Virtude da sabedoria: curiosidade, critério e criatividade
A virtude da sabedoria: o prazer de compreender
Não é o mesmo acumular dados e desfrutar a compreender algo de verdade. A segunda disposição é a que Christopher Peterson e Martin Seligman agruparam sob a sabedoria na sua classificação da psicologia positiva (2004): as forças relacionadas com adquirir e usar o conhecimento, ao lado da virtude da coragem, que completa o outro extremo de sustentar as próprias convicções.
Quem se destaca nesta virtude costuma desfrutar tanto do processo de aprender como do resultado, e aplica esse conhecimento com critério próprio, não apenas de forma memorizada.
As cinco forças que a compõem
- Criatividade: produzir ideias ou soluções originais e, ao mesmo tempo, úteis, para si próprio ou para os outros. Inclui a criação artística, mas não se limita a ela.
- Curiosidade: o desejo genuíno de experimentar e conhecer, e a disposição ativa para procurar informação nova perante o que se revela desafiante ou desconhecido.
- Abertura de espírito: a vontade de procurar ativamente provas contrárias às próprias crenças ou planos e, se surgirem, avaliá-las com justiça, sendo capaz de mudar de opinião.
- Amor pelo saber: o gosto sustentado por adquirir novas competências e conhecimentos, de forma autodidata ou formal, para além do que exige uma obrigação concreta.
- Perspetiva: um nível superior de juízo que permite dar conselhos sábios aos outros e abordar as grandes perguntas sobre o sentido e o desenvolvimento da vida.
Como se nota na prática
- Procuram compreender antes de memorizar: preferem entender o porquê das coisas a repetir informação sem a questionar.
- Desfrutam da novidade intelectual, seja um livro, uma conversa ou um problema novo para resolver.
- Ponderam a informação antes de decidir, em vez de se deixarem levar pela primeira impressão.
- São a pessoa a quem os outros pedem conselho em decisões difíceis, não tanto por terem respostas rápidas, mas por ajudarem a vê-las com perspetiva.
A curiosidade como talento, não apenas como traço
Marcus Buckingham e Donald Clifton, criadores do método StrengthsFinder da Gallup, propõem em Now, Discover Your Strengths (2001) uma definição concreta de talento: qualquer padrão recorrente de pensamento, sentimento ou comportamento que se pode aplicar de forma produtiva. Ser instintivamente curioso encaixa perfeitamente nessa definição, tal como ser competitivo, persistente ou encantador. A distinção importa porque muda a forma como se trata a curiosidade: não como um simples traço de personalidade que se tem ou não se tem, mas como um recurso concreto que se pode reconhecer, nomear e usar de forma deliberada no trabalho ou no estudo. Buckingham e Clifton insistem em que este tipo de padrão, quando identificado com clareza, se torna a base de um desempenho consistente e quase excelente numa atividade concreta, não um episódio isolado. Para alguém alto nesta força, tratar a própria curiosidade como um talento que merece cultivo ativo (procurar projetos, papéis ou conversas que a exijam) costuma dar melhor resultado do que a deixar como um simples passatempo de fundo.
Quatro hábitos que a literatura associa a esta virtude
- A exposição a ideias diferentes das próprias, ainda que incomodem ao início: segundo esta abordagem, é onde mais se costuma aprender. Por exemplo, ler um argumento bem construído contra uma posição própria costuma ensinar mais do que outro artigo que apenas a confirma.
- O tempo dedicado a aprender algo sem utilidade imediata, só pelo interesse de o compreender.
- Questionar as próprias certezas de vez em quando: a pergunta “e se estiver enganado nisto?” associa-se, segundo este modelo, a manter ativo o pensamento crítico.
- Cada força em separado: a criatividade costuma associar-se a gerar muitas ideias antes de as julgar; a abertura de espírito, a procurar ativamente o melhor argumento contra aquilo em que se acredita.
Queres saber mais sobre ti?
Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
Que forças inclui a virtude da sabedoria?
Cinco: criatividade, curiosidade, abertura de espírito, amor pelo saber e perspetiva (a capacidade de dar conselhos sábios sobre as grandes perguntas da vida).
Sabedoria é a mesma coisa que inteligência?
Não. A inteligência é uma capacidade cognitiva; a sabedoria, neste modelo, é uma disposição para procurar e usar o conhecimento de forma reflexiva, independente do quociente de inteligência.
Como se cultiva esta virtude?
A literatura sobre esta virtude associa-a à exposição a ideias novas e a questionar as próprias certezas, mais do que a acumular dados de forma memorizada.
Em que se diferenciam a curiosidade e o amor pelo saber?
A curiosidade é o impulso de explorar o novo no momento; o amor pelo saber é o gosto sustentado por aumentar o próprio conhecimento ao longo do tempo, dentro ou fora de uma sala de aula.