Personaramic
Linguagens do amor

O que é o 'Love Lab' de John Gottman?

Pela redação do Personaramic7 min de leitura
Ilustração minimalista com dois círculos ligados por uma linha representando o Love Lab de Gottman

Um apartamento-laboratório para observar casais a sério

John Gottman, psicólogo e investigador da Universidade de Washington, passou várias décadas a estudar o que distingue os casais que se mantêm unidos e satisfeitos dos que acabam por se separar. Para isso, não se contentou com inquéritos nem com entrevistas retrospetivas.

Montou aquilo a que ele próprio chama o “Love Lab”: um apartamento equipado como uma casa normal (cozinha, sofá, televisão) onde casais voluntários passavam uma noite inteira a fazer vida quotidiana enquanto uma equipa de investigadores os observava e gravava.

Os investigadores não se limitavam a ver o que os casais diziam. Registavam também a sua fisiologia, como o ritmo cardíaco ou a transpiração, enquanto comiam, conversavam ou discutiam algum tema delicado. A ideia de fundo era pouco habitual na psicologia do casal da época: em vez de perguntar às pessoas como acham que comunicam, observar como comunicam de facto, com o corpo a reagir em tempo real ao que dizem e ouvem.

De onde vêm os dados: os estudos publicados

Por trás do laboratório há artigos científicos concretos, e convém conhecê-los porque são mais modestos e mais interessantes do que o resumo popular:

  • Gottman e Levenson (1992) estudaram 73 casais em 1983 e voltaram a contactá-los em 1987. Os casais em que as interações negativas predominavam sobre as positivas tinham pior saúde, menor satisfação e mais risco de separação. Aqui aparece já o “modelo em cascata”: baixa satisfação, depois pensar em separar-se e por último separar-se, como degraus sucessivos.
  • Gottman, Coan, Carrère e Swanson (1998) acompanharam durante seis anos 130 casais recém-casados que tinham passado pelo apartamento. Um dos resultados mais citados é que a disponibilidade do marido para aceitar a influência da mulher previa a estabilidade, enquanto a “escuta ativa” de manual, a que se ensinava em muitas terapias, quase não aparecia nas discussões reais e não previa nada.
  • Carrère e Gottman (1999), com essa mesma amostra, olharam para os três primeiros minutos de uma discussão: os casais que acabaram por se divorciar começavam-nos com mais emoções negativas e menos positivas.

Cinco minutos, três estudos, 91 % de precisão

A descoberta pela qual Gottman é mais conhecido fora da academia está no seu livro Os Sete Princípios para o Casamento Resultar (1999, com Nan Silver): afirma conseguir prever se um casal vai continuar junto ou acabar por se separar depois de o ouvir no laboratório durante apenas cinco minutos, com uma precisão média de 91 % em três estudos.

Não se trata de um palpite clínico: é o resultado de aplicar um sistema de codificação à interação observada, procurando padrões concretos (que tom se usa, se o desacordo descamba em desprezo ou se mantém no terreno do argumento) que a sua equipa tinha isolado previamente.

O que significa realmente esse número

Esta é a parte que a divulgação costuma omitir. Essas previsões foram calculadas sobre os mesmos casais com que se tinha construído o modelo estatístico. É como desenhar um exame depois de conhecer as respostas: o ajuste sai altíssimo, mas não diz quanto acertaria com casais novos.

  • Richard Heyman e Amy Slep (2001) analisaram precisamente esse problema com dados de arquivo e mostraram que, quando uma equação de previsão do divórcio é posta à prova numa amostra diferente (validação cruzada), a precisão cai de forma drástica. Lembraram também que é preciso ter em conta a frequência real do divórcio na população: se é baixa, muitos dos casais assinalados como “de risco” acabam por não se divorciar.
  • Scott Stanley, Thomas Bradbury e Howard Markman (2000) alertaram para outro salto: que certos comportamentos prevejam o divórcio não demonstra que ensinar a mudá-los o evite. Do dado observacional à intervenção há uma ponte que tem de ser verificada à parte.

Nenhuma das duas críticas invalida o trabalho de Gottman, que continua a ser uma das bases observacionais mais ricas sobre casais. O que fazem é pôr os 91 % no seu lugar: um resultado de ajuste dentro das suas próprias amostras, não uma capacidade de prever o futuro de qualquer casal.

O que observa exatamente a análise

O sistema de codificação não se fixa no tema da conversa, mas na forma. Analisa, entre outras coisas:

  • Se um desacordo começa com aquilo a que ele chama um “arranque brusco” (criticar o carácter do outro logo na primeira frase) ou com uma apresentação mais cuidadosa do problema.
  • Se, quando um dos dois exprime uma queixa, o outro responde aos factos ou à defensiva.
  • O tom, o olhar e os gestos que acompanham cada troca, não apenas as palavras.

Estes sinais, aparentemente minúsculos, revelaram-se mais preditivos do desfecho do que o tema concreto da discussão. No livro, Gottman ilustra o método com um casal a que chama Dara e Oliver, observado durante a estadia no apartamento: o que interessa à equipa é como gerem um desacordo pontual, mais do que o conteúdo do desacordo.

Porque é que este método mudou o estudo dos casais

Antes deste tipo de investigação, boa parte do que se sabia sobre casais vinha de terapeutas que descreviam casos clínicos, não de dados observacionais sistemáticos sobre casais sem problemas diagnosticados. O Love Lab permitiu acumular horas de interação real, comparar os casais que se mantinham estáveis com os que se separavam e isolar estatisticamente que comportamentos os diferenciavam.

Desse trabalho saíram conceitos que hoje circulam fora do meio académico: os “mapas do amor” (conhecer o mundo interior do outro, que tratamos em tempo de qualidade), os quatro cavaleiros ou a ideia de que a maioria dos conflitos de casal nunca chega a resolver-se de todo.

Casal, sistema imunitário e saúde

Um dos dados mais marcantes que Gottman conta no seu livro não tem a ver com a comunicação, mas com o corpo. Segundo o seu relato, ao analisar amostras de sangue de cinquenta casais que passaram pelo laboratório, a sua equipa encontrou diferenças na resposta dos glóbulos brancos entre os casais muito satisfeitos com a relação e os neutros ou insatisfeitos. No mesmo livro cita dados segundo os quais as pessoas casadas vivem, em média, mais quatro anos, e atribui parte desse efeito a hábitos de saúde partilhados.

A investigação posterior confirma a direção geral, com uma dimensão mais modesta. A meta-análise de Theodore Robles e colegas (2014), que reuniu 126 estudos com mais de 72 000 pessoas, verificou que uma melhor qualidade da relação se associa a melhor saúde, com efeitos pequenos (correlações entre 0,07 e 0,21), semelhantes aos de hábitos como a alimentação. Os próprios autores avisam que a maioria dos desenhos não permite afirmar causalidade.

Se te interessa como estas ideias se traduzem na forma como cada pessoa dá e recebe carinho, podes continuar com o nosso teste das linguagens do amor.

Fontes

  • Carrère, S. e Gottman, J. M. (1999). Predicting divorce among newlyweds from the first three minutes of a marital conflict discussion. Family Process, 38(3), 293-301. https://doi.org/10.1111/j.1545-5300.1999.00293.x
  • Gottman, J. M., Coan, J., Carrère, S. e Swanson, C. (1998). Predicting marital happiness and stability from newlywed interactions. Journal of Marriage and the Family, 60(1), 5-22. https://doi.org/10.2307/353438
  • Gottman, J. M. e Levenson, R. W. (1992). Marital processes predictive of later dissolution: Behavior, physiology, and health. Journal of Personality and Social Psychology, 63(2), 221-233. https://doi.org/10.1037/0022-3514.63.2.221
  • Gottman, J. M. e Silver, N. (1999). The Seven Principles for Making Marriage Work. Crown.
  • Heyman, R. E. e Slep, A. M. S. (2001). The hazards of predicting divorce without crossvalidation. Journal of Marriage and Family, 63(2), 473-479. https://doi.org/10.1111/j.1741-3737.2001.00473.x
  • Robles, T. F., Slatcher, R. B., Trombello, J. M. e McGinn, M. M. (2014). Marital quality and health: A meta-analytic review. Psychological Bulletin, 140(1), 140-187. https://doi.org/10.1037/a0031859
  • Stanley, S. M., Bradbury, T. N. e Markman, H. J. (2000). Structural flaws in the bridge from basic research on marriage to interventions for couples. Journal of Marriage and Family, 62(1), 256-264. https://doi.org/10.1111/j.1741-3737.2000.00256.x

Perguntas frequentes

É verdade que Gottman prevê divórcios com 91 % de precisão?

É o número que ele próprio reporta, em média sobre três estudos com casais observados no seu laboratório. Essas previsões foram calculadas sobre os mesmos casais com que se construiu o modelo, sem o testar em amostras novas, e Heyman e Slep (2001) mostraram que nesse caso a precisão cai muito ao ser validada. É uma descoberta de investigação interessante, não uma garantia aplicável a qualquer casal.

Em que é que o Love Lab difere de um simples inquérito a casais?

Em que não pergunta ao casal o que acha que faz bem ou mal, mas observa-o diretamente a conviver durante horas, incluindo a sua fisiologia, em vez de confiar apenas no que cada um conta de si.

Posso aplicar isto para saber se a minha relação vai durar?

Não de forma direta: a análise depende da codificação especializada de horas de interação real, não de uma autoavaliação. Serve mais para perceber o que a investigação observa do que como diagnóstico pessoal.

Quem trabalhou com Gottman nestas investigações?

O seu colaborador mais próximo nos estudos fisiológicos foi o psicólogo Robert Levenson. Nos estudos com recém-casados participaram, entre outros, James Coan, Sybil Carrère e Catherine Swanson. Muitas das ideias divulgadas depois foram escritas com a jornalista Nan Silver.