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Vinculação

O psicólogo que descreveu o 'vício no telemóvel' em 2012, antes de o termo existir

Por Rafa Personaramic3 min de leitura
Ilustração minimalista com um telemóvel estilizado num emblema geométrico

O psicólogo que descreveu o “vício no telemóvel” antes de o termo existir

Em 2012, o psicólogo Walter Riso publicou «Desapegar sem Anestesia», um livro que descrevia um padrão que hoje reconheceríamos de imediato, mas que na altura ainda não tinha nome próprio no discurso popular: a incapacidade de tolerar a espera, o silêncio ou a lentidão. Riso chamou-lhe iamismo, do “já” que se exige a tudo.

Nota de responsabilidade: Este artigo baseia-se no livro de Walter Riso e em investigação relacionada, e tem uma finalidade exclusivamente divulgativa. Não substitui a avaliação, o diagnóstico nem a intervenção de um profissional de saúde mental.

A piada do consultório

Riso abre o tema com uma anedota: um médico entra na consulta e o paciente, em vez de o cumprimentar, pergunta-lhe primeiro se pode ligar o BlackBerry porque está à espera de um e-mail urgente. O médico responde que sim, claro, mas repara que a “urgência” não tinha nada a ver com o motivo da consulta. É um retrato do que Riso quer nomear: a sensação de que tudo precisa de resposta imediata, independentemente da sua importância real.

Uma feira de tecnologia e uma carta que nunca chegava

Riso descreve ter observado, numa feira de tecnologia, pessoas a testarem dispositivos com uma ansiedade visível caso a ligação demorasse mais do que alguns segundos. Contrapõe essa cena a uma memória pessoal, uma época em que se esperava semanas por uma carta, e em que essa espera fazia parte natural da relação com o tempo e com o outro, sem gerar o mesmo tipo de mal-estar.

Cinco sinais de alerta

Riso propõe cinco sinais que, juntos, indicam um padrão de iamismo já instalado:

  1. Verificar o telemóvel repetidamente sem um motivo concreto para o fazer.
  2. Sentir desconforto físico perante uma notificação não lida.
  3. Dificuldade em desligar o telemóvel, mesmo por períodos curtos e sem consequências reais.
  4. Irritação desproporcionada perante uma resposta lenta de outra pessoa.
  5. Usar o ecrã para preencher qualquer silêncio, mesmo os mais breves.

O que dizia a investigação da época

Riso cita um estudo de Yen e colaboradores (2008), publicado na revista Psychiatry and Clinical Neurosciences, que comparava sintomas de vício na internet em adolescentes com padrões característicos do abuso de substâncias: tolerância crescente, sintomas de abstinência e perda de controlo sobre o tempo de uso. O mesmo estudo relacionava a timidez e a fobia social com um risco maior de desenvolver este tipo de padrão, uma vez que o ecrã oferece uma forma de interação que evita o desconforto do contacto direto.

O verdadeiro problema não é o aparelho

Riso insiste num ponto central: o dispositivo em si não é o problema. O problema é a incapacidade de o largar no momento certo, o que ele descreve como uma espécie de síndrome do desligado: o mal-estar que aparece precisamente quando não há ecrã disponível, mesmo que só por alguns minutos.

Duas sugestões práticas

Riso propõe, entre outras, duas ideias simples: distinguir entre precisar de algo e preferir tê-lo (uma distinção que também aparece de forma central em porque trocar “preciso de ti” por “prefiro-te” pode curar uma relação de dependência), e praticar deliberadamente a espera em situações de baixo risco, como forma de reconstruir a tolerância que o hábito foi corroendo.

Mais de uma década depois, o diagnóstico de Riso parece ter antecipado uma conversa que só se tornaria comum anos mais tarde. O que ele descrevia não era ainda sobre telemóveis inteligentes na forma como os conhecemos hoje, mas sobre algo mais profundo: a nossa crescente dificuldade em conviver com a espera.

Fontes

Riso, W. (2012). Desapegar sin anestesia. Editorial Planeta.

Yen, J. Y., Ko, C. H., Yen, C. F., Chen, S. H., Chung, W. L., & Chen, C. C. (2008). Psychiatric symptoms in adolescents with Internet addiction: Comparison with substance use. Psychiatry and Clinical Neurosciences, 62(1), 9-16.

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Perguntas frequentes

O que é o 'iamismo' de que fala Walter Riso?

É o termo que Riso usa em 'Desapegar sem Anestesia' (2012) para descrever o apego à imediatez e à velocidade: a incapacidade de tolerar a espera ou o silêncio, mesmo em situações sem urgência real.

É o mesmo que o vício no telemóvel de que se fala hoje?

Estão relacionados, mas não são idênticos: o iamismo é o padrão psicológico de fundo (a intolerância à espera), enquanto o vício no telemóvel é a forma concreta e atual que esse padrão costuma assumir.

Quais são os sinais de alerta?

Riso descreve cinco: verificar o telemóvel sem motivo concreto, desconforto perante notificações não lidas, dificuldade em desligar o telemóvel mesmo por curtos períodos, irritação perante respostas lentas dos outros, e usar o ecrã para preencher qualquer silêncio.

Este artigo substitui uma avaliação profissional?

Não. Este conteúdo tem finalidade divulgativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico nem a intervenção de um profissional de saúde mental.