológico provado. Convém acrescentar que os seus dados vêm sobretudo de casamentos heterossexuais norte-americanos, pelo que a distribuição por sexo diz pouco sobre casais de outros contextos.

A inundação: porque é que um dos dois se fecha

Gottman chama inundação (flooding) ao estado em que a ativação fisiológica é tão alta que a pessoa se sente transbordada: o pulso dispara, custa ouvir e só ficam à mão as respostas mais automáticas. Nas suas palestras situa o sinal de alarme por volta das cem pulsações por minuto, embora seja uma referência aproximada que varia com a forma física de cada um.

Visto assim, a evasão nem sempre é frieza: muitas vezes é uma tentativa desajeitada de se proteger da inundação. O Instituto Gottman cita um estudo em que casais que, depois de discutirem durante um quarto de hora, passavam meia hora a ler revistas retomavam a conversa com o pulso mais baixo e uma interação mais positiva.

Porque é que a ordem importa

Gottman não descreve estes quatro padrões como fenómenos isolados, mas como uma sequência que costuma acontecer por esta ordem:

  1. a crítica repetida dá lugar ao desprezo,
  2. o desprezo gera atitude defensiva em quem o recebe,
  3. e quando a atitude defensiva se torna crónica, um dos dois acaba por evitar o contacto por completo.

Reconhecer em que ponto dessa sequência está uma discussão concreta é, segundo a sua investigação, mais informativo do que olhar apenas para o tema de fundo que a originou.

Os quatro cavaleiros não descrevem sobre o que discutem os casais, mas como o fazem, e é essa forma que a sua investigação associa ao desfecho da relação a longo prazo.

Os antídotos: o que Gottman propõe para cada cavaleiro

Gottman não ficou pelo diagnóstico. O Instituto Gottman resume a sua proposta em quatro “antídotos”, um por cavaleiro:

CavaleiroAntídotoComo soa
CríticaArranque suave: falar do que se sente e precisa, sem culpar”Fico aflita ao ver a loiça quando chego; podemos revezar-nos?” em vez de “nunca fazes nada”
DesprezoCultura de apreço e respeito: exprimir gratidão com regularidadeReparar e dizer o que o outro faz bem, também fora das discussões
Atitude defensivaAssumir a parte de responsabilidade que nos cabe, mesmo que pequena”Tens razão, não avisei; devia tê-lo feito”
EvasãoAutorregulação fisiológica: pedir uma pausa e voltar”Preciso de vinte minutos para me acalmar; depois continuamos”

A pausa tem uma nuance importante: não é fugir da conversa, mas anunciar que se vai voltar a ela. Para quem tem tendência a fechar-se, essa diferença muda por completo a forma como o outro a recebe.

O que dizem os dados, e os seus limites

Os cavaleiros não são só uma metáfora de livro. No estudo de Gottman e Robert Levenson (1992) com 73 casais acompanhados entre 1983 e 1987, os casais com mais interações negativas mostravam mais atitude defensiva, mais teimosia e retirada da conversa, pior saúde e mais risco de separação.

Ao mesmo tempo, há dois limites a ter presentes. O primeiro: os famosos números de previsão do divórcio foram calculados sobre os mesmos casais com que se construíram os modelos, e a precisão cai muito quando é posta à prova em amostras novas (Heyman e Slep, 2001); explicamo-lo no artigo sobre o Love Lab. O segundo: a maioria das amostras é de casais heterossexuais norte-americanos. Os cavaleiros descrevem bem padrões de comunicação nocivos; o que não oferecem é um prognóstico individual.

Se queres verificar se usas estes padrões nas tuas próprias discussões, temos um teste específico: uso os quatro cavaleiros do apocalipse nas discussões?

Fontes

Perguntas frequentes

Porque é que Gottman lhes chama 'quatro cavaleiros do apocalipse'?

É uma referência bíblica que usa como metáfora: segundo a sua investigação, estes quatro padrões de comunicação, quando aparecem de forma persistente, anunciam a deterioração de uma relação quase tão claramente como os cavaleiros bíblicos anunciam o fim.

Qual é a diferença entre uma queixa e uma crítica?

Uma queixa aponta um comportamento concreto e pontual. Uma crítica generaliza esse comportamento como um defeito de carácter permanente, e por isso é muito mais difícil de ouvir sem nos sentirmos atacados.

Basta evitar os quatro cavaleiros para ter uma boa relação?

Gottman descreve-os como preditores fortes de deterioração, não como a única variável em jogo: a sua ausência não garante, por si só, uma relação satisfatória, embora a sua presença persistente se associe, sim, a maior risco de rutura.

O que é a 'inundação' emocional de que Gottman fala?

É o estado de ativação fisiológica intensa (pulso acelerado, sensação de transbordar) em que uma pessoa já não consegue processar bem o que ouve. Gottman associa-o à evasão: quem fica inundado tende a fechar-se. Por isso a sua proposta é fazer uma pausa de pelo menos vinte minutos antes de retomar a conversa.