Porque é que trocar 'preciso de ti' por 'prefiro-te' pode ajudar a sair de uma relação de dependência?
“Lamento, mas o senhor não é a minha felicidade. Não, não é, e por isso liberto-me.”
Assim começa um dos exercícios que o psicólogo Walter Riso propõe no livro Desapegarse sin anestesia (2012): uma declaração que o leitor deve ler imaginando que se dirige à pessoa de quem depende.
Não é um exercício de ruptura, mas de linguagem, e a mudança que propõe é, na aparência, mínima: substituir um verbo por outro.
O apaixonado que pergunta “precisas de mim?”
Riso ilustra a diferença com um diálogo breve:
O apaixonado pergunta: “Precisas de mim, meu amor?”. Ela responde: “Não, prefiro-te”. O que é o mesmo que dizer: “Escolho estar contigo”.
A distinção que propõe é esta:
- “Precisar” de algo ou de alguém significa, segundo a sua definição, não conseguir viver sem isso. Implica que, se se perder, a vida “acaba” em algum sentido psicológico.
- “Preferir” implica ter escolhido essa pessoa entre outras opções disponíveis. Desfrutar dela enquanto está e aceitar que a vida continuaria, com tristeza mas sem colapso, se deixasse de estar.
A palavra, diz Riso, não é um pormenor semântico. É a diferença entre duas formas de viver o mesmo vínculo.
Porque é que uma só palavra pode carregar tanto peso
Por trás desta distinção há um mecanismo cognitivo muito concreto que Riso descreve em vários capítulos do livro: a ansiedade não surge por perder algo, mas por acreditar que esse algo era imprescindível.
- Se acreditas que precisas de algo, a sua perda é vivida como uma ameaça à tua própria sobrevivência emocional. A mente reage com ansiedade antecipatória: vigilância constante perante qualquer sinal de que isso possa desaparecer.
- Se acreditas que preferes algo, a sua perda é vivida como uma tristeza real, mas delimitada: dói, mas não é interpretada como o fim da tua capacidade de estar bem.
Riso resume-o com uma fórmula que repete de várias maneiras: “existindo a preferência, a carência não manda em nós”. Quando algo passa de necessidade a preferência, deixa de ter esse poder de veto sobre o próprio bem-estar.
A ideia não nasce com Riso. É muito próxima da distinção que o psicólogo Albert Ellis pôs no centro da sua terapia racional-emotiva desde os anos sessenta: as exigências absolutas (“tenho de”, “não conseguiria suportar”) face às preferências (“gostaria”, “prefiro”). Para Ellis, as primeiras geram ansiedade e as segundas permitem sentir tristeza ou desilusão sem transbordar. Riso leva essa mesma lógica para o terreno do apego afetivo.
Um exemplo que nada tem a ver com o amor
Para mostrar que esta lógica não é exclusiva das relações amorosas, Riso dá um exemplo doméstico: a roupa e a moda.
- Se acreditas que “não te podes descuidar e ficar para trás” em cada nova estação, qualquer peça que esgote ou passe de moda se torna uma pequena crise.
- Se as novidades “não te tiram o sono” nem “te interessam minimamente”, a moda deixa de ter esse poder sobre o teu estado de espírito.
O mecanismo é o mesmo que numa relação amorosa, só que aplicado a um objeto com muito menos carga emocional. É isso que permite vê-lo com mais clareza: para Riso, a ansiedade não vem do objeto (uma peça de roupa, uma pessoa), mas do rótulo mental que se lhe põe.
Quando este mecanismo aparece no casal, costuma sobrepor-se àquilo a que a psicologia da vinculação chama vinculação ansiosa: o medo de que a outra pessoa deixe de estar disponível.
Uma ideia com mais de dois mil anos
Riso não apresenta isto como uma descoberta própria da psicologia cognitiva moderna. Liga-o a um texto budista antigo, o Udana do cânone páli, na passagem conhecida como “o poço” (Udana 7.9). Aí o Buda pronuncia este verso, que Riso cita assim:
De que serve um poço se há água por toda a parte? O que resta procurar se se cortou a raiz do desejo?
A lógica é a mesma: a necessidade de um poço concreto só existe se se acreditar que a água é escassa.
Assim que se percebe que há outras fontes, esse poço concreto deixa de ser indispensável, ainda que continue a ser, talvez, o preferido.
A declaração completa, e porque não é tão fria como parece
O excerto com que começa este artigo é apenas o início de um texto mais longo que Riso propõe ler, ou até dizer em voz alta, dirigido à pessoa de quem se depende. Mais adiante, o texto acrescenta um matiz importante:
Caminhemos juntos, se nos apetecer, mas não sejamos “um para o outro”, por favor. […] O senhor não define a minha existência nem eu a sua.
A declaração não termina na separação nem na indiferença. Termina numa ideia concreta: que duas pessoas se podem escolher ativamente, dia após dia, sem que nenhuma delas precise da outra para se sustentar.
Riso resume-o com uma frase que fecha o capítulo: “quem não possui o outro respeita-o, e isso é beleza, ternura e desapego”.
O que este exercício não propõe
Convém ser preciso quanto ao que esta ideia implica e ao que não implica.
- Não propõe deixar de amar com intensidade. Riso é explícito: pode amar-se “até às últimas consequências” sem depender.
- Não propõe independência emocional entendida como frieza ou distância afetiva real. O próprio autor distingue isso do desapego que defende, que descreve como “amar sem possuir, não amar menos”.
- Não é um exercício para fazer uma única vez. Riso apresenta-o dentro de uma lista mais ampla de práticas (identificar o medo de fundo, aceitar a possibilidade da perda, treinar a confiança na própria capacidade de estar bem sozinho), das quais esta mudança de vocabulário é apenas o ponto de partida.
Mudar uma palavra não muda, por si só, uma relação de dependência. Mas nomear de outra forma o que se sente costuma ser, segundo esta abordagem, o primeiro passo antes de conseguir mudar a forma como se sente de verdade. Se queres saber em que grau este padrão se manifesta em ti, o nosso teste de dependência emocional mede-o em poucos minutos.
Fontes
- Riso, W. (2012). Desapegarse sin anestesia: Cómo soltarse de todo aquello que nos quita energía y bienestar. Editorial Planeta Colombiana.
- Ellis, A. (1962). Reason and Emotion in Psychotherapy. Lyle Stuart.
- Udana 7.9, Udapana Sutta (“O poço”). Cânone páli, Khuddaka Nikaya. Tradução inglesa de Thanissaro Bhikkhu
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Perguntas frequentes
Basta trocar a palavra 'preciso' por 'prefiro' para deixar de depender de alguém?
Não de forma automática. O próprio Walter Riso, em Desapegarse sin anestesia (2012), apresenta-o como um exercício de autoverbalização dentro de um processo mais amplo, não como uma fórmula mágica de um só passo. Mudar a palavra é o primeiro movimento rumo a uma mudança real na forma de viver a relação, não o fim do processo.
'Precisar' de alguém é sempre negativo?
Segundo este enquadramento, não se trata de deixar de amar com intensidade, mas de distinguir entre depender de algo para a própria sobrevivência emocional (necessidade) e escolher estar com alguém, desfrutando enquanto durar (preferência). A intensidade do afeto pode ser a mesma nos dois casos.
De onde vem esta ideia da 'necessidade' face à 'preferência'?
Walter Riso desenvolve-a combinando psicologia cognitiva com filosofia budista sobre o apego e o desapego. Tem um precedente claro na terapia racional-emotiva de Albert Ellis, que distinguia entre exigências absolutas e preferências. O verso do Udana (7.9) que Riso cita ('de que serve um poço se há água por toda a parte?') resume a mesma ideia: a necessidade só existe quando se acredita que algo é indispensável.
Este artigo substitui uma terapia para a dependência emocional?
Não. Resume uma ideia de um livro de divulgação psicológica com fins informativos. Se a dependência emocional gera um mal-estar significativo e prolongado, o indicado é a avaliação de um profissional de saúde mental.