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Linguagens do amor

Presentes como linguagem do amor: o detalhe que simboliza carinho

Pela redação do Personaramic6 min de leitura
Ilustração minimalista com uma caixa de presente representando os presentes como linguagem do amor

Presentes: quando um objeto simboliza ter sido tido em conta

Para quem tem os presentes como linguagem principal, o que importa não é o valor económico, mas a prova tangível de que alguém pensou nessa pessoa.

Um detalhe pequeno mas bem escolhido pode pesar mais do que um presente caro e genérico. O objeto funciona como símbolo: representa o tempo e a atenção que alguém dedicou a escolhê-lo, não a quantidade de dinheiro investida.

De onde vem esta linguagem

Gary Chapman, no seu livro de 1992 sobre as cinco linguagens do amor, resume a ideia por trás desta linguagem na mensagem que o presente transmite sem a dizer em voz alta: “estava a pensar em ti”.

Não tem de ser um objeto caro, nem sequer um objeto. Chapman fala também do “presente de si mesmo”: estar presente num momento em que o outro precisa, ou uma experiência partilhada.

Chapman apresenta-a como uma das linguagens mais fáceis de aprender, precisamente porque não depende de ter muito tempo livre nem de ter especial jeito com as palavras, mas de prestar atenção àquilo de que a outra pessoa gosta.

Podes verificar se os presentes são mesmo a tua linguagem principal, ou se predomina outra, com o nosso teste das linguagens do amor.

Como se manifesta

  • Guardam pequenos detalhes durante anos, não por acumulação, mas porque cada objeto representa um momento ou uma pessoa concreta.
  • Estão atentos aos gostos dos outros para poderem surpreender com algo relevante, não genérico.
  • Notam a ausência de gestos em datas importantes, mais como falta de atenção do que como falta de generosidade.
  • Valorizam tanto uma experiência partilhada como um objeto físico, desde que transmita a mesma mensagem de terem sido tidos em conta.

O que dizem as experiências sobre oferecer presentes

A psicologia social estudou os presentes com bastante mais pormenor do que o modelo de Chapman, e os resultados encaixam na intuição central desta linguagem: o preço importa menos do que pensa quem oferece.

O preço não compra apreço

Francis Flynn e Gabrielle Adams (2009) compararam o que esperam as pessoas que oferecem com o que sentem as que recebem. Num dos estudos, inquiriram pessoas acabadas de ficar noivas sobre o anel de noivado: quem o tinha comprado acreditava que um anel mais caro despertaria mais apreço, mas quem o recebeu não mostrava essa relação entre preço e apreço. O padrão repetiu-se com presentes de aniversário e em condições de laboratório.

A explicação proposta pelos autores é uma assimetria de perspetiva: quem oferece usa o preço como sinal de quanto pensou no outro; quem recebe repara noutras coisas, como se o objeto lhe é útil ou se diz algo sobre a relação.

O que foi pedido agradece-se mais do que se pensa

Francesca Gino e Francis Flynn (2011) estudaram listas de casamento e situações semelhantes. Quem oferecia partia do princípio de que um presente não pedido pareceria mais atencioso. Quem recebia pensava o contrário: apreciava mais aquilo que tinha pedido e até o considerava mais atencioso.

Para esta linguagem, a descoberta matiza uma ideia muito difundida: a surpresa não é a única forma de mostrar atenção. Lembrar o que o outro disse que queria também é ter estado atento.

Um exemplo do dia a dia

Durante um jantar, uma pessoa comenta de passagem que a caneta com que assinava no primeiro emprego era a única que não lhe sujava a mão. Semanas depois recebe uma igual, sem ocasião especial. O objeto custa pouco; o que comunica é que aquele comentário foi ouvido. É exatamente o tipo de gesto que os estudos anteriores descrevem: custo baixo, sinal de atenção alto.

Algumas nuances que costumam associar-se a esta linguagem

  1. O pensamento acima do preço: um objeto barato mas ligado a algo específico da outra pessoa costuma ter mais peso do que um caro e aleatório, algo que os dados de Flynn e Adams confirmam.
  2. A observação prévia: os comentários soltos sobre aquilo de que alguém gosta costumam dar melhores ideias do que qualquer data assinalada.
  3. O risco da obrigação: segundo Chapman, o presente perde o significado se se transformar numa formalidade em vez de um gesto genuíno.
  4. As outras linguagens: os presentes simbolizam carinho, mas não substituem a necessidade de palavras, tempo ou toque se a outra pessoa também os valorizar.

O que diz a investigação sobre as linguagens do amor

O modelo de Chapman nasceu da sua experiência como conselheiro pastoral, não de estudos controlados. A revisão de Impett, Park e Muise (2024) na Current Directions in Psychological Science conclui que a evidência disponível não sustenta com força os seus três pressupostos centrais: que cada pessoa tenha uma linguagem preferida, que sejam exatamente cinco e que os casais estejam mais satisfeitos quando cada um “fala” a do outro.

Há dados nos dois sentidos. Um estudo com 100 casais heterossexuais (Mostova, Stolarski e Matthews, 2022) verificou que quem expressava o carinho da forma como o parceiro preferia recebê-lo estava mais satisfeito com a relação. É um estudo correlacional e com uma amostra modesta, por isso lê-se melhor como indício do que como prova. Impett e os colegas propõem outra metáfora: o amor parece-se menos com uma língua e mais com uma dieta equilibrada, em que são precisos todos os nutrientes.

Na redação lemos a linguagem dos presentes com essa ideia: mais do que um rótulo fixo, é uma forma útil de dar nome a uma necessidade concreta, a de se sentir tido em conta de forma visível.

O mesmo presente, lido de duas formas opostas

John Gottman descreve um fenómeno a que chama substituição de sentimento positivo ou negativo: consoante o clima de fundo de uma relação, até os gestos neutros ou bem-intencionados são interpretados de forma oposta.

Quando predomina o sentimento positivo, um presente lê-se como prova de carinho. Quando predomina o negativo, o mesmo presente pode ser lido com desconfiança, como uma tentativa de compensar alguma coisa. Para quem tem esta linguagem, o peso de um detalhe depende também do clima emocional em que é recebido, e não só de ter sido bem escolhido.

Fontes

  • Chapman, G. (1992). The Five Love Languages: How to Express Heartfelt Commitment to Your Mate. Northfield Publishing.
  • Flynn, F. J. e Adams, G. S. (2009). Money can’t buy love: Asymmetric beliefs about gift price and feelings of appreciation. Journal of Experimental Social Psychology, 45(2), 404-409. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2008.11.003
  • Gino, F. e Flynn, F. J. (2011). Give them what they want: The benefits of explicitness in gift exchange. Journal of Experimental Social Psychology, 47(5), 915-922. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2011.03.015
  • Gottman, J. M. e Silver, N. (1999). The Seven Principles for Making Marriage Work. Crown.
  • Impett, E. A., Park, H. G. e Muise, A. (2024). Popular psychology through a scientific lens: Evaluating love languages from a relationship science perspective. Current Directions in Psychological Science, 33(2), 87-92. https://doi.org/10.1177/09637214231217663
  • Mostova, O., Stolarski, M. e Matthews, G. (2022). I love the way you love me: Responding to partner’s love language preferences boosts satisfaction in romantic heterosexual couples. PLOS ONE, 17(6), e0269429. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0269429

Perguntas frequentes

Ter os presentes como linguagem do amor é materialismo?

Não. O que se valoriza é o gesto e o pensamento por trás do objeto, não o seu preço. As experiências de Flynn e Adams (2009) apontam no mesmo sentido: o apreço de quem recebe um presente não aumenta com o que custou, embora quem oferece costume acreditar que sim.

Que tipo de presentes funcionam melhor com esta linguagem?

Os que mostram que houve atenção: algo relacionado com um gosto, uma conversa antiga ou um momento partilhado, mais do que um objeto valioso mas impessoal. Gino e Flynn (2011) verificaram ainda que quem recebe aprecia mais aquilo que tinha pedido explicitamente do que quem oferece imagina.

Esta linguagem pode ser confundida com a falta de outros gestos?

Vista de fora, pode parecer superficial se não se perceber que o presente é um símbolo, não um substituto: quem tem esta linguagem também valoriza as palavras, o tempo ou o toque, mas o objeto físico tem um peso simbólico especial.

Está demonstrado que cada pessoa tem uma linguagem do amor principal?

Não totalmente. A revisão de Impett, Park e Muise (2024) conclui que a evidência não sustenta com força que cada pessoa tenha uma linguagem preferida nem que existam exatamente cinco. O modelo serve sobretudo como vocabulário para falar do que cada um precisa.