De onde vêm as palavras colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico?
As quatro palavras que hoje usamos para descrever um temperamento (colérico, sanguíneo, fleumático, melancólico) vêm literalmente dos quatro líquidos corporais com que a medicina antiga explicava a saúde humana.
A sua viagem até ao nosso vocabulário tem quatro etapas: os médicos hipocráticos, que falaram de humores; Galeno, que falou de temperamentos; Kant, que os transformou em tipos de carácter, e Eysenck, que os traduziu em dimensões mensuráveis.
Hipócrates e a medicina dos quatro humores
Hipócrates, considerado o pai da medicina, viveu no século V antes de Cristo e distinguiu-se por uma ideia concreta: a doença não vinha de causas sobrenaturais nem de um castigo dos deuses, mas sim da própria natureza do corpo.
A formulação mais clara dos quatro humores está no tratado hipocrático Sobre a natureza do homem, escrito por volta de 400 a. C. e atribuído muitas vezes a Pólibo, genro de Hipócrates. Segundo esse texto, o corpo contém sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, e a saúde depende do equilíbrio entre eles. Quando o corpo vomitava, tossia ou suava, estaria a tentar livrar-se do excesso de algum desses líquidos.
Cada humor associava-se ainda a duas qualidades (quente ou frio, seco ou húmido), a uma estação do ano e a um dos quatro elementos de Empédocles: o sangue, ao ar e à primavera; a bílis amarela, ao fogo e ao verão; a bílis negra, à terra e ao outono; a fleuma, à água e ao inverno. Era um sistema completo para ordenar o mundo, e o corpo era uma parte dele.
Nos textos hipocráticos, no entanto, os humores explicam sobretudo a saúde e a doença. A ideia de que o humor predominante define o carácter de uma pessoa chegou depois.
Galeno: dos humores aos temperamentos
O passo decisivo foi dado por Galeno de Pérgamo, médico grego do século II que trabalhou em Roma. No seu tratado Sobre os temperamentos fala de krasis, mistura, que em latim se traduziu por temperamentum: a proporção em que as qualidades se combinam em cada corpo.
Galeno descreveu nove temperamentos, não quatro: um equilibrado, quatro com predomínio de uma qualidade e quatro com predomínio de duas. E relacionou essas misturas com disposições do ânimo: o excesso de bílis negra, por exemplo, com a tristeza e o medo.
A versão de quatro tipos que chegou até nós, cada um com o seu humor dominante e o seu retrato psicológico, é uma simplificação posterior. Consolidou-se na medicina da Antiguidade tardia e da Idade Média, que a transmitiu durante mais de mil anos até a transformar em linguagem comum.
A etimologia, palavra a palavra
Cada um dos quatro temperamentos conserva no nome o rasto do humor que lhe deu origem:
- Colérico, do grego kholé (bílis amarela): na classificação clássica, uma pessoa fogosa, enérgica e irritável, de reações rápidas e intensas.
- Sanguíneo, do latim sanguis (sangue): uma pessoa otimista, sociável e descontraída, de trato leve e contagiante.
- Fleumático, do grego phlegma (fleuma): uma pessoa pausada e tranquila, com uma calma que a outros temperamentos pode parecer indiferença.
- Melancólico, do grego melaina kholé (bílis negra), o humor que a teoria antiga situava no baço: uma pessoa reflexiva, sensível e com tendência para a tristeza.
Da mesma origem vêm expressões que continuamos a usar sem pensar na anatomia: estar de bom ou mau humor, ter sangue-frio ou a cólera como sinónimo de ira.
Kant: os temperamentos como tipos de carácter
Em 1798, Immanuel Kant dedicou um capítulo da sua Antropologia de um ponto de vista pragmático aos quatro temperamentos. Kant já não acreditava que o sangue ou a bílis explicassem fosse o que fosse; usava os nomes como descrições psicológicas.
O seu contributo foi ordená-los. Distinguiu dois temperamentos do sentimento, o sanguíneo e o melancólico, e dois da atividade, o colérico e o fleumático, e dentro de cada par um caracterizava-se pela vivacidade e o outro pela lentidão. Foi uma primeira tentativa de explicar os quatro tipos a partir de poucas dimensões de fundo, em vez de os tratar como quatro casas sem relação entre si.
Eysenck: a ponte com a psicologia atual
A ideia das dimensões foi desenvolvida no final do século XIX por Wilhelm Wundt e retomada no século XX pelo psicólogo Hans Eysenck. Eysenck, que media a personalidade com questionários e análises estatísticas, verificou que os quatro retratos clássicos encaixavam nos quadrantes formados por duas das suas dimensões, extroversão e neuroticismo (ou o seu contrário, a estabilidade emocional):
| Estável | Instável | |
|---|---|---|
| Extrovertido | Sanguíneo | Colérico |
| Introvertido | Fleumático | Melancólico |
É uma coincidência com fundamento. Os médicos antigos enganaram-se por completo na causa, porque os humores não explicam o carácter, mas tinham observado bem as pessoas: a sociabilidade e a reatividade emocional continuam a ser hoje dois dos eixos com mais peso na descrição da personalidade, e ambos fazem parte do modelo Big Five.
A suposta tipologia asteca
No seu livro de divulgação Omgiven av idioter (2014; em inglês, Surrounded by Idiots), o consultor sueco Thomas Erikson afirma que os astecas usavam uma classificação do temperamento baseada em quatro elementos (fogo, ar, terra e água), parecida com a grega, e que deixaram gravuras que a representam.
Erikson não cita nenhuma fonte para essa afirmação, e na redação não encontrámos documentação histórica que a sustente. A cosmologia mexica organizava de facto o mundo em quatro direções e narrava uma sucessão de eras ou sóis, mas daí não se deduz uma tipologia da personalidade. O mais prudente é tratá-la como uma história por verificar, não como um paralelismo histórico.
Do humor à cor: a linha que chega até hoje
A ideia de fundo, quatro grandes formas de reagir ao mundo, sobreviveu à queda da teoria médica que lhe deu origem e reapareceu em 1928 em Emotions of Normal People, do psicólogo William Moulton Marston.
Antes disso, Marston tinha investigado um terreno muito diferente: como contamos no artigo sobre o antecessor do detetor de mentiras que também inventou, o seu primeiro trabalho relacionava a pressão arterial com a mentira.
Marston não partiu de Hipócrates. As suas quatro categorias, a que chamou Dominance, Inducement, Submission e Compliance, resultavam do cruzamento de dois eixos: se uma pessoa perceciona o seu ambiente como favorável ou desfavorável, e se lhe responde de forma ativa, tentando mudá-lo, ou passiva, adaptando-se. Mas a arquitetura, quatro tipos nascidos do cruzamento de duas dimensões, é a mesma que Kant e Eysenck viram nos temperamentos clássicos.
Hoje essa ideia sobrevive, sem bílis nem fleuma, na linguagem das cores que os divulgadores do modelo DISC popularizaram: vermelho, amarelo, verde e azul. Se te perguntas qual combina mais contigo, o teste DISC das 4 cores mostra-o em poucos minutos.
Fontes
- Hipócrates (atribuído a Pólibo). (c. 400 a. C.). Sobre a natureza do homem. Corpus hipocrático.
- Galeno. (séc. II). Sobre os temperamentos (De temperamentis).
- Kant, I. (1798). Anthropologie in pragmatischer Hinsicht (Antropologia de um ponto de vista pragmático).
- Eysenck, H. J. (1967). The Biological Basis of Personality. Charles C. Thomas.
- Erikson, T. (2014). Omgiven av idioter. Hoi Förlag.
- Marston, W. M. (1928). Emotions of Normal People. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co.
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Perguntas frequentes
A teoria dos quatro humores tem alguma coisa a ver com o modelo DISC atual?
É um antecedente histórico, não a sua origem direta. O DISC nasce em 1928 com Marston; a teoria dos humores é mais de 2.000 anos anterior, mas ambas partilham a ideia de classificar o temperamento humano em quatro grandes grupos.
A teoria dos quatro humores ainda se usa em medicina?
Não. É um modelo histórico da medicina antiga, hoje sem validade clínica. Sobrevive como vocabulário quotidiano (chamar a alguém 'fleumático' ou 'melancólico'), não como diagnóstico médico.
Os astecas conheciam a teoria grega dos humores?
Não houve contacto entre as duas culturas. O divulgador Thomas Erikson menciona uma suposta classificação asteca do temperamento baseada em quatro elementos, mas não indica fontes, e na redação não encontrámos documentação histórica que a sustente. A cosmologia mexica organizava de facto o mundo em quatro direções e narrava várias eras ou sóis, mas isso não equivale a uma tipologia da personalidade.
Que relação têm os quatro temperamentos com a psicologia atual?
Nenhuma no que toca à explicação biológica: os humores não existem como causa do carácter. Mas Hans Eysenck mostrou que os quatro retratos clássicos encaixam surpreendentemente bem no cruzamento de duas dimensões mensuráveis, extroversão e estabilidade emocional: o sanguíneo seria extrovertido e estável; o colérico, extrovertido e instável; o melancólico, introvertido e instável, e o fleumático, introvertido e estável.