Personaramic
Vinculação

Porque é que trocar 'preciso de ti' por 'prefiro-te' pode ajudar a sair de uma relação de dependência?

Pela redação do Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista orgânica de duas formas separadas por um pequeno espaço, unidas por um traço curvo

“Lamento, mas o senhor não é a minha felicidade. Não, não é, e por isso liberto-me.”

Assim começa um dos exercícios que o psicólogo Walter Riso propõe no livro Desapegarse sin anestesia (2012): uma declaração que o leitor deve ler imaginando que se dirige à pessoa de quem depende.

Não é um exercício de ruptura, mas de linguagem, e a mudança que propõe é, na aparência, mínima: substituir um verbo por outro.

O apaixonado que pergunta “precisas de mim?”

Riso ilustra a diferença com um diálogo breve:

O apaixonado pergunta: “Precisas de mim, meu amor?”. Ela responde: “Não, prefiro-te”. O que é o mesmo que dizer: “Escolho estar contigo”.

A distinção que propõe é esta:

  • “Precisar” de algo ou de alguém significa, segundo a sua definição, não conseguir viver sem isso. Implica que, se se perder, a vida “acaba” em algum sentido psicológico.
  • “Preferir” implica ter escolhido essa pessoa entre outras opções disponíveis. Desfrutar dela enquanto está e aceitar que a vida continuaria, com tristeza mas sem colapso, se deixasse de estar.

A palavra, diz Riso, não é um pormenor semântico. É a diferença entre duas formas de viver o mesmo vínculo.

Porque é que uma só palavra pode carregar tanto peso

Por trás desta distinção há um mecanismo cognitivo muito concreto que Riso descreve em vários capítulos do livro: a ansiedade não surge por perder algo, mas por acreditar que esse algo era imprescindível.

  • Se acreditas que precisas de algo, a sua perda é vivida como uma ameaça à tua própria sobrevivência emocional. A mente reage com ansiedade antecipatória: vigilância constante perante qualquer sinal de que isso possa desaparecer.
  • Se acreditas que preferes algo, a sua perda é vivida como uma tristeza real, mas delimitada: dói, mas não é interpretada como o fim da tua capacidade de estar bem.

Riso resume-o com uma fórmula que repete de várias maneiras: “existindo a preferência, a carência não manda em nós”. Quando algo passa de necessidade a preferência, deixa de ter esse poder de veto sobre o próprio bem-estar.

A ideia não nasce com Riso. É muito próxima da distinção que o psicólogo Albert Ellis pôs no centro da sua terapia racional-emotiva desde os anos sessenta: as exigências absolutas (“tenho de”, “não conseguiria suportar”) face às preferências (“gostaria”, “prefiro”). Para Ellis, as primeiras geram ansiedade e as segundas permitem sentir tristeza ou desilusão sem transbordar. Riso leva essa mesma lógica para o terreno do apego afetivo.

Um exemplo que nada tem a ver com o amor

Para mostrar que esta lógica não é exclusiva das relações amorosas, Riso dá um exemplo doméstico: a roupa e a moda.

  • Se acreditas que “não te podes descuidar e ficar para trás” em cada nova estação, qualquer peça que esgote ou passe de moda se torna uma pequena crise.
  • Se as novidades “não te tiram o sono” nem “te interessam minimamente”, a moda deixa de ter esse poder sobre o teu estado de espírito.

O mecanismo é o mesmo que numa relação amorosa, só que aplicado a um objeto com muito menos carga emocional. É isso que permite vê-lo com mais clareza: para Riso, a ansiedade não vem do objeto (uma peça de roupa, uma pessoa), mas do rótulo mental que se lhe põe.

Quando este mecanismo aparece no casal, costuma sobrepor-se àquilo a que a psicologia da vinculação chama vinculação ansiosa: o medo de que a outra pessoa deixe de estar disponível.

Uma ideia com mais de dois mil anos

Riso não apresenta isto como uma descoberta própria da psicologia cognitiva moderna. Liga-o a um texto budista antigo, o Udana do cânone páli, na passagem conhecida como “o poço” (Udana 7.9). Aí o Buda pronuncia este verso, que Riso cita assim:

De que serve um poço se há água por toda a parte? O que resta procurar se se cortou a raiz do desejo?

A lógica é a mesma: a necessidade de um poço concreto só existe se se acreditar que a água é escassa.

Assim que se percebe que há outras fontes, esse poço concreto deixa de ser indispensável, ainda que continue a ser, talvez, o preferido.

A declaração completa, e porque não é tão fria como parece

O excerto com que começa este artigo é apenas o início de um texto mais longo que Riso propõe ler, ou até dizer em voz alta, dirigido à pessoa de quem se depende. Mais adiante, o texto acrescenta um matiz importante:

Caminhemos juntos, se nos apetecer, mas não sejamos “um para o outro”, por favor. […] O senhor não define a minha existência nem eu a sua.

A declaração não termina na separação nem na indiferença. Termina numa ideia concreta: que duas pessoas se podem escolher ativamente, dia após dia, sem que nenhuma delas precise da outra para se sustentar.

Riso resume-o com uma frase que fecha o capítulo: “quem não possui o outro respeita-o, e isso é beleza, ternura e desapego”.

O que este exercício não propõe

Convém ser preciso quanto ao que esta ideia implica e ao que não implica.

  • Não propõe deixar de amar com intensidade. Riso é explícito: pode amar-se “até às últimas consequências” sem depender.
  • Não propõe independência emocional entendida como frieza ou distância afetiva real. O próprio autor distingue isso do desapego que defende, que descreve como “amar sem possuir, não amar menos”.
  • Não é um exercício para fazer uma única vez. Riso apresenta-o dentro de uma lista mais ampla de práticas (identificar o medo de fundo, aceitar a possibilidade da perda, treinar a confiança na própria capacidade de estar bem sozinho), das quais esta mudança de vocabulário é apenas o ponto de partida.

Mudar uma palavra não muda, por si só, uma relação de dependência. Mas nomear de outra forma o que se sente costuma ser, segundo esta abordagem, o primeiro passo antes de conseguir mudar a forma como se sente de verdade. Se queres saber em que grau este padrão se manifesta em ti, o nosso teste de dependência emocional mede-o em poucos minutos.

Fontes

  • Riso, W. (2012). Desapegarse sin anestesia: Cómo soltarse de todo aquello que nos quita energía y bienestar. Editorial Planeta Colombiana.
  • Ellis, A. (1962). Reason and Emotion in Psychotherapy. Lyle Stuart.
  • Udana 7.9, Udapana Sutta (“O poço”). Cânone páli, Khuddaka Nikaya. Tradução inglesa de Thanissaro Bhikkhu

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Perguntas frequentes

Basta trocar a palavra 'preciso' por 'prefiro' para deixar de depender de alguém?

Não de forma automática. O próprio Walter Riso, em Desapegarse sin anestesia (2012), apresenta-o como um exercício de autoverbalização dentro de um processo mais amplo, não como uma fórmula mágica de um só passo. Mudar a palavra é o primeiro movimento rumo a uma mudança real na forma de viver a relação, não o fim do processo.

'Precisar' de alguém é sempre negativo?

Segundo este enquadramento, não se trata de deixar de amar com intensidade, mas de distinguir entre depender de algo para a própria sobrevivência emocional (necessidade) e escolher estar com alguém, desfrutando enquanto durar (preferência). A intensidade do afeto pode ser a mesma nos dois casos.

De onde vem esta ideia da 'necessidade' face à 'preferência'?

Walter Riso desenvolve-a combinando psicologia cognitiva com filosofia budista sobre o apego e o desapego. Tem um precedente claro na terapia racional-emotiva de Albert Ellis, que distinguia entre exigências absolutas e preferências. O verso do Udana (7.9) que Riso cita ('de que serve um poço se há água por toda a parte?') resume a mesma ideia: a necessidade só existe quando se acredita que algo é indispensável.

Este artigo substitui uma terapia para a dependência emocional?

Não. Resume uma ideia de um livro de divulgação psicológica com fins informativos. Se a dependência emocional gera um mal-estar significativo e prolongado, o indicado é a avaliação de um profissional de saúde mental.