O que são as 'tentativas de ligação' (bids for connection) de Gottman?
No âmbito da sua investigação com casais no “Love Lab” da Universidade de Washington, John Gottman observou algo que acontece dezenas de vezes por dia em qualquer relação e que, segundo a sua análise, prevê melhor a estabilidade a longo prazo do que qualquer gesto romântico excecional: as pequenas tentativas de ligação, aquilo a que ele chama em inglês “bids for connection”. É a ideia central do seu livro The Relationship Cure (2001), escrito com Joan DeClaire, e um dos princípios de Os Sete Princípios para o Casamento Resultar.
Uma tentativa de ligação pode ser quase qualquer coisa:
- um comentário sobre algo que se acabou de ver,
- um olhar que procura o da outra pessoa,
- uma pergunta trivial,
- um “olha isto” enquanto se aponta para algo pela janela.
O que define uma tentativa de ligação não é o seu conteúdo, mas a sua função: é um pedido, quase sempre implícito, de atenção ou de companhia naquele instante concreto.
Três formas de responder a uma tentativa de ligação
Gottman identifica três respostas possíveis a uma destas tentativas, e defende que a proporção entre elas, acumulada ao longo do tempo, é um dos indicadores mais fiáveis de como corre uma relação:
- Voltar-se para a tentativa (turning toward): responder com atenção real, mesmo que breve. Olhar para o que o outro aponta, responder à pergunta trivial, manter o contacto visual um segundo mais do que o estritamente necessário. É a resposta que Gottman associa a relações estáveis.
- Afastar-se da tentativa (turning away): não responder, ou responder de forma tão mínima que equivale a ignorá-la. Não é necessariamente hostil, muitas vezes é só distração ou falta de atenção, mas o efeito acumulado é o mesmo: quem fez a tentativa não recebeu a resposta que procurava.
- Voltar-se contra a tentativa (turning against): responder com irritação, sarcasmo ou de forma beligerante ao que, na maioria dos casos, era um gesto inofensivo. É a menos frequente das três respostas, mas também a mais custosa para quem a recebe.
Porque é que a quantidade importa mais do que a intensidade
Uma das descobertas que Gottman sublinha sobre este mecanismo é que a maior parte da vida a dois é feita destas pequenas tentativas, não de grandes declarações nem de gestos excecionais.
Uma relação pode acumular dezenas de tentativas de ligação num só dia:
- comentários soltos durante o jantar,
- um olhar enquanto se faz uma tarefa doméstica,
- uma pergunta de passagem sobre como correu o dia.
Um aniversário especial ou uma viagem de sonho acontece, no máximo, umas poucas vezes por ano.
O peso relativo, segundo a sua investigação, pende claramente para as pequenas tentativas quotidianas, simplesmente porque há muitíssimas mais com que trabalhar.
Isto tem uma implicação direta: segundo Gottman, o que distingue um casal estável de um que se desgasta com o tempo não é a ausência de tentativas de ligação, ambos as geram constantemente, mas a percentagem dessas tentativas a que o casal responde voltando-se para o outro em vez de se afastar ou de responder com hostilidade.
Os casais que ele classifica como estáveis na sua investigação mostravam uma proporção bem mais alta de “voltar-se para” do que os que acabavam por se separar. O número que mais circula vem de um acompanhamento de recém-casados divulgado pelo próprio Instituto Gottman: seis anos depois do casamento, os casais que continuavam juntos tinham-se voltado para as tentativas do outro no laboratório cerca de 86 % das vezes; os que se tinham divorciado, cerca de 33 %.
Convém ler estes números com duas cautelas. Vêm das comunicações da própria equipa e não localizámos um artigo revisto por pares que os detalhe; e, como qualquer dado observacional, mostram uma associação, não que voltar-se para o outro seja a causa de a relação durar.
Há, sim, um estudo publicado sobre a importância destes pequenos momentos. Janice Driver e John Gottman (2004) observaram 49 casais recém-casados num jantar de dez minutos no laboratório e, em separado, numa discussão de quinze minutos. Os casais com mais brincadeira e entusiasmo nos momentos quotidianos mostravam mais humor e afeto durante o conflito. Os autores sublinham que o desenho é correlacional e que é preciso mais investigação para saber em que direção vai o efeito.
Um mecanismo que se retroalimenta
Gottman descreve também como este padrão tende a alimentar-se a si próprio com o tempo.
Quando uma pessoa recebe resposta às suas tentativas de ligação de forma consistente, tende a continuar a fazê-las com a mesma frequência, e a ver a relação em geral como um espaço seguro onde procurar essa atenção.
Quando, pelo contrário, as suas tentativas são ignoradas ou recebem respostas hostis de forma repetida, a pessoa tende a reduzir a frequência com que as faz, não porque deixe de precisar de ligação, mas porque aprendeu que pedi-la naquele contexto concreto não costuma ter resposta.
Com o tempo, isto pode traduzir-se numa relação em que os dois continuam a viver juntos mas trocam cada vez menos destes pequenos gestos, um padrão que Gottman relaciona com o desgaste gradual da ligação emocional entre ambos.
Porque é que as cenas mais aborrecidas do laboratório são as mais reveladoras
Gottman conta que, de todas as horas de gravação acumuladas no seu laboratório, as cenas que mais lhe interessam como investigador são precisamente as que menos interesse teriam para qualquer outra pessoa: um marido que comenta “olha aquele barco” enquanto olha pela janela, e a mulher que levanta os olhos um segundo da revista que está a ler para responder algo sobre uma embarcação parecida que viram no verão anterior.
Não há nenhuma revelação dramática nessa troca, mas é exatamente o tipo de momento que, segundo ele, permite distinguir com bastante fiabilidade os casais que vão continuar juntos dos que não: nas relações que ele classifica como estáveis, este tipo de troca breve e aparentemente trivial acontece constantemente; nas que acabam em separação ou numa convivência insatisfeita, a mulher muitas vezes nem sequer levanta os olhos da revista, e se o faz, o marido não reconhece o comentário de forma nenhuma.
Gottman aponta também algo parecido sobre a ideia popular da paixão romântica, que atribui em boa parte a uma imagem cultivada pelo cinema: o romance real, defende, não se alimenta de gestos excecionais, mas de uma atenção muito mais comum distribuída pelo dia a dia.
Dá exemplos deliberadamente pouco cinematográficos:
- o par que, no supermercado, responde com interesse real a uma pergunta tão banal como se ainda há lixívia em casa, em vez de encolher os ombros com indiferença;
- a pessoa que tira um minuto do seu dia de trabalho para deixar uma mensagem de ânimo ao par porque sabe que está a ter um mau dia;
- quem, mesmo com pressa para sair de casa, para para ouvir, ainda que brevemente, que o par teve um pesadelo na noite anterior, em vez de o pôr de lado por falta de tempo.
Nos três casos, segundo Gottman, o que está em jogo é a mesma decisão mínima: voltar-se para o outro ou afastar-se dele, repetida centenas de vezes ao longo de uma relação.
Este conceito liga-se diretamente à linguagem do amor do toque físico, em que muitas destas tentativas de ligação se exprimem de forma corporal: podes ler mais no nosso artigo sobre o toque físico como linguagem do amor. Se queres verificar quantas destas tentativas reconheces no teu dia a dia, temos um teste específico: reconheço as tentativas de ligação do meu par?
Fontes
- Driver, J. L. e Gottman, J. M. (2004). Daily marital interactions and positive affect during marital conflict among newlywed couples. Family Process, 43(3), 301-314. https://doi.org/10.1111/j.1545-5300.2004.00024.x
- Gottman, J. M. e DeClaire, J. (2001). The Relationship Cure. Crown.
- Gottman, J. M. e Silver, N. (1999). The Seven Principles for Making Marriage Work. Crown.
- The Gottman Institute. Turn toward instead of away. https://www.gottman.com/blog/turn-toward-instead-of-away/
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Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
O que é exatamente uma 'tentativa de ligação' para Gottman?
Qualquer gesto, comentário ou olhar com que uma pessoa procura a atenção, o afeto, o apoio ou o envolvimento do par, por mais pequeno ou aparentemente trivial que pareça.
Porque importam mais as tentativas pequenas do que os grandes gestos românticos?
Porque, segundo a investigação de Gottman, são muito mais frequentes: uma relação vive de dezenas destas pequenas tentativas por dia, enquanto os grandes gestos são excecionais. A forma como se responde às primeiras pesa mais no balanço geral.
Ignorar uma tentativa de ligação de vez em quando é grave?
Gottman não descreve um limiar rígido nem um erro pontual como determinante: o que a sua investigação associa ao desgaste de uma relação é o padrão persistente de se afastar destas tentativas, não um caso isolado.